terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cópia


Seja uma pessoa normal. Obedeça a seus pais. Vá à escola. Procure ser um bom aluno. Arranje um emprego e uma namorada. Nada de sexo casual, desregrado. Case logo e tenha filhos.

Não beba. Não fume. Fique longe das drogas. Exceto das religiosas e das psiquiátricas. Dessas, pode abusar. Frequente um culto. Cristão, é claro. Pague o dízimo. Consulte, periodicamente, o psiquiatra. Tome os remédios receitados todos os dias e ganhe um sono forçado, sem pesadelos nem sonhos, repleto de vazios.

Faça um curso superior. Depois um mestrado. Doutorado. Pós-doutorado. Para poder ostentar algum tipo de autoridade. Nem que seja sobre a “rebimboca da parafuseta” kantiana. Se puder, porém, ignore a Filosofia, a Sociologia e a História. São para adolescentes. Arte? É coisa de vagabundos!

Trabalhe oito horas por dia. Faça hora extra. Não reclame. Agradeça a Deus por ter um emprego. Compre casa. Carro. Moto. Pague IPTU. IPVA. ICMS. Água. Luz. Gás. Bata no peito e diga: “estou ajudando a construir uma nação”. Sorria. Finja estar feliz.

Abra mão de seus sonhos. Em prol da pessoa amada. Dos filhos. Do emprego. Da preguiça. Da covardia. Viva de adiamento em adiamento, ansiando pelo instante de se aposentar.

Louve a meritocracia e, ao mesmo tempo, reclame da falta de oportunidades. Afinal, a meritocracia é ótima — para os outros. Aprenda a culpar a tudo e a todos, por aqueles fracassos que só a você pertencem. Culpe seus pais. Os políticos. O país. A “conjuntura econômica”. 

Seja normal. Seja não apenas doente, mas comum. Cópia. Hipócrita. Gente de bem.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quem é escritor?

            
            Escritor é quem escreve visando o aprimoramento estético de sua escrita, por certo período contínuo de tempo e dando importância a esse ato. Como qualquer ideia, essa também é incapaz de abarcar todo o fenômeno. Podemos, no entanto, supor algumas coisas.

           Em primeiro lugar, é preciso definir o que se entende por "aprimoramento". Não significa, aqui, algo "ex nihilo" ou um "Deus ex machina". Não é "ex nihilo" por que depende da bagagem cultural do indivíduo. Não é "ex machina" por que não tem origem metafísica. É algo que parte do sujeito e toma o próprio sujeito como uma unidade de medida. É algo interno, encerrado em si.

           Seria a prosa de Conrad mais "aprimorada" que a de Hemingway? A poesia de Dante "melhor" que a de Rimbaud? Nada disso. O aprimoramento, aqui, diz respeito ao ponto de partida do sujeito em relação a si mesmo. Se hoje, a partir de determinados critérios, escrevo melhor que ontem, então estou me aprimorando. Se reescrevo inúmeras vezes uma frase, é por que busco um aprimoramento estético. Isso basta.

            Em segundo lugar, é preciso buscar esse aprimoramento por certo período contínuo de tempo. A continuidade é imprescindível. Se por apenas um dia procuro escrever melhor, isso não me faz um escritor. Agora, se passo um, cinco ou dez anos, de um modo mais ou menos contínuo, tentando aprimorar minha escrita, aí sim, temos alguma coisa. Quem é escritor, portanto, possui um desejo quase permanente de escrever mais e melhor.

           Por fim, o ato de buscar um aprimoramento estético permanente em sua escrita precisa ser algo importante para o sujeito. Esse ato terá um forte apelo psicológico, existencial.

           Portanto, se escrevo visando o aprimoramento estético de minha escrita e o faço por certo período mais ou menos contínuo de tempo, tendo esse ato importância em minha vida, sou escritor.

           É possível, agora, definir o que um escritor NÃO é, pelo menos NÃO NECESSARIAMENTE: não é quem tem livro publicado; não é quem é famoso; não é um ser inspirado, genial.

sábado, 1 de setembro de 2018

Brasil sádico

            

            Assistia, pela televisão, uma manifestação ocorrida em uma universidade. As cenas eram as piores possíveis. A PM invadira o campus e, com truculência, reprimia estudantes e professores. O que mais me causou asco, porém, foram os comentários das pessoas que assistiam comigo.

