domingo, 20 de agosto de 2017

A gente não quer só café, mas vai ter que tomar...

Escrevi, por duas vezes, sobre o uso da antiga Estação de Passageiros da Via Férrea para fins culturais. O histórico pavilhão fica no Parque da Gare, em Passo Fundo. Desde sua reforma, surgiu a discussão sobre qual seria a melhor maneira de aproveitar o local. A Confraria das Artes, junto com a municipalidade, se instalou por lá e realizou vários eventos culturais.

Como mero operário e escriba amador, acompanhei as discussões, comovido pelo posicionamento de algumas pessoas. Às vezes é bom fingir que se acredita na humanidade. Ainda muito jovem tornei-me um pessimista. Mesmo assim, de quando em quando, tenho alguma recaída...

Várias ideias pulularam entre entidades culturais do munícipio. As sugestões foram, até certo ponto, debatidas. A municipalidade, porém, decidiu, apesar dos pedidos e sugestões, publicar um edital oferecendo o espaço, com mais de 600 metros quadrados, para a iniciativa privada. Para a cultura, ficam apenas 70 metros quadrados. O edital, entre outras coisas, prevê a continuidade da reforma do lugar e a construção de um ambiente gastronômico. O aluguel será de R$ 4.500,00, começando a ser pago daqui a 5 anos. O município, assim, se “livra” do encargo de reformar e zelar diretamente pela manutenção do histórico pavilhão.

O lugar poderia continuar abrigando exposições de artes plásticas abertas ao público e receber visitas de escolas como, aliás, já vinha fazendo. Poderia servir para apresentações teatrais, saraus literários e musicais, como já serviu. Poderia abrigar um museu ferroviário, destacando a importância da via férrea para a colonização e desenvolvimento do Rio Grande do Sul e de Passo Fundo. Via férrea, aliás, que já não nos pertence mais, por também ter sido privatizada.

Poderia ter apenas uma parte ou a metade de sua imensa área dedicada à gastronomia. O restante ficaria para a cultura.

Poderia, mas não vai.

Poderíamos ser um povo melhor, um povo leitor, culto e bem educado, de pessoas crentes no ensino. Poderíamos morar em uma nação mais honesta, sem tanta corrupção.

Tudo bem. Um dia chegaremos lá. Por hora, continuamos sendo o país do futuro. O Estado do futuro. A cidade do futuro. Sempre fomos.

Fiquemos com os 70 metros quadrados de 600, dedicados à cultura. Não esqueçamos, também, de agradecer, preferencialmente, de joelhos. Afinal, sendo tão mal renumerados, é um milagre que os políticos ainda façam algo por nós, não é? Os melhores salários do Brasil são os dos professores, dos policiais e afins. Políticos ganham mal. Quando fazem algo, devemos agradecer-lhes, beijar-lhes as mãos.

A gente não quer só café, mas vamos ter que tomar. Continuar tomando. — Açúcar ou adoçante?

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