sábado, 25 de novembro de 2017

Intervalo

Chuva.

Garrafa de cerveja.

Rótulo sorridente.

Poemas espalhados entre os detritos do cotidiano.

A tarde convida para o sono.

Instantes de redenção antes do retorno ao rebuliço.

Solidão.

Palavra que contêm em si todas as outras.

Feminina.

Uterina.

Prenhe de qualquer possibilidade

— e a vida se acomodando
a estes espaços
pré-moldados...

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Atraso

vieram os mocinhos

consertar

a história


deixaram

uma trilha

de incontáveis

cadáveres


a força

a vontade

a razão


o mundo destroçado


não vivemos mais do que antigamente

apenas morremos mais tarde

vegetamos por mais tempo

saímos com atraso

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O entregador de jornais

Ele tem 20 e poucos anos
— parece ter 16 ou 17 —
e entrega jornais,
de madrugada.

A cidade é pequena e todos o acham estranho.

Enquanto,
com sua bicicleta,
desliza entre casas e condomínios

ouvindo

Pink Floyd ou Beethoven
em um aparelho de mp3,

a noite é uma pintura de Van Gogh.

Às vezes chove.
Às vezes faz frio.

Às vezes é tão quente
que a tinta dos jornais
mancha seus braços,

forma contornos pretos
em suas veias.

Chega ao lar às 4 da matina.

Olhos vermelhos,
corpo despedaçado,
pulmões chicoteados pelos pingos de chuva
ou por gotas de sal
ou pelo estranho ar da noite sempre muito densa e quieta,

quieta demais.

(Apenas os cães entendem a noite,
os cães e as crianças.)

A certeza de ter que acordar às 8 e meia e entregar mais uma centena de jornais, despachar a correspondência na única agência dos Correios da cidade e atender a telefonemas de assinantes insatisfeitos e arrogantes — meu Deus! Eles acham que podem humilhar alguém porque pagam uma assinatura!

Passar a tarde aguentando a espera.

À noite juntar os pedaços.

Recompor a caótica imagem do sangue transmutado em suor,
da escultura de si mesmo, apenas esboçada,
e fingir, com esforço, dormir em paz.

Os jornais foram entregues.
As pessoas leram as notícias da vida atualizada.
A banalidade está garantida.
A féria também.

Em algum lugar distante,
ouvindo Pink Floyd ou Beethoven,
o entregador de jornais

adormece.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Muitas mortes

Morremos diariamente e, em alguns dias, muitas vezes. Morrer faz parte da vida, não apenas em termos físicos. Em sentido metafórico, morremos todas as noites, ao dormirmos, esperando renascer no dia seguinte. A morte física é apenas a morte final. Até chegarmos a ela, se tivermos a sorte de vivermos o suficiente, passamos por vários “treinamentos”, preparações para a morte derradeira.

Além da morte do corpo, há as mortes relacionadas ao próprio ciclo da vida, conforme vamo-nos nos transformando, desenvolvendo-nos. A criança precisa morrer para que o adulto surja. O adulto jovem tem que dar lugar ao indivíduo maduro. A pessoa madura deixa a cena e em seu lugar surge o idoso e, se o ciclo se faz pleno, vem, então, a morte final. Ao longo de uma vida longa ocorrem, assim, várias mortes.

Acompanhando essas mortes, definidas pelos ciclos de maturação da própria vida, vêm outras tantas fatalidades, ligadas a desejos abandonados, a ideias que perecem para dar lugar a novas e melhores iniciativas. Paixões e amores também morrem. Nem sempre o amor é eterno. Na verdade, quase nunca é. Podemos gostar muito de alguém e, ao longo dos anos, sentir esse amor ir morrendo. Após cada morte é preciso recomeçar, ajustar-se, lutar por novos nascimentos.

Na maior parte das grandes tradições, sejam tradições religiosas, agnósticas ou ateias, a morte é importante como fator de encerramento de um ciclo e início de outro. É preciso aprender a morrer. Largar o passado e concentrar-se no presente, não temer o futuro. A morte, em sua roupagem mais forte, está sempre mais no passado e no futuro. Afinal, como afirma o estoicismo, se estamos aqui, é porque a morte não está. Se a morte, com toda a sua força, estivesse, nós não estaríamos.

Não saber morrer é perigoso. Por isso surgiram muitas lendas, referentes à infâmia de uma morte “mal morrida”. Um dos melhores exemplos é a do vampirismo, presente em várias culturas. Um vampiro é um ser que, basicamente, insiste em não morrer, pelo menos não completamente, como deveria, quebrando, assim, a ordem da vida. Como todos os seres que não sabem morrer, ele é um amaldiçoado, tentando manter uma falsa vida a qualquer custo, alimentando-se de seus entes queridos, amigos e de qualquer outra pessoa realmente viva. Além do mais, existe sempre a possibilidade de passar a maldição do vampirismo para os outros, através da mordida. A desgraça sempre deseja companhia...

Outro exemplo é o dos zumbis cinematográficos. Por ser, como se diz, um “morto-vivo”, o zumbi não está aqui e nem está “lá”. É algo característico dos seres que, morrendo, insistem em querer ficar ou são impedidos de “partir”: tornam-se desgraçados e desejam contaminar a todos com sua desgraça. Os fantasmas seguem uma lógica parecida, assim como o monstro de Frankenstein.

Saber morrer, enterrando seus mortos, exorcizando seus fantasmas, destruindo seus monstros, tanto de um ponto de vista psicológico quanto físico, é essencial, pois a morte, quer queiramos ou não, faz parte da vida e é inevitável.