sábado, 16 de setembro de 2017

A modernidade cancelada

Com o cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, é um pouco da modernidade que é cancelada, pelo menos no Brasil. É cancelada principalmente no tocante a um caro ideal herdado da Revolução Francesa: liberdade. Não foram os artistas os mais atingidos. Mais uma vez, como vem acontecendo continuamente em nosso país, o alvo, no fundo, foi à democracia, impossível de ser alcançada sem um ideal de liberdade. Para mostrar isso, vou me ater a apenas um ponto, uma opinião apresentada por vários apoiadores do cancelamento da exposição.

Muitos afirmam, acerca de um quadro com uma cena zoófila, ser isso um incentivo a zoofilia. Vou apresentar dois argumentos, mostrando o quanto é absurda essa opinião.

A arte não é o mundo, mas uma representação dele. Os inúmeros crimes descritos nas histórias de Agatha Christie seriam um incentivo a criminalidade? Na obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, o protagonista se suicida. Deveríamos proibi-la por supostamente influenciar os jovens ao suicídio? Em “Moby Dick”, de Hermann Melville, há caça as baleias. Cachalotes são mortos impiedosamente e seu óleo é extraído para ser comercializado. Seria um incentivo a destruição da vida marinha? E no cinema? Psicopatas como Jason Voorhees, Michael Myers e Hannibal Lecter, levariam a comportamentos psicóticos?

Embora existam assassinatos no mundo real, em um livro, quando um personagem morre, ninguém morre “realmente”. É vergonhoso precisar dizer isso, devido a sua obviedade. É justamente esse ponto, no entanto, que foi esquecido pelos críticos da exposição. Eles viram uma cena de zoofilia, e se portaram como se a cena fosse “real”. Mais: acreditaram que quem visse aquilo, agiria daquele modo também. A zoofilia foi retratada em um quadro, junto a outras práticas sexuais, simplesmente por que existe, faz parte do mundo. Por isso ela foi descrita também em um trecho de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. Assim como existiu e existem crimes, suicídios, caça as baleias e psicopatas. É muita ignorância crer que alguém irá virar um canibal por assistir ao personagem Hannibal, que devorava suas vítimas.

O segundo argumento diz respeito ao espaço, um museu. É tão óbvio quanto o primeiro. Entra em um museu, quem quer. Se não concordo com determinada temática, deveria ir vê-la? Se não gosto de filmes de terror, não vou ao cinema para assistir criações desse gênero. Se não curto funk, não o ouço, simplesmente. Posso criticar o cinema de horror? O funk? Claro! A crítica é livre, é o resultado de um ideal de liberdade conquistado ao longo de milênios, com muito sangue derramado. Tenho o direito de proibir os outros de apreciarem o que apreciam? Se o que eles fazem não causa mal nenhum a minha integridade, não ameaça minha vida, é claro que não! Assim, se não gosto de determinada exposição, não compareço a ela. Não levo meus filhos. Quem quiser ir, que vá! Que mal que os quadros causavam a quem não comparecia a exposição? Nenhum! Bastava não ir ao lugar, não olhar as obras. Olhou e não gostou? Critique! Mas não proíba...

Essa proibição, baseada em opiniões insossas como a da zoofilia, é que constitui um ataque à liberdade e, no fundo, como dito, a democracia. Ao invés de se criticar, debater, se proibiu. Censura. Sem liberdade, não há democracia. 

E olha que os quadros não comeram, não fizeram mal a ninguém. Nós é que estamos maus, com o cancelamento da modernidade.

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