segunda-feira, 27 de março de 2017

Um comprimido por dia

Vivemos em um mundo obcecado pelo trabalho, no qual o ócio é visto como um inimigo a ser combatido. Deve-se ter vergonha do prazer e da inércia. O simples e tão espontâneo ato de não fazer nada se transforma em motivo de escândalo. Devemos não apenas negar, mas também esconder nossos mais primitivos desejos, mesmo quando eles não fazem mal algum.

A verdadeira ofensa de nosso tempo é não ser “produtivo”, não colaborar, entusiasticamente, com o sistema.

Valorizamos a vontade, o esforço, a energia — tudo relacionado ao poder. Para nós, poder e vida são análogos. É preciso ser sempre o melhor — o mais alto, o mais forte, o mais rápido. Se fossemos deuses, ainda assim não estaríamos contentes.

Em meio a esse jogo fanático, esquecemos os dois principais objetivos existentes por trás de todos os outros: o prazer e a felicidade.

Colocamos um preço — alto! — no amor e em todos os seus derivados. Vendemos a vida a prestações e damos a isso o nome de trabalho. Acreditamo-nos livres, mas, quase todos os dias, somos obrigados a realizar tarefas com as quais não concordamos ou das quais não gostamos.

Somos animais de circo, obrigados não apenas a trabalhar para o divertimento do público, mas a também fingir amor pelo cativeiro. Não se deve criticar, pensar, ver de um modo diferente. É preciso fazer de tudo para não ser “subversivo”.

Ouça as mesmas músicas. Sorria das mesmas coisas. Finja estar contente em seu trabalho. Vista a camisa. Não se queixe e não critique. Sorria. Seja útil. Um imbecil útil, obcecado por uma ilusão de sucesso, hipnotizado por frases de livros de autoajuda.

Em caso de infelicidade, tome fluoxetina ou similares.

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