terça-feira, 14 de novembro de 2017

O entregador de jornais

Ele tem 20 e poucos anos
— parece ter 16 ou 17 —
e entrega jornais,
de madrugada.

A cidade é pequena e todos o acham estranho.

Enquanto,
com sua bicicleta,
desliza entre casas e condomínios

ouvindo

Pink Floyd ou Beethoven
em um aparelho de mp3,

a noite é uma pintura de Van Gogh.

Às vezes chove.
Às vezes faz frio.

Às vezes é tão quente
que a tinta dos jornais
mancha seus braços,

forma contornos pretos
em suas veias.

Chega ao lar às 4 da matina.

Olhos vermelhos,
corpo despedaçado,
pulmões chicoteados pelos pingos de chuva
ou por gotas de sal
ou pelo estranho ar da noite sempre muito densa e quieta,

quieta demais.

(Apenas os cães entendem a noite,
os cães e as crianças.)

A certeza de ter que acordar às 8 e meia e entregar mais uma centena de jornais, despachar a correspondência na única agência dos Correios da cidade e atender a telefonemas de assinantes insatisfeitos e arrogantes — meu Deus! Eles acham que podem humilhar alguém porque pagam uma assinatura!

Passar a tarde aguentando a espera.

À noite juntar os pedaços.

Recompor a caótica imagem do sangue transmutado em suor,
da escultura de si mesmo, apenas esboçada,
e fingir, com esforço, dormir em paz.

Os jornais foram entregues.
As pessoas leram as notícias da vida atualizada.
A banalidade está garantida.
A féria também.

Em algum lugar distante,
ouvindo Pink Floyd ou Beethoven,
o entregador de jornais

adormece.

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