sexta-feira, 31 de março de 2017

Um bom tênis

Toda vida humana é subjetiva. Por que, então, enfatizamos o mundo objetivo?

Valorizamos os tênis de alguém mais do que sua cultura. Interessamo-nos mais por bonitezas aparentes e efêmeras do que por belezas veladas, porém duradouras.

De tanto olharmos para fora, esquecemo-nos do que trazemos em nós. Tire os bens materiais de uma pessoa, esqueça sua aparência e o que sobrar é o que ela realmente é.

Se você tiver todo o resto, mas não esse “algo” impalpável, terá uma casa vazia, uma casca.

Temos dificuldades para enxergar a “água do rio”. Fixamo-nos apenas em seu leito. Pedras e ribanceiras nos são mais visíveis do que a substância formadora de nossa interioridade.

Atentando cada vez mais para o exterior, desvalorizamo-nos como indivíduos e como espécie.

A capacidade de abstração, a mente, a interioridade, a subjetividade, não são nossa marca principal, a nos definir?

Dependemos da matéria. Ela é nossa base. Mas com ela apenas, somos tanto quanto um graveto. O que conseguimos criar a partir dela e, até mesmo, apesar dela — eis aí o nosso diferencial.

Mas o mundo moderno tem destruído cada vez mais a importância da interioridade. Cada vez mais é a imagem externa, os outdoors, os carros potentes, os prédios desnecessariamente suntuosos, que nos atraem.

Estamos sendo levados a cada dia para mais longe de nós mesmos, por uma sociedade a qual nós próprios criamos.

Afinal, para que alma, quando podemos ter um bom tênis?

quarta-feira, 29 de março de 2017

Rumo

Há muitos anos, se não me engano em uma obra de Gibran Khalil Gibran, li: “o mais fraco entre nós é na verdade o mais forte”. A frase é ingênua. Fazendo, porém, jus ao seu enunciado, ela permanece em minha memória.

Poderia tê-la esquecido, entre tantas outras passagens já lidas. Lembrar-me-ia de versos de Shakespeare e de aforismas de Oscar Wilde; de trechos do Fausto goethiano e de citações de Jó; de alguma ironia machadiana ou de algum pensamento excêntrico de Hegel.

Mas não...

Entre tantos outros escritos basilares de nossa civilização, é essa frase, tão singela, que muitas vezes eu lembro, quando estou distraído ou angustiado.

Sinceramente, não lembro onde a li, se a li ou quem a escreveu. Suspeito, apenas.

Teria ela surgido espontaneamente em meus pensamentos? Talvez seja o resultado de um devaneio espremido em meio à rotina? Poderia tê-la visto em algum sonho?

Hipóteses.

Apesar da dúvida quanto a sua origem, seu significado me acompanha.

Nem sempre quem mais corre chega primeiro. Pode nem chegar.

Na verdade, não há “ponto de chegada”. Optamos por uma direção e seguimos, sem saber se conseguiremos atingir o ponto A ou B.

Rumamos em direção ao horizonte, perseguindo um sol que sempre nos escapa — mas não seria essa sua principal função?

Forte é quem permanece em seu rumo, mesmo estando em uma jangada. Navios também perdem a direção e afundam. Nesses momentos o mais fraco pode, de fato, se revelar o mais forte.

Se a perseverança é a mãe do sucesso e esse, por sua vez, é fazer aquilo que amamos, o mais importante é perseverar no rumo.

O sucesso é a direção escolhida, o caminho no qual desejamos seguir.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Um comprimido por dia

Vivemos em um mundo obcecado pelo trabalho, no qual o ócio é visto como um inimigo a ser combatido. Deve-se ter vergonha do prazer e da inércia. O simples e tão espontâneo ato de não fazer nada se transforma em motivo de escândalo. Devemos não apenas negar, mas também esconder nossos mais primitivos desejos, mesmo quando eles não fazem mal algum.

A verdadeira ofensa de nosso tempo é não ser “produtivo”, não colaborar, entusiasticamente, com o sistema.

Valorizamos a vontade, o esforço, a energia — tudo relacionado ao poder. Para nós, poder e vida são análogos. É preciso ser sempre o melhor — o mais alto, o mais forte, o mais rápido. Se fossemos deuses, ainda assim não estaríamos contentes.

Em meio a esse jogo fanático, esquecemos os dois principais objetivos existentes por trás de todos os outros: o prazer e a felicidade.

Colocamos um preço — alto! — no amor e em todos os seus derivados. Vendemos a vida a prestações e damos a isso o nome de trabalho. Acreditamo-nos livres, mas, quase todos os dias, somos obrigados a realizar tarefas com as quais não concordamos ou das quais não gostamos.

Somos animais de circo, obrigados não apenas a trabalhar para o divertimento do público, mas a também fingir amor pelo cativeiro. Não se deve criticar, pensar, ver de um modo diferente. É preciso fazer de tudo para não ser “subversivo”.

Ouça as mesmas músicas. Sorria das mesmas coisas. Finja estar contente em seu trabalho. Vista a camisa. Não se queixe e não critique. Sorria. Seja útil. Um imbecil útil, obcecado por uma ilusão de sucesso, hipnotizado por frases de livros de autoajuda.

Em caso de infelicidade, tome fluoxetina ou similares.