segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Freddie Mercury: o filme sobre o homossexual que virou heterossexual que virou homossexual de novo que continuou sendo heterrossexual?!

Em recente comentário, o guitarrista Brian May, do Queen, afirmou a finalização do roteiro para um filme sobre Freddie Mercury. Parece-me, porém, não haver motivos para comemorar. Brian disse que a história será focada no romance entre Mercury e Mary Austin, com quem o cantor teve um caso por alguns anos e manteve amizade pelo resto da vida. Qual o problema? Simples. Ao invés de contar toda a história da vida de Mercury, um ícone gay, vão focar em uma pequena parcela de sua existência heterossexual. May ainda cita que a história tratará sobre a transição dele, após o romance com Austin, para a homossexualidade.

Segundo o biógrafo Selim Rauer, Freddie era gay desde a adolescência. Ele NÃO VIROU gay, ele já era gay desde o início. O mesmo biógrafo cita que, ainda na escola, aos 15 anos, ele foi duramente reprimido por todos, inclusive pela família, por apresentar comportamentos homossexuais, sendo até tirado do internato no qual estudava, após descobrirem que ele era gay e passarem a persegui-lo:

“Por ora, Freddie parecia não estar em sintonia com o mundo, nem talvez com ele mesmo, ou com a família. Foi mandado por algum tempo a Bombaim, para a casa da tia e da avó materna, e depois para milhares de quilômetros dali, à casa dos pais, e isso praticamente de um dia para o outro. O fracasso nos estudos poderia ser a explicação para essa súbita volta ao seio da família. Mas não justificava tudo. Teria havido uma outra razão, e bem simples: Farrokh [esse é o nome de cartório de Freddie] estaria apaixonado por outro garoto da mesma idade, chamado Sanjay, filho de um dos jardineiros do colégio interno. Os encontros tinham sido descobertos após denúncia feita por um aluno de St. Peter. A notícia começou a se espalhar, e o jovem Bulsara [é o sobrenome de cartório de Freddie] teria sido molestado, insultado, e mesmo linchado no dormitório, quando as luzes se apagavam. O diretor da escola, pouco à vontade e chocado, informou imediatamente os pais do garoto.” Freddie Mercury / Selim Rauer

Linchado! Ele foi linchado aos 15 anos por ser gay! Não admira que, ao longo de toda sua carreira, ele evitasse falar sobre sua sexualidade, não é? Voltando a fala de Brian May, ele deixa entender que Freddie será apresentado como se tivesse “virado” homossexual depois de certa idade, não como se sempre tivesse sido. É a história do cara que “virou” gay, mas que continua focada na figura da mulher, de Mary.

Está explicado o título deste escrito: é a história de um homossexual (como aponta sua biografia, ele sempre foi gay), que virou heterossexual (teve um caso longo com Mary Austin), que virou homossexual de novo (“trocou” Mary, digamos assim, por homens), mas que continuou sendo heterossexual (já que no filme o foco parece que será, realmente, na relação com Mary). Maluquice, não?

Na melhor das hipóteses, podemos dizer que Mercury era bissexual. Se é para colocar rótulos, provavelmente esse é o mais correto. Segundo o já citado biógrafo, ele teve, inclusive, envolvimento com outras mulheres. Mas é inegável a sua imagem ter sido sempre associada à homossexualidade. Quando eu era adolescente, lembro-me de todos meus amigos afirmarem que o Queen era uma banda gay com músicas gays, por causa do Freddie. Até meu irmão mais novo, com uns 8 anos, na época, ao assistir uma apresentação do Queen em DVD, me perguntou:

— Ele é gay? — Ao que, obviamente, eu respondi com naturalidade: — Sim.

Desse modo, por que escrever um roteiro baseado na vida de um dos maiores ícones gays da cultura pop (mesmo que ele fosse bissexual, é a imagem de sua homossexualidade que se sobrepõe), focando na relação dele com uma mulher? Ele gostava de machões com bigodes, como o dele. Vai aparecer isso? E as orgias do Queen? Com direito a prostitutas e prostitutos? E a cocaína e outras drogas rolando soltas? Aquela parte em que ele dava de presente, para homens que transavam com ele, relógios de ouro? “Ah, Aleixo. Mas mostrar essas coisas, por quê?” Por que é a VERDADE! Como fã do artista, eu tenho direito a verdade. No entanto, é preciso concordar: o Mercury heterossexual e branco é mais fácil de “engolir”, não é? Só falta fazerem um filme “família”, quando o filme deveria ser para fãs e adultos.

Há, ainda, outro problema que, em minha opinião, destrói qualquer possibilidade de levar a sério um filme sobre o Mercury com a ideia apresentada. Ele morreu de AIDS, em 1991. Sua morte causou um enorme abalo no mundo e serviu de alerta para milhares, talvez milhões de pessoas, sobre o perigo da epidemia. Isso é importante. A morte de Mercury, no auge da carreira, foi, provavelmente, a morte mais famosa em decorrência da AIDS. Falar sobre ele é também falar sobre o seu triste fim, sobre o preconceito contra os LGBTTs e contra os soropositivos. Se a filmografia de Mercury vai deixar de lado essas questões, para focar no romance heterossexual de um homem branco, então esse filme NÃO SERÁ sobre ele.

Mas convenhamos: em tempos sombrios como o nosso, a história do romance de um homem branco e heterossexual é mais cativante, menos incômoda do que a verdadeira história, não é? Troquemos a realidade pela mentira, em nome dos “bons costumes”!

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