segunda-feira, 30 de julho de 2018

Cinema



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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Brincadeira

Conto infanto-juvenil publicado no livro “Valdrada em histórias fantásticas”, da editora Physalis.
           
            — Duvido você dar seu endereço. — Disse Sarah, com a cabeça apoiada na mão esquerda.
           
            Felipe a fulminou, olhos negros e astutos.
           
            Na tela do laptop, reluzia a página de um grupo satânico, com imagens de corpos mutilados e ilustrações obscenas.
           
            O garoto digitou códigos, abriu programas e pensou no desafio da amiga, enquanto conferia se o computador continuava seguro contra vírus e malwares.
           
            Já acessara a deep web incontáveis vezes.
           
            Desde o primeiro acesso, ficara fascinado por aquele misterioso, caótico e, não raro, macabro universo.
           
            Certa madrugada, em um fórum sobre fabricação de bombas caseiras, um cracker invadiu seu PC, decodificando seu IP. Desde então, Felipe redobrou os cuidados com a segurança.

            — É tudo mentira...
           
            — Se é assim, por que você está com medo?
           
            — Não estou com medo! — Gritou o menino, batendo o punho na escrivaninha.
           
            — Idiota! — Revidou Sarah, saltando para trás, na cadeira. Ajeitou os cabelos, loiros, enquanto encarava o amigo.
           
            Felipe devolveu o olhar, franzindo o cenho. Mas não havia ódio em seu rosto, somente orgulho. Voltou-se para o computador. Os dedos, ágeis, recomeçaram a digitar.
           
            “Boa noite. Desejo oferecer minha alma em um sacrifício.” A seguir, informou vários dados, como nome e endereço. Embora tivesse treze anos, mentiu que tinha dezenove.
           
            Encerrou a mensagem com um “que os poderes do inferno estejam convosco”. Ao apertar enter, sentiu um mal-estar no estômago.
           
            — Contente?
           
            — Mais ou menos... — Respondeu a menina, com ar de deboche.
           
            Ouvindo isso, Felipe irritou-se tanto que passou a empurrar a amiga em direção à porta do quarto, com cadeira e tudo.
           
            Ao ficar sozinho, mirou o PC mais uma vez. Teve, sem que soubesse por que, um forte tremor nas pernas.
           
            Fechou a página da deep web.
           
            Olhou por alguns segundos para o programa Tor, usado para acessar, anonimamente, a rede onion, e se deu conta do quanto foram vãos os seus esforços para manter a segurança, já que acabara de revelar vários dados pessoais para um site de malucos homicidas.
           
            “Eles farão o quê? Devem ser uns idiotas...”, pensou, enquanto desligava o notebook. Apagou a luz e deitou na cama, cobrindo a cabeça com o edredom.
           
            Nos dias seguintes, esforçou-se para esquecer o ocorrido. Porém, por mais que tentasse, não conseguia. Resolveu deixar de lado, por um tempo, as incursões no lado obscuro da internet, contentando-se em acessar apenas redes sociais e em trocar ideias com alguns hackers.
           
            A mensagem veio uma semana depois, como uma facada no peito, lhe dificultando a respiração, e o mal-estar no estômago voltou e novamente suas pernas tremeram.

            Aconteceu em uma manhã de domingo. Estava escorado em uma das ruínas do Parque da Gare, ouvindo Fear of the dark, com o headphone nos ouvidos, no último volume, enquanto acompanhava, em seu tablet, uma ação do grupo Anonymous contra uma multinacional.

            Na pista de skate, alguns garotos tentavam realizar manobras arriscadas, sem sucesso. No campo de areia, um pai jogava futebol com seu filho pequeno, enquanto a mãe tomava chimarrão, sentada na arquibancada de concreto, à sombra. Quem visse a cena, poderia concluir que Passo Fundo é uma cidade tranquila...

            O e-mail: “Bom dia. Iremos lhe buscar. Sabemos quem é. Onde mora. Quem são seus pais. Nós o observamos. Mentiroso. Pagará caro...”.

            Se não estivesse escorado, talvez Felipe tivesse caído, tal foi o terror que dele se apossou. Leu várias vezes a mensagem, negando-se a acreditar.

            Perdeu a noção do tempo. Permaneceu imóvel, sem saber o que fazer. Impossível. Era impossível. Na certa, estavam brincando com ele. Mas... E se não estivessem? Deveria ir à polícia?

            Bobagem... Eles não iam vir. Era ridículo que viessem. Um trote. Apenas um trote. Estava sendo enganado, brincavam com ele e, tolo, levava a zombaria a sério.

            Lembrou-se da amiga. Sentiu uma raiva incrível. Se não fosse por ela, não estaria passando por aquilo. Quando foi para casa, quase duas horas depois, não havia ninguém no campo de areia, e os skatistas há muito tinham ido embora.

            Mais semanas se passaram. A cada três dias, sempre uma nova mensagem. De ameaça. A ideia era clara: eles viriam lhe buscar.

            Um dia, no almoço, tentou falar com o pai. Não conseguiu. Queria contar para alguém. Precisava. Mas tinha medo que o achassem ridículo...

            Conversou com Sarah. Ela zombou. É claro que não era verdade. Só podiam estar brincando e, idiota, ele levava a sério. Mais uma vez, Felipe ficou com um ódio tremendo da amiga. Desfez a amizade.

            Afastou-se da internet. O que lhe dava tanto prazer, agora o enchia de pavor. Em sua mente, à noite, vinham imagens de filmes snuff que tinha visto, antes com curiosidade e sem se chocar muito. Agora, porém, as lembranças o assustavam.

            Os e-mails continuaram. Ele respondeu algumas vezes, pedindo desculpas, implorando para que o esquecessem. Nada feito...

            Não aguentava mais a tensão, até que o dia, finalmente, chegou.

            Foi em um sábado. Felipe ouviu ruídos e acordou. Os cães ladravam, em desespero. O garoto olhou a hora em seu celular: três da madrugada. Ficou atento. Cessaram os barulhos.

            Dez minutos depois, um grito. Abafado. Interrompido. Teve certeza de que era sua mãe. O coração do menino disparou. O mal-estar no estômago. As pernas bambas. A crença na ideia absurda de que eles realmente estavam ali. Impossível. Não podia ser...

            Mas e se fosse?

            Levantou da cama, tomado por uma coragem que ele próprio desconhecia. Ou era o terror e a tensão que o impulsionavam?

            Abriu a porta e atravessou o corredor do apartamento, na direção do quarto dos pais. Entrou de súbito, com a respiração acelerada, o peito apertado.

            Olhou na direção da janela, aberta, iluminada pela lua cheia. Enxergou dois grandes vultos, usando máscaras com chifres de carneiro e barbicha. Um deles tinha um machado na mão. Apesar da penumbra, o garoto distinguiu algo escorrendo da ponta da arma.

            O machado ergueu-se devagar. O homem caminhou a passos largos.

            No laudo da perícia consta que, além do computador, nada mais fora roubado.

            Hipótese: latrocínio.