terça-feira, 31 de outubro de 2017

Janela

jogou-se

do décimo

segundo

andar

o que ela pensou?

quanta coragem!

ou desespero?

certa noite

olhamos
para baixo

a mesma vontade
de dizer não

à vida

entregar-se
ao desconhecido

a preguiça me “salvou”

tempos

depois

ela fez

invejo sua coragem

sangrou
feito um porco?

vomitou
toda excrescência?

tiraram
fotos

eu não vi

estaria
mais bela?

a morte
tem uma precisão
que a vida
jamais
terá

eu não disse adeus

não fui ao seu enterro

não tenho fotos

devíamos ter pulado juntos 

eu sou um péssimo amigo

domingo, 1 de outubro de 2017

A sabedoria e o silêncio

A sabedoria e o amor fazem seu ninho no silêncio. Quando encontramos o sentido, podemos dispensar a linguagem. A palavra é o veículo do pensamento; o saber, seu fim. A bem-aventurança dispensa o pensar e o dizer como um rei, depois de servido, dá folga aos criados. Quem chega aonde precisa é sábio, podendo descansar a fronte no ombro da quietude. Assim, com a passagem do tempo, caso evoluamos, tornamo-nos cada vez mais silenciosos.

Mexemos menos os lábios, destilando o aprendizado mais pelo olhar. Mostramos nossa verdade pelas rugas acumuladas e pelo cansaço encravado nas linhas de expressão, tudo contribuindo para a serenidade de um ser oriundo da guerra contra muitos monstros, já tendo visto tanta gente sucumbir a eles. Em certa tristeza etérea, envolvendo-nos feito nuvem, bênção de um tranquilo céu de outono, prêmio para uma face fustigada por tantos sóis e desertos. Na altivez das costas encurvadas. Na maciez a transpirar da pele ressecada, pela carne enxuta devido à voracidade insaciável do tempo.

A superfície calma de um lago refletida na íris: a sabedoria talvez seja contemplação, discorrendo tranquila, enquanto comunga com os sonhos da humanidade. Há ações silenciosas que atravessam séculos. Há luzes cujas fontes se apagam, mas o brilho permanece.

Estes homens e mulheres que, para serem ouvidos, gritam. Criminosos travestidos de santos. Aspirantes a salvadores da humanidade. Belos ternos. Poses ridicularmente forçadas. Vozes estridentes. Ameaças saltando-lhes pelas pontas dos dedos. Discursos moralistas inflamados, decididos a incendiar, aprisionar os corações, transformá-los em escravos. São ídolos ocos, feitos de madeira não envelhecida, mas podre. Se forem jovens, são verdes como lenhas verdes que, ao serem queimadas, exalam uma fumaça insuportável, tóxica, trancando os pulmões, anestesiando a razão.

É preciso desconfiar dos gritos, dos risos demasiados, dos que procuram sempre agradar. São como pássaros de sons estridentes; não sabem a arte do canto. Hienas, armando emboscadas. Bajuladores, falando apenas o que todos desejam ouvir, para chegar ao poder.

A sabedoria não berra, não pode ser cobrada, tão pouco vendida. Não habita templos suntuosos feitos em honra a egos gigantescos. Está mais para um rei como Sidarta Gautama, abdicando de seu palácio para viver entre os comuns. Prefere andar de ônibus e a pé, ao invés de com uma Ferrari. Observa mais do que comanda.

Quem tem a oportunidade e o poder para pregar pela paz e usa do microfone para louvar a guerra, é mais cruel que o soldado empunhando um fuzil. É pérfido todo aquele que, tendo poder para disseminar o amor, o usa para incitar ao ódio.

A sabedoria não é poder. É amor.