quarta-feira, 26 de junho de 2019

Muitas Cinzas - Sobre a impressão na gráfica Bok2



Chegaram ontem as provas do meu livro "Muitas cinzas". Fiz este vídeo sobre a impressão da gráfica Bok2, de São Paulo, pensando em outros escritores que também estão procurando uma gráfica para imprimir sua obra. Confira comigo a qualidade da impressão! ;)
Clique aqui para acessar a página da Bok2.

sábado, 22 de junho de 2019

Na essência

ImagemFree-Photos CC0 / imagem alterada
            É difícil, para qualquer um, olhar para si mesmo e aprender a conviver com seu lado obscuro. Todos deveriam adquirir consciência do mal que carregam dentro de si. Infelizmente, “gurus” modernos e livros de autoajuda não se cansam de afirmar que devemos focar apenas em nossos pontos positivos.

            Não é bem assim...

            Entre as ciências humanas, temos a Psicanálise, operando a partir da descoberta daquilo que nos incomoda e, quer desejemos ou não, faz parte de nosso ser. Não está no outro, no vizinho, no colega de trabalho de quem não gostamos, no partido político, no sistema. Está em nós e, sendo parte de nossa natureza em termos de espécie, simultaneamente, está em todos.

            Há ainda outra área, da psicologia, a trabalhar muito bem com esse “eu nefasto”. Trata-se da Psicologia Analítica, também conhecida como Psicologia Complexa ou, simplesmente, junguiana. Fundada por Carl Gustav Jung na primeira metade do século passado, ela tem um conceito específico para se referir a essa parte de nossa natureza: sombra.

            A sombra é, segundo Jung, parte de nossa estrutura psíquica, sendo encontrada em todos os representantes da espécie. Trata-se daquela parte rejeitada de nós mesmos que, muitas vezes, nem ousamos admitir, repleta de egoísmo e violência. A sombra não deseja nada além de satisfazer seus próprios desejos, pouco se importando com questões morais. Em comparação à Psicanálise, ela estaria alocada junto ao inconsciente.

            Quando não conseguimos suportar nossos mais sujos defeitos, ainda segundo Jung, tendemos a projetá-los. Não são de surpreender, assim, notícias sobre pessoas que, gritando contra a corrupção, bradando contra adversários políticos supostamente corruptos, acabam elas próprias presas por cometerem delitos tão ruins quanto ou até mesmo piores. O que temos dificuldade de suportar em nós, lançamos aos outros e passamos, então, a lhes apedrejar.

            Pelo mesmo motivo, deve-se desconfiar de todo sujeito demasiadamente esforçado em passar uma boa imagem de si mesmo, em parecer muito correto. Pode ser alguém que, tendo dificuldade em notar e suportar sua própria podridão, a projeta nos outros e, simultaneamente, faz hercúleo esforço, mesmo que inconsciente, para escondê-la.

            Ninguém é “bonzinho”. O santo, bem como o sábio, são ideias, idealizações, a nos puxarem para frente, objetivos inatingíveis em sua plenitude. Servem para nos ajudar a buscar a perfeição, tendo consciência, porém, de que jamais a alcançaremos. Aqueles que pensam tê-la atingido, não passam de grandes ignorantes. Fuja deles! Pois irão, mais cedo ou mais tarde, meter-lhe em encrencas...

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Doentes

Imagem: Free-Photos CC0 / imagem alterada
            No mundo de hoje, quase todos prezam pela mudança. Coaches e treinadores, sejam da mente ou do corpo, não se cansam de dizer, gritar, que podemos ser melhores, desafiar nossos limites e abarcar o mundo. Em uma época na qual as mudanças parecem essenciais, falamos muito pouco em aceitação.
           
            Mas nem tudo pode ser mudado. Nem psicológica, nem fisicamente. Todos temos limites. Se não os tivéssemos, seríamos deuses, não seres humanos. Na verdade, mesmo em boa parte da mitologia, fosse ela egípcia, grega ou africana - para citar apenas alguns exemplos - também os deuses possuíam limites. Não podiam tudo. Atuavam em sua área de jurisdição, de acordo com sua natureza. Fora desse âmbito, não tinham poderes, dependiam de outras entidades.

            Assim, Hórus era o deus egípcio dos vivos. Anúbis, o dos mortos. Se Poseidon dominava os mares, Afrodite era a deusa do amor. Se Ogum é o orixá da guerra, Obaluaiyê é o da cura. Cada um em sua área de jurisdição, com poderes específicos.

            O "homo deus" contemporâneo, no entanto, deseja ter todos os poderes. Quer saber tudo, dominar tudo, fazer tudo. Não apenas desrespeita seus limites, como acha normal nem sequer admitir que eles existem.

            Deseja ser Zeus, Rá e Olodumare, deuses supremos das citadas mitologias, mas sem dividir com outros o domínio da criação.

            Isso está nos deixando doentes.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Uns trocados

Imagem: Free-Photos / CC0 / imagem alterada
            Quanto mais se estuda, mais dinheiro se pode ganhar. Essa máxima, popularíssima, embora não esteja de todo errada, traz consigo não apenas uma falácia, mas também um atestado de algo cada vez mais comum: a associação do conhecimento, da cultura, ao lucro.
           
            Embora seja verdade que pessoas com uma melhor formação cultural ganhem mais, parece no mínimo ridículo buscar a sabedoria apenas tendo em vista o aumento do próprio salário.

            A sociedade, sem parar, foca cada vez mais no dinheiro, ao invés de focar na formação cultural em si. Ocorre um deslocamento de valores. Ao invés de dizermos "sou culto, por isso tenho dinheiro", afirmamos "tenho dinheiro, por isso POSSO ser culto". É como se a cultura em si não tivesse valor algum. É como se a cultura só atingisse seu auge quando envolvida em pompa e circunstância.

            Quando se fala em cultura, assim, na maioria das vezes não se está falando sobre qualquer coisa relacionada a um tipo de sabedoria e afins, mas, em última análise, em dinheiro. Se o conhecimento só tem valor quando associado ao poder, logo não é o conhecimento que importa, mas a "grana".

            Troca-se, dessa forma, os fins pelos meios. Cria-se uma monstruosa leva de pessoas envolvidas com a cultura mas que, na verdade, estão mais interessadas em dinheiro. Estudantes fazendo tal curso pelo fato dele ter um melhor retorno financeiro. Pessoas abdicando do que gostariam de fazer em detrimento de algum ganho monetário prometido.

            Deixar de lado suas inspirações mais verdadeiras em função de promessas de ganho financeiro é dar a mão para a infelicidade. Qual a graça de uma vida inautêntica?

            Pior: estamos já tão acostumados com isso que achamos perfeitamente normal. Talvez, se valorizássemos mais a cultura do que o dinheiro, teríamos vidas mais felizes, o que não nos impediria de, igualmente, arrecadar alguns trocados. Mais riqueza, não apenas financeira, mas também cultural e humana.