sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Você aceitaria ter que fechar a porta do seu carro novo com um cadeado?


    Imagine o seguinte: você compra um carro novo. Pouco tempo depois, trafegando com o veículo, descobre que as portas dele se abrem sozinhas, pondo em risco a vida dos passageiros.
    Se isso acontecesse, o que você faria? A situação é absurda, não é mesmo? Eu diria que nos dias de hoje é inaceitável, com tanta tecnologia e tantas normas de segurança e testes. Qualquer pessoa sensata exigiria da montadora um recaal, uma troca. Também acredito que seria possível processar o fabricante, devido aos riscos aos quais os passageiros foram expostos.
    Mas vamos supor - apenas supor - que você NÃO é uma pessoa sensata. Sendo assim, você aceita apenas colocar uma TRANCA e um CADEADO nas portas do veículo. Surreal? Hilário?
    Agora imagine se, ao invés de um carro, fosse um ônibus? Pior: imagine se, ao invés de um ônibus, fossem DEZ?!
    Isso aconteceu. Em Passo Fundo. Na CODEPAS. Qualquer cidadão pode conferir.
    Os últimos ônibus adquiridos pela CODEPAS apresentaram, logo após sua compra, graves problemas na porta do meio, utilizada para embarque e desembarque de cadeirantes. Quando o ônibus está em movimento e nenhum cadeirante é transportado, o espaço permanece ocupado por passageiros em pé. Eles, obviamente, se escoram na porta. O problema é que a trava original dela, erroneamente, não foi projetada para suportar o peso.
    Motoristas e cobradores comunicaram aos gestores da empresa sobre o perigo. Pelo menos dois acidentes foram registrados, com passageiros caindo total ou parcialmente para fora dos ônibus. Qual foi a solução oferecida pelo poder público? Colocar TRANCAS e CADEADOS nas portas. Sem recaal. Sem troca.
    Vidas foram postas em risco. Passageiros poderiam ter se machucado ou, até mesmo, morrido. O poder público colocou uma "tranca" e um "cadeado" na questão.
    A CODEPAS é responsabilidade da prefeitura. Essa é apenas uma, de várias outras situações absurdas que ocorrem diariamente na empresa, devido a ingerência da municipalidade.
    Agora, desejam fechar o setor de transporte público, alegando que "não dá lucro". Serão mais de 100 desempregados, mais de 100 famílias afetadas e mais de 100 vagas de emprego extintas.
    Assim como fez nos ônibus, o poder público deseja colocar uma "tranca" e um "cadeado" na CODEPAS, escondendo a má gestão dos últimos anos.
    
    * O objetivo desse texto não é ofender ninguém, mas sim expor uma situação que é de interesse comum. A CODEPAS é uma autarquia da prefeitura de Passo Fundo e é dever de todos zelar pelo bem público.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Alma penada

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Uma das imagens mais populares da danação eterna é a de um fantasma arrastando correntes. Ao pensar nisso, me vem à cabeça a figura do espírito de Jacob Marley, personagem do conto “Um cântico de Natal”, de Charles Dickens. Esse espírito, condenado, arrastava enormes blocos de pedra, presos as suas correntes.

Mas não é preciso estar morto e condenado para sentir-se preso a correntes. Vivemos sempre atrelados ao passado, em um círculo de repetições de comportamentos. Se o passado nos dá identidade, também nos ata fortemente ao que já deveríamos ter olvidado.

Todos, olhando bem para si, com um mínimo de sinceridade, hão de perceber pelo menos algumas amarras, vícios de comportamento, adquiridos muito cedo, talvez ainda na infância. Se esse olhar for aguçado, provavelmente encontrará centenas de nós, correntes e pedras.

É difícil caminhar com todo esse peso. Também não é fácil desatar os nós, destruir os elos, quebrar as pedras. Creio, inclusive, que muito de tudo isso está tão entranhado em nosso ser que se torna quase impossível ter mais liberdade. Depois, talvez todo esse “sistema” sirva para esconder algo ainda pior.

De quantos desejos desistimos, devido ao enorme peso do passado? Quantas vezes arrastamos o passo, sem ver o que nos prende? Quantos sonhos ruem antes mesmo de começarem, devido a essa grotesca massa de cordas, correntes e pedras?

A liberdade é uma utopia porque já é difícil de obtê-la dentro de nós mesmos. Se a liberdade interna é penosa, imaginemos o quão difícil é a objetiva, buscada no cotidiano. Antes de sermos presos pelo mundo, estamos condenados por dentro. Algo em nós nos prende.

