domingo, 18 de junho de 2017

Ao lado do fogo



a brasa
do charuto

olhos
castanhos

no peito
goles

de conhaque

a procura
de uma chance

álibi

destino
que se cumpra

a vida
após

testar
seus limites

se acomoda

mais um gole
de conhaque

para ajudar
na degustação

da fumaça
doce

de chocolate

a lembrança de um poema verde

(por que verde?)

de Lorca

lá fora
há demônios

em algum lugar
crianças

berram
de fome

uma máquina devora
o braço

de um homem

mulheres que sangram

mulheres que não sagram
mais

mulheres que parem

o laço da vida
se renova

e enforca

um carro bate
em um cinamomo

crânios
se esfacelam

pneus
voando

na Rússia
alguém

aperta
o botão

da bomba
H

ao lado
do fogo

tudo
existe

mas nada

aflige

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Mofo

nesta noite em que o mofo

se espalha
pela casa

e a chuva
insiste

em arranhar
as paredes

feito um tigre

mofa
também

a alma

mas o mofo
d’alma

não cresce
às portas

da melancolia

antes
destila
do Olimpo

a paz

rouba
dos deuses

o néctar

em sua
plural

solitude

é a língua de um sábio
que se cala

a postura de um monge
que medita

os olhos de um iogue
que se fecham

a coragem de Arjuna
que batalha

contra

si mesmo

do mofo d’alma
brotam

cogumelos