sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Entre o desencanto e o fanatismo

Um rio de desânimo escorre por nossos olhos. Vem das profundezas de bilhões de almas perdidas, órfãs de sonhos mortos, herdeiros das utopias de quatro ou cinco gerações passadas. Acreditou-se em tanta coisa... No domínio da natureza, no fim das guerras, das doenças, da fome.

A natureza, ao invés de dominada, foi violada, massacrada, vendida. As guerras nunca foram tão perigosas. Graças às bombas atômicas, agora podemos destruiu toda a vida na Terra, apenas com o apertar de alguns botões. E um dia o mundo todo será Hiroshima e Nagasaki... Apesar dos avanços da medicina, a indústria farmacêutica é que detêm a cura, e uma grande parcela da humanidade ainda não tem acesso a medicamentos. A fome, vergonhosamente, ainda estende seu manto por sobre mais de um bilhão de pessoas...

Assim como, muitas vezes, a vida imaginada de cada um não se realiza, também os sonhos coletivos quase nunca acontecem. Algo, em algum momento, se perde. Os olhares se turvam, os passos falham, as mãos se soltam e a frágil malha da ordem social se rompe. Não demora muito para cada um ir para um lado, sem que ninguém saia do lugar.

Enquanto havia utopias, tínhamos, pelo menos, um fino verniz de ilusão. Todas acabaram. Muitas foram, antes de acabar, usadas para justificar genocídios e afins. Chegamos ao século XXI mais lúcidos, aparentemente. Mas só aparentemente, já que as utopias foram substituídas pelo fanatismo.

O fanatismo é a cria maldita das utopias dos séculos passados. É um resíduo, uma má-formação.

Precisamos nos situar entre estes dois extremos: de um lado, uma vida sem utopias, sem sonhos; do outro, o fanatismo. Entre o mundo desencantado e o fanatismo, está a realidade. Mapear essa realidade, agora, é tarefa urgente.

Se me rendo ao mundo tal como ele está, sem utopias, torno-me prisioneiro do mercado, e minha felicidade passa a ser o consumo. O prazer, aspecto mais concreto (mas não o mais importante) da felicidade, passa a dominar. Se me rendo ao fanatismo, torno-me destrutivo, afinal, vou precisar dominar a todos.

A realidade é o ponto entre o desencantamento total do mundo e o fanatismo. Se não há mais utopias, também não podemos simplesmente aceitar as coisas. A vida exige um mínimo de luta.

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