Não é preciso morrer para ser um fantasma e sair por aí arrastando correntes. Fazemos isso todos os dias. A imagem do pobre espírito a vagar por toda a eternidade é apenas uma projeção de nossa própria condição. O único consolo que nos resta é o de que, esta vida, pelo menos, não é eterna.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Oração

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brota lentamente a tristeza
em meu peito torturado

brota sentido e beleza
em meu espírito cansado

a dor é meu humo
a angústia, meu arado

a criação é meu rumo
a solidão, meu fardo

desço ao inferno
mas dos mortos retorno

revigorado

das trevas extraio pureza
amor e fortaleza

obstinado

raiz e pomo
melancólico sumo

adocicado

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Ornitorrinco

Imagem: Dr. Philip Bethge / CC4.0 / imagem alterada


sou um ornitorrinco

nunca conheci
de perto

um ornitorrinco

mas sei que sou um ornitorrinco

esse jeito desajeitado
de caminhar

essa corcunda
ganha

a troco de fincar

o nariz
nos livros

cantarolar
inutilmente

por horas
e horas

ao piano

essa confusão
ao estar

na presença
dos outros

essa boca de pato
a resmungar

coisas
que os outros

não entendem

esse veneno
destilado

em forma
de palavras

injetado
na cabeça

de quem me desafia

sim, sou um ornitorrinco

vim de profundidades
alongadas

cavalgando
pelas sombras

sou um deseducador

trago festim
e escárnio

em minhas mãos

tenho a liberdade da loucura

doce puta
de Roterdã

que deita com todos
em cima da mesa

à hora do jantar

não cumpro regras

e se quebro feitiços
é apenas para lançar outros

— celebrando poesia
nos consumiremos

a todos

e por inteiro

em dias
de eterno crepúsculo

todos ornitorrincos

pés de pato
bicos de pato

veneno de arraia

bailarinas
do Bolshoi

desnaturado canto
de Bob Dylan

mergulharemos nos abismos
de todas as almas

ornitorrincas

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Pão nosso

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eu deveria ir dormir

apagar a luz

descansar o corpo

fazer o que é “certo”

do ponto de vista
do mundo

mas eu não sou o mundo

e por um defeito
(ou qualidade?)

caminho
como se meus passos

já estivessem
traçados

eu deveria ir dormir

preciso trabalhar

ganhar uma grana
pra sobreviver

mas isso não é viver

viver é

passar a madrugada

tomando
uísque

ou café

é assistir Tarantino

transar

percorrer de mãos dadas
avenidas

e bulevares

que tempo este
no qual exaltamos
a escravidão

o trabalho é uma máquina
que nos mói
e remói

e a partir de certa idade
somos farinha

farinha escura
e azeda

é com esta farinha

de seres ressabiados

desiludidos
e desesperados

que construímos
a sociedade

seres-farinha

do grande pão
social

massa

sem gosto
sem rosto

— quem comerá deste pão?

nem o diabo...

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Para que serve a Filosofia?

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             Para pensar. Com método. Mas qual método? Há vários. Espera-se que um bom pensador desenvolva o seu. O que se faz ao estudar Filosofia, cursando, por exemplo, uma faculdade, ou lendo obras clássicas da área, é treinar a forma, o modo de pensar. De um treinamento contínuo e de centenas de leituras, surge um pensar que é próprio.

            Não se estuda um filósofo para se pensar apenas como ele, mas também com e a partir dele. Treinando-se o pensamento, qual bônus advém disso? Vários. Vou expor alguns.

            A Filosofia como remédio. A vida é feita de conflitos. Continuamente. Muitos deles, inclusive, internos. Ter um pensamento "afiado", bem como um repertório de conhecimentos filosóficos, pode ajudar a se pensar melhor esses conflitos, buscando ou solucioná-los (o que é muito difícil) ou amenizá-los (o que já é uma grande coisa). A Filosofia ainda tem outro "bônus" quanto a isso: ela não busca somente curar ou consolar, mas também nunca perde de seu campo de visão a busca pela verdade. Consolo sim. Cura, se possível. Sem, no entanto, sacrificar a procura da verdade, tal como a razão é capaz de captá-la.
           
