quarta-feira, 27 de junho de 2018

Deixa a mulher falar


Deixa a mulher falar...

Ela tem cérebro
e boca,
sabe dizer,
tu não precisas explicar.

Deixa a mulher falar...

Não sejas trouxa.

Vai capinar um lote,
assumir teus filhos,
lavar uma louça.

Deixa a mulher falar...

Vai chupar um prego,
semelhante ao falo,
crista de galo,
que gostas
de ostentar,

mas que

NINGUÉM

é obrigado
a suportar.

Deixa a mulher falar...

Com os lábios,
o corpo,
o sexo,

— deixa a mulher falar, pô!

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Incêndio


tudo que há é lenha
tudo que sobra são cinzas

existem dois caminhos:

queimar
ou apodrecer

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O animal


Os animais são alheios à passagem do tempo.

Exceto um.

Prisioneiro da invenção de Tales,
enforcado em ponteiros de ferro,
carente de materialidade e com vertigens
por não poder medir a morte.

Espera que a contagem possa trazer-lhe substância,

                ESSENTIA.

Medir o tempo é medir a vida — é julgá-la.
Quem julga a vida é infeliz.

Aquele que julga é incapaz de julgar a si mesmo
e por isso engana-se.

A consciência é um resíduo do corpo.
Julgar é um defeito da alma.

A origem da imperfeição
é a contagem do tempo,
     mãe
deste animal desnaturado.

terça-feira, 12 de junho de 2018

A vida nunca espera


A vida não espera. Joga-nos em mil redemoinhos, nos aprisiona em um labirinto com paredes pintadas de esperanças, de sonhos impossíveis, como se uma entidade maligna nos tecesse o fado.

A vida NUNCA espera. Nos empurra como uma deusa impaciente e cruel, sedenta por sacrifícios. São-nos exigidos os mais infames esforços para, talvez, um dia, ganharmos alguma recompensa.

Quem espera pela vida irá carregar filhos mortos. Minará qualquer centelha de esperança. Apagará do peito toda fagulha que lhe permitiria ver em meio à escuridão.

Esperar pela vida é aguardar beija-flores no deserto. É crer na ajuda da própria água que afoga. É negar que a teia da aranha serve para capturar incautos. É ver, imóvel, a aproximação do animal peçonhento.

Quem não aprende a olhar, ávido, para o sol que lhe abrasa o rosto; quem não está disposto a suportar a dor; quem deixa pender como papel molhado seus mais caros desejos — se afogará em mágoas; olhará, sempre triste, para o passado.

Melhor se arrepender pela estrada percorrida do que pelo caminho não trilhado. Esperar não transforma água em vinho, não revolve a terra nem espalha sementes.

Quem espera pelo trem da vida é atropelado por ele. A locomotiva não para. A cada um cabe o esforço para não cair nos trilhos. De ser um maquinista e, não apenas, mais uma engrenagem da grande máquina.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Gaiola


nada peço

a deuses

que não existem

abrem
portas

rastelam
ideias

cospem
na chuva

mas não existem

os deuses
que criamos

nos criaram

porquinhos
da Índia

na gaiola

fôssemos ratos

seríamos
do campo

teríamos alguma chance

mas somos

gordos
e preguiçosos

a gaiola é nosso lar