segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ser de trevas

meus olhos tristes e cansados

carregam

a mais
humana

de todas as dores

transbordante
solidão

cálice
sem fundo

pudesse

falar
do amor

à noite

sonhos
atrelados

a todas as casas

mas...

experiências
várias
tive

grotescas
coisas
vi

o brilho
d’alma
perde
o viço

— no alto
de um morro

à espera
da luz

sol
que nunca nasce

ausência
já tão certa

oh!
ser de trevas!

se olhares para o céu
queimar-te-ás!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

De olhos fechados para o outro

Hoje à tarde, intrometendo-se em uma conversa ocorrida entre um amigo e eu, uma senhora falou sobre Deus. Apelou à divindade para justificar a obrigação da continuidade do casamento. Usou frases clichês como “o que Deus uniu o homem não deve separar”. Sem o mínimo desejo de prosseguir seriamente, fiz uma brincadeira, dizendo que era espírita e, portanto, não levava em consideração as interpretações católicas ou evangélicas da Bíblia. Ao ouvir-me dizer ser um adepto do espiritismo, a mulher ficou visivelmente alterada. Seguiu-se uma enxurrada de frases, destinadas a convencer-me do quanto à religião dela era correta e, a minha, errada.

Continuei sorrindo e levando na esportiva. Mencionei ser do Candomblé, do Islamismo, do Budismo. A cada menção de uma religião diferente, a mulher se esforçava para mostrar-me o quão errado eu estava. Citações bíblicas, menções ao céu e ao inferno, messianismo; valia tudo, apenas no esforço de desqualificar minhas supostas crenças e afirmar a validade das crenças dela.

Cansado daquela pregação, mencionei que cada um tinha o direito de acreditar no que quisesse, e que todos deveriam ser respeitados.

Primeiramente, ela concordou. Em seguida, voltou a afirmar que, no entanto, “apenas Jesus havia dado sua vida para nos salvar e certamente ele voltaria”. Para completar, uma ameaça: “pior para quem não acreditar”. Sem arrefecer, retorqui: “isso é o que a senhora acredita”.

É impressionante a falta da capacidade de se colocar no lugar do outro, de sair de seu próprio umbigo. A maioria de nós não vive suas crenças, mas se esconde atrás delas. Usa-as para fechar os olhos. Já pensou se todos os cristãos vivessem, de fato, como Cristo? Se realmente se importassem com o próximo mais do que consigo mesmos? Se ao invés de pagar o dízimo estivessem mais preocupados em fazer caridade? Se ao invés de cuidarem da vida alheia se concentrassem mais em minimizar seus próprios defeitos?

Não creio em uma vida igual à de Cristo, pois a acho ilusória, utópica. Ao contrário de Rousseau, não creio no “mito do bom selvagem”. Penso que o ser humano, entregue a si mesmo, é tudo, menos “bom”. Se não formos bem educados, se não tivermos uma boa natureza, se não formos muitas vezes conduzidos pelo próprio “destino”, seremos maus.    

O ideal cristão, porém, não deixa de ser uma utopia interessante, “bonitinha”, embora impossível de ser posta em prática (se fosse possível, aliás, não seria uma utopia), conforme nos têm mostrado mais de dois mil anos de cristianismo. Talvez Nietzsche tivesse razão: o primeiro e único cristão morreu na cruz.

sábado, 16 de setembro de 2017

A modernidade cancelada

Com o cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, é um pouco da modernidade que é cancelada, pelo menos no Brasil. É cancelada principalmente no tocante a um caro ideal herdado da Revolução Francesa: liberdade. Não foram os artistas os mais atingidos. Mais uma vez, como vem acontecendo continuamente em nosso país, o alvo, no fundo, foi à democracia, impossível de ser alcançada sem um ideal de liberdade. Para mostrar isso, vou me ater a apenas um ponto, uma opinião apresentada por vários apoiadores do cancelamento da exposição.

Muitos afirmam, acerca de um quadro com uma cena zoófila, ser isso um incentivo a zoofilia. Vou apresentar dois argumentos, mostrando o quanto é absurda essa opinião.

A arte não é o mundo, mas uma representação dele. Os inúmeros crimes descritos nas histórias de Agatha Christie seriam um incentivo a criminalidade? Na obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, o protagonista se suicida. Deveríamos proibi-la por supostamente influenciar os jovens ao suicídio? Em “Moby Dick”, de Hermann Melville, há caça as baleias. Cachalotes são mortos impiedosamente e seu óleo é extraído para ser comercializado. Seria um incentivo a destruição da vida marinha? E no cinema? Psicopatas como Jason Voorhees, Michael Myers e Hannibal Lecter, levariam a comportamentos psicóticos?