            A Filosofia como guia. É difícil saber o que se fazer com a própria vida. Há os que seguem um caminho mais ou menos premeditado, influência de seu meio social e familiar. Há profissões, por exemplo, que não são escolhidas, mas impostas ao indivíduo durante sua juventude. No extremo oposto, estão os sujeitos sem direcionamento algum, sendo simplesmente "levados" pela vida. Nesse modelo, não há nem vida imposta, nem vida escolhida. É um abandono contínuo, sem objetivos definidos.

             A Filosofia é uma das mais antigas áreas do conhecimento. Se há algo que não lhe falta, são exposições sobre as melhores formas de se viver. De Platão a Schopenhauer, passador por Aristóteles e Séneca, Spinoza e Kant: quase todos os grandes pensadores oferecem algum modelo do que seria, na visão deles, uma vida bem-sucedida, feliz. Não receitas prontas, superficiais. Um bom filósofo clássico sempre tem algo mais a oferecer. Analisando os vários caminhos possíveis, cada um pode se inspirar para construir o seu.

            Seria bom, em um tempo de tanta superficialidade, que todos tentassem, ao menos uma vez, atingir um ponto de reflexão mais contundente em suas vidas. Infelizmente, apesar de ter certa representação na sociedade, a Filosofia está longe de ser popular.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Muitas Cinzas - Sobre a impressão na gráfica Bok2



Chegaram ontem as provas do meu livro "Muitas cinzas". Fiz este vídeo sobre a impressão da gráfica Bok2, de São Paulo, pensando em outros escritores que também estão procurando uma gráfica para imprimir sua obra. Confira comigo a qualidade da impressão! ;)
Clique aqui para acessar a página da Bok2.

sábado, 22 de junho de 2019

Na essência

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            É difícil, para qualquer um, olhar para si mesmo e aprender a conviver com seu lado obscuro. Todos deveriam adquirir consciência do mal que carregam dentro de si. Infelizmente, “gurus” modernos e livros de autoajuda não se cansam de afirmar que devemos focar apenas em nossos pontos positivos.

            Não é bem assim...

            Entre as ciências humanas, temos a Psicanálise, operando a partir da descoberta daquilo que nos incomoda e, quer desejemos ou não, faz parte de nosso ser. Não está no outro, no vizinho, no colega de trabalho de quem não gostamos, no partido político, no sistema. Está em nós e, sendo parte de nossa natureza em termos de espécie, simultaneamente, está em todos.

            Há ainda outra área, da psicologia, a trabalhar muito bem com esse “eu nefasto”. Trata-se da Psicologia Analítica, também conhecida como Psicologia Complexa ou, simplesmente, junguiana. Fundada por Carl Gustav Jung na primeira metade do século passado, ela tem um conceito específico para se referir a essa parte de nossa natureza: sombra.

            A sombra é, segundo Jung, parte de nossa estrutura psíquica, sendo encontrada em todos os representantes da espécie. Trata-se daquela parte rejeitada de nós mesmos que, muitas vezes, nem ousamos admitir, repleta de egoísmo e violência. A sombra não deseja nada além de satisfazer seus próprios desejos, pouco se importando com questões morais. Em comparação à Psicanálise, ela estaria alocada junto ao inconsciente.

            Quando não conseguimos suportar nossos mais sujos defeitos, ainda segundo Jung, tendemos a projetá-los. Não são de surpreender, assim, notícias sobre pessoas que, gritando contra a corrupção, bradando contra adversários políticos supostamente corruptos, acabam elas próprias presas por cometerem delitos tão ruins quanto ou até mesmo piores. O que temos dificuldade de suportar em nós, lançamos aos outros e passamos, então, a lhes apedrejar.

            Pelo mesmo motivo, deve-se desconfiar de todo sujeito demasiadamente esforçado em passar uma boa imagem de si mesmo, em parecer muito correto. Pode ser alguém que, tendo dificuldade em notar e suportar sua própria podridão, a projeta nos outros e, simultaneamente, faz hercúleo esforço, mesmo que inconsciente, para escondê-la.

            Ninguém é “bonzinho”. O santo, bem como o sábio, são ideias, idealizações, a nos puxarem para frente, objetivos inatingíveis em sua plenitude. Servem para nos ajudar a buscar a perfeição, tendo consciência, porém, de que jamais a alcançaremos. Aqueles que pensam tê-la atingido, não passam de grandes ignorantes. Fuja deles! Pois irão, mais cedo ou mais tarde, meter-lhe em encrencas...