            Na época, trabalhava em uma empresa privada de transporte coletivo e aguardava em uma sala, de plantão. Ao meu redor, colegas demonstravam sádico prazer ao verem os policiais baterem nos manifestantes. Os comentários foram tecidos em um clima "festivo", com direito a "piadinhas" e "toma vagabundo!".

            Operários, como eu, frequentemente precisam fazer greve para garantir seu reajuste anual, um dissídio cada vez mais magro, miserável. Uma parte da categoria, no entanto, não exita em atacar outros grevistas, em condições salariais análogas e com os mesmos problemas.

            Como pode alguém que depende de greve, ser contra as greves de outros operários? Ser contra os protestos de professores, caminhoneiros, técnicos de enfermagem? Que falta de empatia é essa que nos move - ou, melhor, paralisa?

            Precisamos admitir, enquanto povo, que não somos "cordiais" - conforme reza a lenda. Só assim poderemos mudar. O feminicídio, a homofobia, o racismo e a truculência policial são algumas, das inúmeras provas de nossa barbárie, de nossa (in)cultura impregnada de sangue.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Cinema



projeto
no vazio
da mente

(a 16
quadros
de dor
por segundo)

fantasmas
da memória

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Brincadeira

Conto infanto-juvenil publicado no livro “Valdrada em histórias fantásticas”, da editora Physalis.
           
            — Duvido você dar seu endereço. — Disse Sarah, com a cabeça apoiada na mão esquerda.
           
            Felipe a fulminou, olhos negros e astutos.
           
            Na tela do laptop, reluzia a página de um grupo satânico, com imagens de corpos mutilados e ilustrações obscenas.
           
            O garoto digitou códigos, abriu programas e pensou no desafio da amiga, enquanto conferia se o computador continuava seguro contra vírus e malwares.
           
            Já acessara a deep web incontáveis vezes.
           
            Desde o primeiro acesso, ficara fascinado por aquele misterioso, caótico e, não raro, macabro universo.
           
            Certa madrugada, em um fórum sobre fabricação de bombas caseiras, um cracker invadiu seu PC, decodificando seu IP. Desde então, Felipe redobrou os cuidados com a segurança.

            — É tudo mentira...
           
            — Se é assim, por que você está com medo?
           
            — Não estou com medo! — Gritou o menino, batendo o punho na escrivaninha.
           
            — Idiota! — Revidou Sarah, saltando para trás, na cadeira. Ajeitou os cabelos, loiros, enquanto encarava o amigo.
           
            Felipe devolveu o olhar, franzindo o cenho. Mas não havia ódio em seu rosto, somente orgulho. Voltou-se para o computador. Os dedos, ágeis, recomeçaram a digitar.
           
            “Boa noite. Desejo oferecer minha alma em um sacrifício.” A seguir, informou vários dados, como nome e endereço. Embora tivesse treze anos, mentiu que tinha dezenove.
           
            Encerrou a mensagem com um “que os poderes do inferno estejam convosco”. Ao apertar enter, sentiu um mal-estar no estômago.
           
            — Contente?
           
            — Mais ou menos... — Respondeu a menina, com ar de deboche.
           
            Ouvindo isso, Felipe irritou-se tanto que passou a empurrar a amiga em direção à porta do quarto, com cadeira e tudo.
           
            Ao ficar sozinho, mirou o PC mais uma vez. Teve, sem que soubesse por que, um forte tremor nas pernas.
           
            Fechou a página da deep web.
           
            Olhou por alguns segundos para o programa Tor, usado para acessar, anonimamente, a rede onion, e se deu conta do quanto foram vãos os seus esforços para manter a segurança, já que acabara de revelar vários dados pessoais para um site de malucos homicidas.
           
            “Eles farão o quê? Devem ser uns idiotas...”, pensou, enquanto desligava o notebook. Apagou a luz e deitou na cama, cobrindo a cabeça com o edredom.
           