Embora existam assassinatos no mundo real, em um livro, quando um personagem morre, ninguém morre “realmente”. É vergonhoso precisar dizer isso, devido a sua obviedade. É justamente esse ponto, no entanto, que foi esquecido pelos críticos da exposição. Eles viram uma cena de zoofilia, e se portaram como se a cena fosse “real”. Mais: acreditaram que quem visse aquilo, agiria daquele modo também. A zoofilia foi retratada em um quadro, junto a outras práticas sexuais, simplesmente por que existe, faz parte do mundo. Por isso ela foi descrita também em um trecho de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. Assim como existiu e existem crimes, suicídios, caça as baleias e psicopatas. É muita ignorância crer que alguém irá virar um canibal por assistir ao personagem Hannibal, que devorava suas vítimas.

O segundo argumento diz respeito ao espaço, um museu. É tão óbvio quanto o primeiro. Entra em um museu, quem quer. Se não concordo com determinada temática, deveria ir vê-la? Se não gosto de filmes de terror, não vou ao cinema para assistir criações desse gênero. Se não curto funk, não o ouço, simplesmente. Posso criticar o cinema de horror? O funk? Claro! A crítica é livre, é o resultado de um ideal de liberdade conquistado ao longo de milênios, com muito sangue derramado. Tenho o direito de proibir os outros de apreciarem o que apreciam? Se o que eles fazem não causa mal nenhum a minha integridade, não ameaça minha vida, é claro que não! Assim, se não gosto de determinada exposição, não compareço a ela. Não levo meus filhos. Quem quiser ir, que vá! Que mal que os quadros causavam a quem não comparecia a exposição? Nenhum! Bastava não ir ao lugar, não olhar as obras. Olhou e não gostou? Critique! Mas não proíba...

Essa proibição, baseada em opiniões insossas como a da zoofilia, é que constitui um ataque à liberdade e, no fundo, como dito, a democracia. Ao invés de se criticar, debater, se proibiu. Censura. Sem liberdade, não há democracia. 

E olha que os quadros não comeram, não fizeram mal a ninguém. Nós é que estamos maus, com o cancelamento da modernidade.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Entre o desencanto e o fanatismo

Um rio de desânimo escorre por nossos olhos. Vem das profundezas de bilhões de almas perdidas, órfãs de sonhos mortos, herdeiros das utopias de quatro ou cinco gerações passadas. Acreditou-se em tanta coisa... No domínio da natureza, no fim das guerras, das doenças, da fome.

A natureza, ao invés de dominada, foi violada, massacrada, vendida. As guerras nunca foram tão perigosas. Graças às bombas atômicas, agora podemos destruiu toda a vida na Terra, apenas com o apertar de alguns botões. E um dia o mundo todo será Hiroshima e Nagasaki... Apesar dos avanços da medicina, a indústria farmacêutica é que detêm a cura, e uma grande parcela da humanidade ainda não tem acesso a medicamentos. A fome, vergonhosamente, ainda estende seu manto por sobre mais de um bilhão de pessoas...

Assim como, muitas vezes, a vida imaginada de cada um não se realiza, também os sonhos coletivos quase nunca acontecem. Algo, em algum momento, se perde. Os olhares se turvam, os passos falham, as mãos se soltam e a frágil malha da ordem social se rompe. Não demora muito para cada um ir para um lado, sem que ninguém saia do lugar.

Enquanto havia utopias, tínhamos, pelo menos, um fino verniz de ilusão. Todas acabaram. Muitas foram, antes de acabar, usadas para justificar genocídios e afins. Chegamos ao século XXI mais lúcidos, aparentemente. Mas só aparentemente, já que as utopias foram substituídas pelo fanatismo.

O fanatismo é a cria maldita das utopias dos séculos passados. É um resíduo, uma má-formação.

Precisamos nos situar entre estes dois extremos: de um lado, uma vida sem utopias, sem sonhos; do outro, o fanatismo. Entre o mundo desencantado e o fanatismo, está a realidade. Mapear essa realidade, agora, é tarefa urgente.

Se me rendo ao mundo tal como ele está, sem utopias, torno-me prisioneiro do mercado, e minha felicidade passa a ser o consumo. O prazer, aspecto mais concreto (mas não o mais importante) da felicidade, passa a dominar. Se me rendo ao fanatismo, torno-me destrutivo, afinal, vou precisar dominar a todos.

A realidade é o ponto entre o desencantamento total do mundo e o fanatismo. Se não há mais utopias, também não podemos simplesmente aceitar as coisas. A vida exige um mínimo de luta.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Freddie Mercury: o filme sobre o homossexual que virou heterossexual que virou homossexual de novo que continuou sendo heterrossexual?!

Em recente comentário, o guitarrista Brian May, do Queen, afirmou a finalização do roteiro para um filme sobre Freddie Mercury. Parece-me, porém, não haver motivos para comemorar. Brian disse que a história será focada no romance entre Mercury e Mary Austin, com quem o cantor teve um caso por alguns anos e manteve amizade pelo resto da vida. Qual o problema? Simples. Ao invés de contar toda a história da vida de Mercury, um ícone gay, vão focar em uma pequena parcela de sua existência heterossexual. May ainda cita que a história tratará sobre a transição dele, após o romance com Austin, para a homossexualidade.

