sexta-feira, 31 de março de 2017

Um bom tênis

Toda vida humana é subjetiva. Por que, então, enfatizamos o mundo objetivo?

Valorizamos os tênis de alguém mais do que sua cultura. Interessamo-nos mais por bonitezas aparentes e efêmeras do que por belezas veladas, porém duradouras.

De tanto olharmos para fora, esquecemo-nos do que trazemos em nós. Tire os bens materiais de uma pessoa, esqueça sua aparência e o que sobrar é o que ela realmente é.

Se você tiver todo o resto, mas não esse “algo” impalpável, terá uma casa vazia, uma casca.

Temos dificuldades para enxergar a “água do rio”. Fixamo-nos apenas em seu leito. Pedras e ribanceiras nos são mais visíveis do que a substância formadora de nossa interioridade.

Atentando cada vez mais para o exterior, desvalorizamo-nos como indivíduos e como espécie.

A capacidade de abstração, a mente, a interioridade, a subjetividade, não são nossa marca principal, a nos definir?

Dependemos da matéria. Ela é nossa base. Mas com ela apenas, somos tanto quanto um graveto. O que conseguimos criar a partir dela e, até mesmo, apesar dela — eis aí o nosso diferencial.

Mas o mundo moderno tem destruído cada vez mais a importância da interioridade. Cada vez mais é a imagem externa, os outdoors, os carros potentes, os prédios desnecessariamente suntuosos, que nos atraem.

Estamos sendo levados a cada dia para mais longe de nós mesmos, por uma sociedade a qual nós próprios criamos.

Afinal, para que alma, quando podemos ter um bom tênis?

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