segunda-feira, 18 de setembro de 2017

De olhos fechados para o outro

Hoje à tarde, intrometendo-se em uma conversa ocorrida entre um amigo e eu, uma senhora falou sobre Deus. Apelou à divindade para justificar a obrigação da continuidade do casamento. Usou frases clichês como “o que Deus uniu o homem não deve separar”. Sem o mínimo desejo de prosseguir seriamente, fiz uma brincadeira, dizendo que era espírita e, portanto, não levava em consideração as interpretações católicas ou evangélicas da Bíblia. Ao ouvir-me dizer ser um adepto do espiritismo, a mulher ficou visivelmente alterada. Seguiu-se uma enxurrada de frases, destinadas a convencer-me do quanto à religião dela era correta e, a minha, errada.

Continuei sorrindo e levando na esportiva. Mencionei ser do Candomblé, do Islamismo, do Budismo. A cada menção de uma religião diferente, a mulher se esforçava para mostrar-me o quão errado eu estava. Citações bíblicas, menções ao céu e ao inferno, messianismo; valia tudo, apenas no esforço de desqualificar minhas supostas crenças e afirmar a validade das crenças dela.

Cansado daquela pregação, mencionei que cada um tinha o direito de acreditar no que quisesse, e que todos deveriam ser respeitados.

Primeiramente, ela concordou. Em seguida, voltou a afirmar que, no entanto, “apenas Jesus havia dado sua vida para nos salvar e certamente ele voltaria”. Para completar, uma ameaça: “pior para quem não acreditar”. Sem arrefecer, retorqui: “isso é o que a senhora acredita”.

É impressionante a falta da capacidade de se colocar no lugar do outro, de sair de seu próprio umbigo. A maioria de nós não vive suas crenças, mas se esconde atrás delas. Usa-as para fechar os olhos. Já pensou se todos os cristãos vivessem, de fato, como Cristo? Se realmente se importassem com o próximo mais do que consigo mesmos? Se ao invés de pagar o dízimo estivessem mais preocupados em fazer caridade? Se ao invés de cuidarem da vida alheia se concentrassem mais em minimizar seus próprios defeitos?

Não creio em uma vida igual à de Cristo, pois a acho ilusória, utópica. Ao contrário de Rousseau, não creio no “mito do bom selvagem”. Penso que o ser humano, entregue a si mesmo, é tudo, menos “bom”. Se não formos bem educados, se não tivermos uma boa natureza, se não formos muitas vezes conduzidos pelo próprio “destino”, seremos maus.    

O ideal cristão, porém, não deixa de ser uma utopia interessante, “bonitinha”, embora impossível de ser posta em prática (se fosse possível, aliás, não seria uma utopia), conforme nos têm mostrado mais de dois mil anos de cristianismo. Talvez Nietzsche tivesse razão: o primeiro e único cristão morreu na cruz.

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