Segundo o biógrafo Selim Rauer, Freddie era gay desde a adolescência. Ele NÃO VIROU gay, ele já era gay desde o início. O mesmo biógrafo cita que, ainda na escola, aos 15 anos, ele foi duramente reprimido por todos, inclusive pela família, por apresentar comportamentos homossexuais, sendo até tirado do internato no qual estudava, após descobrirem que ele era gay e passarem a persegui-lo:

“Por ora, Freddie parecia não estar em sintonia com o mundo, nem talvez com ele mesmo, ou com a família. Foi mandado por algum tempo a Bombaim, para a casa da tia e da avó materna, e depois para milhares de quilômetros dali, à casa dos pais, e isso praticamente de um dia para o outro. O fracasso nos estudos poderia ser a explicação para essa súbita volta ao seio da família. Mas não justificava tudo. Teria havido uma outra razão, e bem simples: Farrokh [esse é o nome de cartório de Freddie] estaria apaixonado por outro garoto da mesma idade, chamado Sanjay, filho de um dos jardineiros do colégio interno. Os encontros tinham sido descobertos após denúncia feita por um aluno de St. Peter. A notícia começou a se espalhar, e o jovem Bulsara [é o sobrenome de cartório de Freddie] teria sido molestado, insultado, e mesmo linchado no dormitório, quando as luzes se apagavam. O diretor da escola, pouco à vontade e chocado, informou imediatamente os pais do garoto.” Freddie Mercury / Selim Rauer

Linchado! Ele foi linchado aos 15 anos por ser gay! Não admira que, ao longo de toda sua carreira, ele evitasse falar sobre sua sexualidade, não é? Voltando a fala de Brian May, ele deixa entender que Freddie será apresentado como se tivesse “virado” homossexual depois de certa idade, não como se sempre tivesse sido. É a história do cara que “virou” gay, mas que continua focada na figura da mulher, de Mary.

Está explicado o título deste escrito: é a história de um homossexual (como aponta sua biografia, ele sempre foi gay), que virou heterossexual (teve um caso longo com Mary Austin), que virou homossexual de novo (“trocou” Mary, digamos assim, por homens), mas que continuou sendo heterossexual (já que no filme o foco parece que será, realmente, na relação com Mary). Maluquice, não?

Na melhor das hipóteses, podemos dizer que Mercury era bissexual. Se é para colocar rótulos, provavelmente esse é o mais correto. Segundo o já citado biógrafo, ele teve, inclusive, envolvimento com outras mulheres. Mas é inegável a sua imagem ter sido sempre associada à homossexualidade. Quando eu era adolescente, lembro-me de todos meus amigos afirmarem que o Queen era uma banda gay com músicas gays, por causa do Freddie. Até meu irmão mais novo, com uns 8 anos, na época, ao assistir uma apresentação do Queen em DVD, me perguntou:

— Ele é gay? — Ao que, obviamente, eu respondi com naturalidade: — Sim.

Desse modo, por que escrever um roteiro baseado na vida de um dos maiores ícones gays da cultura pop (mesmo que ele fosse bissexual, é a imagem de sua homossexualidade que se sobrepõe), focando na relação dele com uma mulher? Ele gostava de machões com bigodes, como o dele. Vai aparecer isso? E as orgias do Queen? Com direito a prostitutas e prostitutos? E a cocaína e outras drogas rolando soltas? Aquela parte em que ele dava de presente, para homens que transavam com ele, relógios de ouro? “Ah, Aleixo. Mas mostrar essas coisas, por quê?” Por que é a VERDADE! Como fã do artista, eu tenho direito a verdade. No entanto, é preciso concordar: o Mercury heterossexual e branco é mais fácil de “engolir”, não é? Só falta fazerem um filme “família”, quando o filme deveria ser para fãs e adultos.

Há, ainda, outro problema que, em minha opinião, destrói qualquer possibilidade de levar a sério um filme sobre o Mercury com a ideia apresentada. Ele morreu de AIDS, em 1991. Sua morte causou um enorme abalo no mundo e serviu de alerta para milhares, talvez milhões de pessoas, sobre o perigo da epidemia. Isso é importante. A morte de Mercury, no auge da carreira, foi, provavelmente, a morte mais famosa em decorrência da AIDS. Falar sobre ele é também falar sobre o seu triste fim, sobre o preconceito contra os LGBTTs e contra os soropositivos. Se a filmografia de Mercury vai deixar de lado essas questões, para focar no romance heterossexual de um homem branco, então esse filme NÃO SERÁ sobre ele.

Mas convenhamos: em tempos sombrios como o nosso, a história do romance de um homem branco e heterossexual é mais cativante, menos incômoda do que a verdadeira história, não é? Troquemos a realidade pela mentira, em nome dos “bons costumes”!