sábado, 22 de junho de 2019

Na essência

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            É difícil, para qualquer um, olhar para si mesmo e aprender a conviver com seu lado obscuro. Todos deveriam adquirir consciência do mal que carregam dentro de si. Infelizmente, “gurus” modernos e livros de autoajuda não se cansam de afirmar que devemos focar apenas em nossos pontos positivos.

            Não é bem assim...

            Entre as ciências humanas, temos a Psicanálise, operando a partir da descoberta daquilo que nos incomoda e, quer desejemos ou não, faz parte de nosso ser. Não está no outro, no vizinho, no colega de trabalho de quem não gostamos, no partido político, no sistema. Está em nós e, sendo parte de nossa natureza em termos de espécie, simultaneamente, está em todos.

            Há ainda outra área, da psicologia, a trabalhar muito bem com esse “eu nefasto”. Trata-se da Psicologia Analítica, também conhecida como Psicologia Complexa ou, simplesmente, junguiana. Fundada por Carl Gustav Jung na primeira metade do século passado, ela tem um conceito específico para se referir a essa parte de nossa natureza: sombra.

            A sombra é, segundo Jung, parte de nossa estrutura psíquica, sendo encontrada em todos os representantes da espécie. Trata-se daquela parte rejeitada de nós mesmos que, muitas vezes, nem ousamos admitir, repleta de egoísmo e violência. A sombra não deseja nada além de satisfazer seus próprios desejos, pouco se importando com questões morais. Em comparação à Psicanálise, ela estaria alocada junto ao inconsciente.

            Quando não conseguimos suportar nossos mais sujos defeitos, ainda segundo Jung, tendemos a projetá-los. Não são de surpreender, assim, notícias sobre pessoas que, gritando contra a corrupção, bradando contra adversários políticos supostamente corruptos, acabam elas próprias presas por cometerem delitos tão ruins quanto ou até mesmo piores. O que temos dificuldade de suportar em nós, lançamos aos outros e passamos, então, a lhes apedrejar.

            Pelo mesmo motivo, deve-se desconfiar de todo sujeito demasiadamente esforçado em passar uma boa imagem de si mesmo, em parecer muito correto. Pode ser alguém que, tendo dificuldade em notar e suportar sua própria podridão, a projeta nos outros e, simultaneamente, faz hercúleo esforço, mesmo que inconsciente, para escondê-la.

            Ninguém é “bonzinho”. O santo, bem como o sábio, são ideias, idealizações, a nos puxarem para frente, objetivos inatingíveis em sua plenitude. Servem para nos ajudar a buscar a perfeição, tendo consciência, porém, de que jamais a alcançaremos. Aqueles que pensam tê-la atingido, não passam de grandes ignorantes. Fuja deles! Pois irão, mais cedo ou mais tarde, meter-lhe em encrencas...

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