segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A gente não quer só café 2

O ator Rodrigo Vilanova, na peça "O eu que não fui".
Há alguns meses, postei uma crônica sobre a utilização da antiga Estação de Passageiros da Via Férrea, na Gare, para fins culturais. O espaço, assumido pela Confraria das Artes, tem servido para diversas exposições de artes plásticas, apresentações musicais e saraus. No último sábado (4), ele também se mostrou útil para outra atividade, tão importante quanto: a apresentação de uma peça teatral.

O espetáculo “O eu que não fui”, com o ator Rodrigo Vilanova, produzido pelo Timbre de Galo e dirigido por Guedes Betho, é uma adaptação livre da peça “Os males do tabaco”, do escritor russo Anton P. Tchekhov.

O ator encara, solitário, o público, em uma performance repleta de momentos ora dramáticos, ora hilários. Impossível ser indiferente à penúria existencial do personagem Domingos enquanto ele tenta, desesperadamente, cumprindo ordens de sua mulher, levar adiante uma palestra sobre os males do tabagismo. O detalhe é que ele também fuma, além de ser alcóolatra, vícios aos quais recorre para tentar fugir de sua existência medíocre, conduzida em torno de um casamento frustrado.

O interessante (e Tchekhov é quase sempre interessante, incrível ao tratar do trivial) é que a dita esposa, que nunca aparece, é uma presença constante em cena. O público a vê pelos olhos do pobre Domingos, sentindo imensa pena dele e horror daquela mulher. Os personagens, na verdade, são três: Domingos, sua esposa — e o próprio público. Afinal, é para as pessoas que assistem à peça que Domingos tenta dar a palestra. O público, assim, se torna ele próprio, até certo ponto, um personagem.

Precisamos salvaguardar a Estação de Passageiros da Via Férrea, para que ela continue se prestando a esse uso, dando espaço para a arte e para os artistas. O espaço é extremamente democrático e muito bem localizado, praticamente no coração da cidade e junto a um de seus parques mais bonitos. Há um grande potencial para que se continue a realizar ali eventos que tenham em vista não apenas o lucro, mas que contemplem a população como um todo.

Quando o lugar começou a ser utilizado pela Confraria das Artes, houve uma discussão sobre sua manutenção e sobre cedê-lo para a exploração comercial. Um café cultural, bem pensado, até seria bem-vindo. Ajudaria, penso, até mesmo a atrair mais pessoas. Mas SÓ um café, não. Queremos café com cultura, com arte — tem um gosto melhor.

Cabe ao público prestigiar, cada vez mais, o local. Que não se deixe escapar essa oportunidade para, depois, lamentar-se a falta de mais espaços culturais e alternativos em Passo Fundo.

Ao final da apresentação, aliás, Vilanova afirmou ser esta apenas a primeira, de muitas parcerias entre o Timbre de Galo e a Confraria das Artes. Que venham os próximos espetáculos!

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