            Nos dias seguintes, esforçou-se para esquecer o ocorrido. Porém, por mais que tentasse, não conseguia. Resolveu deixar de lado, por um tempo, as incursões no lado obscuro da internet, contentando-se em acessar apenas redes sociais e em trocar ideias com alguns hackers.
           
            A mensagem veio uma semana depois, como uma facada no peito, lhe dificultando a respiração, e o mal-estar no estômago voltou e novamente suas pernas tremeram.

            Aconteceu em uma manhã de domingo. Estava escorado em uma das ruínas do Parque da Gare, ouvindo Fear of the dark, com o headphone nos ouvidos, no último volume, enquanto acompanhava, em seu tablet, uma ação do grupo Anonymous contra uma multinacional.

            Na pista de skate, alguns garotos tentavam realizar manobras arriscadas, sem sucesso. No campo de areia, um pai jogava futebol com seu filho pequeno, enquanto a mãe tomava chimarrão, sentada na arquibancada de concreto, à sombra. Quem visse a cena, poderia concluir que Passo Fundo é uma cidade tranquila...

            O e-mail: “Bom dia. Iremos lhe buscar. Sabemos quem é. Onde mora. Quem são seus pais. Nós o observamos. Mentiroso. Pagará caro...”.

            Se não estivesse escorado, talvez Felipe tivesse caído, tal foi o terror que dele se apossou. Leu várias vezes a mensagem, negando-se a acreditar.

            Perdeu a noção do tempo. Permaneceu imóvel, sem saber o que fazer. Impossível. Era impossível. Na certa, estavam brincando com ele. Mas... E se não estivessem? Deveria ir à polícia?

            Bobagem... Eles não iam vir. Era ridículo que viessem. Um trote. Apenas um trote. Estava sendo enganado, brincavam com ele e, tolo, levava a zombaria a sério.

            Lembrou-se da amiga. Sentiu uma raiva incrível. Se não fosse por ela, não estaria passando por aquilo. Quando foi para casa, quase duas horas depois, não havia ninguém no campo de areia, e os skatistas há muito tinham ido embora.

            Mais semanas se passaram. A cada três dias, sempre uma nova mensagem. De ameaça. A ideia era clara: eles viriam lhe buscar.

            Um dia, no almoço, tentou falar com o pai. Não conseguiu. Queria contar para alguém. Precisava. Mas tinha medo que o achassem ridículo...

            Conversou com Sarah. Ela zombou. É claro que não era verdade. Só podiam estar brincando e, idiota, ele levava a sério. Mais uma vez, Felipe ficou com um ódio tremendo da amiga. Desfez a amizade.

            Afastou-se da internet. O que lhe dava tanto prazer, agora o enchia de pavor. Em sua mente, à noite, vinham imagens de filmes snuff que tinha visto, antes com curiosidade e sem se chocar muito. Agora, porém, as lembranças o assustavam.

            Os e-mails continuaram. Ele respondeu algumas vezes, pedindo desculpas, implorando para que o esquecessem. Nada feito...

            Não aguentava mais a tensão, até que o dia, finalmente, chegou.

            Foi em um sábado. Felipe ouviu ruídos e acordou. Os cães ladravam, em desespero. O garoto olhou a hora em seu celular: três da madrugada. Ficou atento. Cessaram os barulhos.

            Dez minutos depois, um grito. Abafado. Interrompido. Teve certeza de que era sua mãe. O coração do menino disparou. O mal-estar no estômago. As pernas bambas. A crença na ideia absurda de que eles realmente estavam ali. Impossível. Não podia ser...

            Mas e se fosse?

            Levantou da cama, tomado por uma coragem que ele próprio desconhecia. Ou era o terror e a tensão que o impulsionavam?

            Abriu a porta e atravessou o corredor do apartamento, na direção do quarto dos pais. Entrou de súbito, com a respiração acelerada, o peito apertado.

            Olhou na direção da janela, aberta, iluminada pela lua cheia. Enxergou dois grandes vultos, usando máscaras com chifres de carneiro e barbicha. Um deles tinha um machado na mão. Apesar da penumbra, o garoto distinguiu algo escorrendo da ponta da arma.