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Doentes

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            No mundo de hoje, quase todos prezam pela mudança. Coaches e treinadores, sejam da mente ou do corpo, não se cansam de dizer, gritar, que podemos ser melhores, desafiar nossos limites e abarcar o mundo. Em uma época na qual as mudanças parecem essenciais, falamos muito pouco em aceitação.
           
            Mas nem tudo pode ser mudado. Nem psicológica, nem fisicamente. Todos temos limites. Se não os tivéssemos, seríamos deuses, não seres humanos. Na verdade, mesmo em boa parte da mitologia, fosse ela egípcia, grega ou africana - para citar apenas alguns exemplos - também os deuses possuíam limites. Não podiam tudo. Atuavam em sua área de jurisdição, de acordo com sua natureza. Fora desse âmbito, não tinham poderes, dependiam de outras entidades.

            Assim, Hórus era o deus egípcio dos vivos. Anúbis, o dos mortos. Se Poseidon dominava os mares, Afrodite era a deusa do amor. Se Ogum é o orixá da guerra, Obaluaiyê é o da cura. Cada um em sua área de jurisdição, com poderes específicos.

            O "homo deus" contemporâneo, no entanto, deseja ter todos os poderes. Quer saber tudo, dominar tudo, fazer tudo. Não apenas desrespeita seus limites, como acha normal nem sequer admitir que eles existem.

            Deseja ser Zeus, Rá e Olodumare, deuses supremos das citadas mitologias, mas sem dividir com outros o domínio da criação.

            Isso está nos deixando doentes.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Uns trocados

Imagem: Free-Photos / CC0 / imagem alterada
            Quanto mais se estuda, mais dinheiro se pode ganhar. Essa máxima, popularíssima, embora não esteja de todo errada, traz consigo não apenas uma falácia, mas também um atestado de algo cada vez mais comum: a associação do conhecimento, da cultura, ao lucro.
           
            Embora seja verdade que pessoas com uma melhor formação cultural ganhem mais, parece no mínimo ridículo buscar a sabedoria apenas tendo em vista o aumento do próprio salário.

            A sociedade, sem parar, foca cada vez mais no dinheiro, ao invés de focar na formação cultural em si. Ocorre um deslocamento de valores. Ao invés de dizermos "sou culto, por isso tenho dinheiro", afirmamos "tenho dinheiro, por isso POSSO ser culto". É como se a cultura em si não tivesse valor algum. É como se a cultura só atingisse seu auge quando envolvida em pompa e circunstância.

            Quando se fala em cultura, assim, na maioria das vezes não se está falando sobre qualquer coisa relacionada a um tipo de sabedoria e afins, mas, em última análise, em dinheiro. Se o conhecimento só tem valor quando associado ao poder, logo não é o conhecimento que importa, mas a "grana".

            Troca-se, dessa forma, os fins pelos meios. Cria-se uma monstruosa leva de pessoas envolvidas com a cultura mas que, na verdade, estão mais interessadas em dinheiro. Estudantes fazendo tal curso pelo fato dele ter um melhor retorno financeiro. Pessoas abdicando do que gostariam de fazer em detrimento de algum ganho monetário prometido.

            Deixar de lado suas inspirações mais verdadeiras em função de promessas de ganho financeiro é dar a mão para a infelicidade. Qual a graça de uma vida inautêntica?

            Pior: estamos já tão acostumados com isso que achamos perfeitamente normal. Talvez, se valorizássemos mais a cultura do que o dinheiro, teríamos vidas mais felizes, o que não nos impediria de, igualmente, arrecadar alguns trocados. Mais riqueza, não apenas financeira, mas também cultural e humana. 

terça-feira, 28 de maio de 2019

Universal


Os maiores abismos que existem entre nós são mentais. Enquanto uns sondam as estrelas em busca do passado longínquo e, ao mesmo tempo, imaginam o futuro distante, outros permanecem atrelados a jogos mesquinhos de poder.

A origem desse distanciamento é, em parte, material — mas não apenas. É fácil encontrar pessoas do mesmo nível socioeconômico com visões extremamente díspares, tanto intelectual quanto moralmente.

Qual a causa, de fato, dessas diferenças?

Há algumas centenas de anos, com o surgimento do Iluminismo, chegou-se a crer que o acesso universal a educação resolveria o problema da ignorância, da indigência intelectual. Cessaria, pensava-se, o analfabetismo, os preconceitos, as guerras.

