quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Muitas mortes

Morremos diariamente e, em alguns dias, muitas vezes. Morrer faz parte da vida, não apenas em termos físicos. Em sentido metafórico, morremos todas as noites, ao dormirmos, esperando renascer no dia seguinte. A morte física é apenas a morte final. Até chegarmos a ela, se tivermos a sorte de vivermos o suficiente, passamos por vários “treinamentos”, preparações para a morte derradeira.

Além da morte do corpo, há as mortes relacionadas ao próprio ciclo da vida, conforme vamo-nos nos transformando, desenvolvendo-nos. A criança precisa morrer para que o adulto surja. O adulto jovem tem que dar lugar ao indivíduo maduro. A pessoa madura deixa a cena e em seu lugar surge o idoso e, se o ciclo se faz pleno, vem, então, a morte final. Ao longo de uma vida longa ocorrem, assim, várias mortes.

Acompanhando essas mortes, definidas pelos ciclos de maturação da própria vida, vêm outras tantas fatalidades, ligadas a desejos abandonados, a ideias que perecem para dar lugar a novas e melhores iniciativas. Paixões e amores também morrem. Nem sempre o amor é eterno. Na verdade, quase nunca é. Podemos gostar muito de alguém e, ao longo dos anos, sentir esse amor ir morrendo. Após cada morte é preciso recomeçar, ajustar-se, lutar por novos nascimentos.

Na maior parte das grandes tradições, sejam tradições religiosas, agnósticas ou ateias, a morte é importante como fator de encerramento de um ciclo e início de outro. É preciso aprender a morrer. Largar o passado e concentrar-se no presente, não temer o futuro. A morte, em sua roupagem mais forte, está sempre mais no passado e no futuro. Afinal, como afirma o estoicismo, se estamos aqui, é porque a morte não está. Se a morte, com toda a sua força, estivesse, nós não estaríamos.

Não saber morrer é perigoso. Por isso surgiram muitas lendas, referentes à infâmia de uma morte “mal morrida”. Um dos melhores exemplos é a do vampirismo, presente em várias culturas. Um vampiro é um ser que, basicamente, insiste em não morrer, pelo menos não completamente, como deveria, quebrando, assim, a ordem da vida. Como todos os seres que não sabem morrer, ele é um amaldiçoado, tentando manter uma falsa vida a qualquer custo, alimentando-se de seus entes queridos, amigos e de qualquer outra pessoa realmente viva. Além do mais, existe sempre a possibilidade de passar a maldição do vampirismo para os outros, através da mordida. A desgraça sempre deseja companhia...

Outro exemplo é o dos zumbis cinematográficos. Por ser, como se diz, um “morto-vivo”, o zumbi não está aqui e nem está “lá”. É algo característico dos seres que, morrendo, insistem em querer ficar ou são impedidos de “partir”: tornam-se desgraçados e desejam contaminar a todos com sua desgraça. Os fantasmas seguem uma lógica parecida, assim como o monstro de Frankenstein.

Saber morrer, enterrando seus mortos, exorcizando seus fantasmas, destruindo seus monstros, tanto de um ponto de vista psicológico quanto físico, é essencial, pois a morte, quer queiramos ou não, faz parte da vida e é inevitável.

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