            O machado ergueu-se devagar. O homem caminhou a passos largos.

            No laudo da perícia consta que, além do computador, nada mais fora roubado.

            Hipótese: latrocínio.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Deixa a mulher falar


Deixa a mulher falar...

Ela tem cérebro
e boca,
sabe dizer,
tu não precisas explicar.

Deixa a mulher falar...

Não sejas trouxa.

Vai capinar um lote,
assumir teus filhos,
lavar uma louça.

Deixa a mulher falar...

Vai chupar um prego,
semelhante ao falo,
crista de galo,
que gostas
de ostentar,

mas que

NINGUÉM

é obrigado
a suportar.

Deixa a mulher falar...

Com os lábios,
o corpo,
o sexo,

— deixa a mulher falar, pô!

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Incêndio


tudo que há é lenha
tudo que sobra são cinzas

existem dois caminhos:

queimar
ou apodrecer

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O animal


Os animais são alheios à passagem do tempo.

Exceto um.

Prisioneiro da invenção de Tales,
enforcado em ponteiros de ferro,
carente de materialidade e com vertigens
por não poder medir a morte.

Espera que a contagem possa trazer-lhe substância,

                ESSENTIA.

Medir o tempo é medir a vida — é julgá-la.
Quem julga a vida é infeliz.

Aquele que julga é incapaz de julgar a si mesmo
e por isso engana-se.

A consciência é um resíduo do corpo.
Julgar é um defeito da alma.

A origem da imperfeição
é a contagem do tempo,
     mãe
deste animal desnaturado.

terça-feira, 12 de junho de 2018

A vida nunca espera


A vida não espera. Joga-nos em mil redemoinhos, nos aprisiona em um labirinto com paredes pintadas de esperanças, de sonhos impossíveis, como se uma entidade maligna nos tecesse o fado.

A vida NUNCA espera. Nos empurra como uma deusa impaciente e cruel, sedenta por sacrifícios. São-nos exigidos os mais infames esforços para, talvez, um dia, ganharmos alguma recompensa.

Quem espera pela vida irá carregar filhos mortos. Minará qualquer centelha de esperança. Apagará do peito toda fagulha que lhe permitiria ver em meio à escuridão.

Esperar pela vida é aguardar beija-flores no deserto. É crer na ajuda da própria água que afoga. É negar que a teia da aranha serve para capturar incautos. É ver, imóvel, a aproximação do animal peçonhento.

Quem não aprende a olhar, ávido, para o sol que lhe abrasa o rosto; quem não está disposto a suportar a dor; quem deixa pender como papel molhado seus mais caros desejos — se afogará em mágoas; olhará, sempre triste, para o passado.

Melhor se arrepender pela estrada percorrida do que pelo caminho não trilhado. Esperar não transforma água em vinho, não revolve a terra nem espalha sementes.

Quem espera pelo trem da vida é atropelado por ele. A locomotiva não para. A cada um cabe o esforço para não cair nos trilhos. De ser um maquinista e, não apenas, mais uma engrenagem da grande máquina.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Gaiola


nada peço

a deuses

que não existem

abrem
portas

rastelam
ideias

cospem
na chuva

mas não existem

os deuses
que criamos

nos criaram

porquinhos
da Índia

na gaiola

fôssemos ratos

seríamos
do campo

teríamos alguma chance

mas somos

gordos
e preguiçosos

a gaiola é nosso lar

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Amizade


tive amigos

eles me mataram

muitas

e muitas

vezes

creio
em parcerias

temporárias

em prol
de objetivos

em comum

é o desejo
de poder

que nos une

lutamos
para sermos

o que não somos

o que
provavelmente

nunca seremos

nossas chamas
acendem

aprendamos
a não colocar

fogo
em tudo

(por enquanto)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Imagem

na mais escura
de todas
as noites
sai

vomitando
esperanças

como seria
bela
a vida

não fosse
o fim
à espreita?

afirmo
não desejar
ser
nada
além
do que
já sou

— mentira!

acompanha-me
a imagem
de tudo
que não fui

e jamais
serei