terça-feira, 11 de julho de 2017

A sobrevivência do "mais forte"

O rock não morreu. Mudou, apenas. Há muitas bandas boas por aí, como a excelente “Apanhador só”, de Porto Alegre. Tudo muda e isso é bom. É absurdo esperar que a música de hoje seja igual à de 30, 40 anos atrás.

Ouço, frequentemente, amigos lamentarem a música contemporânea e deitarem louros aos medalhões do passado. É como se o presente fosse sempre ruim e o passado, melhor. Não se engane. Essa postura de desprezo em relação à atualidade em função de um antes supostamente soberbo, mágico, é uma praga a infestar todos os âmbitos da cultura. Nietzsche, na metade do século XIX, já escrevia sobre isso, tendo como foco o ambiente acadêmico. Na música, na literatura, no cinema, também há sempre uma “queda” para se valorizar o passado, desprezar o presente e condenar o futuro.

Assim, desse ponto de vista, a poesia de um Luiz de Miranda, autor ainda vivo, não é tão boa quanto à de um Mario Quintana. A arte de um Daniel Galera talvez não seja tão boa quanto à de um Érico Verissimo. Certamente, dirão os entendidos, Érico era muito melhor. Do mesmo modo, um compositor erudito contemporâneo, como Phillip Glass, não chega nem perto de um Beethoven. No cinema, um filme de David Lynch provavelmente é inferior ao de um Alfred Hitchcock. E segue o baile, sempre desprezando o presente, fazendo pouco caso do agora.

Apenas para lembrar, citando um exemplo, se ouvimos, hoje, com tranquilidade, os Beatles, não devemos esquecer todas as críticas feitas ao “fab four” quando eles estavam no auge. A história segue, o tempo firma os melhores e suas obras permanecem. Parece, depois de um tempo, que o que hoje é bom SEMPRE foi bom. Mas não é bem assim. É preciso romper as barreiras entre duas ou três gerações, para conseguir se consagrar no terreno da cultura. Essa travessia é, geralmente, cheia de críticas e animosidades.

Apesar de todos os percalços, a cultura prossegue, a maioria das obras é esquecida e algumas permanecem, formando o cânone. Fica a pergunta se esse desprezo a tudo que é contemporâneo faz parte dessa seleção. Será benéfico? É mesmo uma luta, uma guerra? Somente os mais fortes sobrevivem? Se assim for, talvez não seja tão ruim esse desprezo da maioria pela criação das vanguardas. Talvez as críticas feitas à vanguarda sirvam para fortalecer o que ali já é forte, o que foi criado, concebido para prosperar e tem condições de se firmar perante a passagem do tempo, atravessando gerações. 

Gostamos de estender nossos ideais democráticos e humanitários para todas as áreas, mas, quem sabe, em alguns momentos isso não é prejudicial? Não é o desprezo parte do alimento daquele que cria em profundidade? Nem sempre a bondade é bem-vinda. Há certas coisas que apenas o fogo pode moldar. Seja no rock ou em qualquer outra área...

terça-feira, 4 de julho de 2017

O mito da unicidade

O pensamento ocidental inclina-se para a unicidade, para a busca de um princípio único, origem de todas as coisas. Do um surgiria a diversidade. Tal princípio já era buscado pelos filósofos pré-socráticos. Parmênides, por exemplo, afirmava ser a realidade una e que, por conta disso, o movimento era uma ilusão. Dele até hoje, mais de dois milênios se passaram, mas a procura pela unidade permanece. Na física moderna, inclusive, ela está presente na busca pela teoria do campo unificado, que seria supostamente capaz de unificar a teoria da relatividade geral e a física quântica, explicando todas as interações fundamentais da natureza. Além da natureza, esse anseio pelo uno se expressou também em concepções religiosas. O deus metafísico dos filósofos, representante da ordem cosmológica, parece ter feito carreira no cristianismo, e também os deuses, do politeísmo de povos como os da Grécia, convergiram para a concepção de uma deidade única, soberana. Esse deus único era análogo a uma verdade única, com seus mandamentos únicos, suas formas de adoração específica, contrárias às demais deidades. Os deuses, assim, foram reduzidos à unidade.

Essa visão de unicidade, hoje, pode ser contestada. A natureza, para citar apenas um exemplo, já não pode ser vista como “ordeira”, “perfeita”, ou mesmo “virtuosa”, como o queriam os gregos. Ela nos parece, no momento, muito mais com um caos, uma agitação de forças contrárias umas as outras. Com a aproximação dos povos e cada vez mais pessoas tendo acesso à informação e ao conhecimento, a incrível diversidade da Terra nos tem sido jogada na cara, atentando contra nossas convenções, fazendo tudo girar mais rápido, de modo que é no mínimo difícil pensarmos em um modo único de vida. A humanidade agora é uma imensa colcha de retalhos, cujas pontas são difíceis de serem encontradas. Juntá-las, então, parece-nos cada vez mais impossível. Mesmo em nossa própria “casa”, o mito de que somos senhores de si foi derrubado, devido às descobertas da Psicanálise e da Psicologia. Não somos, absolutamente, um. Somos vários. De várias formas diferentes, talvez incontáveis, mesmo inclassificáveis.

Insistimos, porém, em nos medir, fazer comparações, em busca de uma base comum. Teimamos, ao invés de aceitar o caos proveniente da pluralidade, em reduzir tudo a um. Apenas UM deus, apenas UMA verdade, apenas UM modo de vida, apenas UM amor, apenas UMA forma correta de amar. Na ótica de quem fecha os olhos para não ver, os números não são infinitos; há somente o UM. Para esses olhos, a vida termina na esquina. Tudo que se precisa saber já foi dito. A existência é simples, fácil de ser avaliada. Geralmente, quem assim age traz a verdade em si, a sua verdade, preferencialmente imposta aos demais.

Por que essa inclinação do pensamento ao um? Por que esse “mito da unicidade”? Necessidade de estrutura? Medo da complexidade? Se há algo que a história tem nos mostrado é que esse mito da unicidade, esse fio de Ariadne, não nos leva, necessariamente, para fora do labirinto. No entanto, deveríamos mesmo sair do labirinto? Não seria a morte a única saída? Perder-se nesses corredores misteriosos, avaliar suas mensagens obscuras, andar, andar, sem, necessariamente, nenhuma direção (que lugar há para se ir?) — uma esquina, depois outra esquina e mais outra, e assim sucessivamente, até cair sob o golpe do machado do Minotauro.

Não há deus se não o deus UNO, a UNICIDADE, a inclinação do pensamento ocidental para a UNIDADE, a tentativa desesperada de sufocar a vida, de reduzi-la, minimizá-la. O deus dos filósofos, o deus da ciência, o deus dos judeus, o deus dos cristãos, o deus dos muçulmanos — no fundo, é sempre o mesmo deus, o deus UNO. Na verdade, o mito da unicidade é que tem sido nosso deus...