sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pão nosso

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eu deveria ir dormir

apagar a luz

descansar o corpo

fazer o que é “certo”

do ponto de vista
do mundo

mas eu não sou o mundo

e por um defeito
(ou qualidade?)

caminho
como se meus passos

já estivessem
traçados

eu deveria ir dormir

preciso trabalhar

ganhar uma grana
pra sobreviver

mas isso não é viver

viver é

passar a madrugada

tomando
uísque

ou café

é assistir Tarantino

transar

percorrer de mãos dadas
avenidas

e bulevares

que tempo este
no qual exaltamos
a escravidão

o trabalho é uma máquina
que nos mói
e remói

e a partir de certa idade
somos farinha

farinha escura
e azeda

é com esta farinha

de seres ressabiados

desiludidos
e desesperados

que construímos
a sociedade

seres-farinha

do grande pão
social

massa

sem gosto
sem rosto

— quem comerá deste pão?

nem o diabo...

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Para que serve a Filosofia?

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             Para pensar. Com método. Mas qual método? Há vários. Espera-se que um bom pensador desenvolva o seu. O que se faz ao estudar Filosofia, cursando, por exemplo, uma faculdade, ou lendo obras clássicas da área, é treinar a forma, o modo de pensar. De um treinamento contínuo e de centenas de leituras, surge um pensar que é próprio.

            Não se estuda um filósofo para se pensar apenas como ele, mas também com e a partir dele. Treinando-se o pensamento, qual bônus advém disso? Vários. Vou expor alguns.

            A Filosofia como remédio. A vida é feita de conflitos. Continuamente. Muitos deles, inclusive, internos. Ter um pensamento "afiado", bem como um repertório de conhecimentos filosóficos, pode ajudar a se pensar melhor esses conflitos, buscando ou solucioná-los (o que é muito difícil) ou amenizá-los (o que já é uma grande coisa). A Filosofia ainda tem outro "bônus" quanto a isso: ela não busca somente curar ou consolar, mas também nunca perde de seu campo de visão a busca pela verdade. Consolo sim. Cura, se possível. Sem, no entanto, sacrificar a procura da verdade, tal como a razão é capaz de captá-la.
           
            A Filosofia como guia. É difícil saber o que se fazer com a própria vida. Há os que seguem um caminho mais ou menos premeditado, influência de seu meio social e familiar. Há profissões, por exemplo, que não são escolhidas, mas impostas ao indivíduo durante sua juventude. No extremo oposto, estão os sujeitos sem direcionamento algum, sendo simplesmente "levados" pela vida. Nesse modelo, não há nem vida imposta, nem vida escolhida. É um abandono contínuo, sem objetivos definidos.

             A Filosofia é uma das mais antigas áreas do conhecimento. Se há algo que não lhe falta, são exposições sobre as melhores formas de se viver. De Platão a Schopenhauer, passador por Aristóteles e Séneca, Spinoza e Kant: quase todos os grandes pensadores oferecem algum modelo do que seria, na visão deles, uma vida bem-sucedida, feliz. Não receitas prontas, superficiais. Um bom filósofo clássico sempre tem algo mais a oferecer. Analisando os vários caminhos possíveis, cada um pode se inspirar para construir o seu.

            Seria bom, em um tempo de tanta superficialidade, que todos tentassem, ao menos uma vez, atingir um ponto de reflexão mais contundente em suas vidas. Infelizmente, apesar de ter certa representação na sociedade, a Filosofia está longe de ser popular.