No entanto, mesmo em países economicamente desenvolvidos, nos quais o acesso à educação já não é um luxo, mas um direito garantido, a maldade e a preguiça parecem ter uma morada permanente — recrudescendo, inclusive, de tempos em tempos!

Trocou-se, na “era da (des)informação”, o simples analfabetismo pelo analfabetismo funcional.

Uma profusão de mentes insossas não sabe e nem procura saber, por exemplo, se uma notícia é verdadeira ou falsa. Como um autêntico acéfalo, o cidadão moderno apenas recebe passivamente a mensagem e a compartilha, sem dedicar um minuto sequer de seu tempo a refletir sobre a veracidade ou não da informação.

A isso, soma-se uma total falta de ética, quando o compartilhamento é capaz de destruir uma reputação ou quando se trata de imagens de assassinatos ou acidentes, escancarando uma total falta de respeito com as vítimas e seus familiares.

Já o preconceito está sempre presente, ora velado, ora escancarado. Tolera-se, por obrigação, raramente por empatia, o diferente. A tolerância, porém, só vai até certo ponto. Não é preciso muito para que a barreira de contenção do ódio estoure, originando alguma nova tragédia.

Quanto às guerras... Há uma profusão de mentes louvando-as! Mesmo após as duas Grandes Guerras do século passado, não aprendemos a lição.

Tantos descalabros não ocorrem, conforme dito, apenas entre os pobres. Tão pouco se deve atribuir aos miseráveis uma “aura santa”. Por outro lado, ninguém ouse pensar que, entre a classe mais rica, supostamente ilustrada, por ter acesso a uma boa educação, tais sandices não ocorram.

 Todas as classes estão a bordo do barco da ignorância. A estupidez não tem preconceito.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Ofício



a poesia é um bicho

selvagem
arisco

entocado nos limites da linguagem

o poeta coloca pratos de arroz

feijão
e carne

frutas
e doces

            à entrada da toca

não tendo mais nada a oferecer
o poeta abre suas veias

— o sangue escorre...

a poesia
tocada

bota uma pata para fora

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O novo credo



Estamos infectados pelo vírus da imbecilidade. Nunca antes, na história deste país, ser imbecil foi tão “cool”. Na religião, arte, filosofia, ciência e política: quanto mais idiota, melhor, está ok?

Poucos se arriscam a fazer uma ligação entre o péssimo momento da cultura em geral e o recrudescimento de posturas políticas extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Existe o medo de represálias, incentivadas pela onda do politicamente correto, ameaçando afogar qualquer um que ouse discordar do “mainstream” pós-moderno.

No entanto, é muito claro que, assim como na arte, filosofia e afins, na política quem comanda o baile é o discurso monossilábico, retrógrado, digno de um pré-adolescente com déficit de aprendizagem.

Vivemos em uma sociedade imbecilizada, voltada para o extremo do consumo e sem qualquer valor posto acima disso e do bem-estar imediato.

É ensinamento epicurista que, mesmo quando se busca o prazer, é preciso ter cuidado, pois a procura irrestrita pela satisfação de todos os desejos leva, mais cedo ou mais tarde, a dor extrema e, não raro, a autodestruição.

Porém, em uma sociedade imbecil, carente de introspecção, incapaz de tecer pensamentos mais complexos, de ver e representar distintos pontos de vista, de lidar com a extrema e caduca trama da realidade, viver o presente atentando para o futuro responsável é praticamente uma utopia, daquelas mais loucas e inatingíveis.

Tanto faz se o amanhã trará, em função de nossas ações presentes, desconforto, guerra e ruína. O importante é seguirmos o “mito” do momento, o imbecil capaz de canalizar toda nossa estupidez, livrando a todos do fardo de ter que pensar.

A vida de um papagaio deve ser mais “fácil” do que a de um gênio, não é?

Viver na complexidade cansa. Viver com gente complexa cansa. Gênios sempre tiveram fama de chatos, atrapalhados e excêntricos. Imbecis são mais dóceis, em todas as áreas, para todas as tarefas.

Imbecilidade na religião, gerando extremismo; na arte, por meio de um minimalismo tosco e nada original; na filosofia, na forma de jargões vazios de autoajuda; na ciência, na formação de um pensamento acrítico e no corte de investimentos; e, por fim e não menos importante, imbecilidade, é claro, na política, esgoto no qual toda essa lama fétida deságua, grande bueiro de nossa terrível incompetência, de nossa demoníaca indigência intelectual.

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.