segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Escravos da utilidade

A utilidade é a máscara favorita da mediocridade. Quem não possui talento, seja por questões inatas ou, simplesmente, por não cultivá-lo, deseja, a todo o momento, fazer algo “útil”. Alguém assim não se presta para a Arte, para a Filosofia ou mesmo para a apreciação contemplativa da Ciência.

Imbecis nunca se dão bem com o ócio. Não fazer nada revela a cada um a sua própria estupidez. Como vivemos em um mundo extremamente estúpido, as pessoas estão quase sempre fazendo alguma coisa. Jogam-se cartas, assiste-se a novelas, fala-se sobre o tempo ou acerca de outra banalidade qualquer.

O importante é não ficar só, não pensar, não notar-se. Somos ruins: não devemos deixar o inconsciente “subir”, assomar a consciência. Somos fracos; pressentimos não poder enfrentá-lo.

Somos como um rei destronado em seu próprio castelo, um apátrida em seu próprio país.

É preciso ser razoavelmente “bom” para se ficar só, caso contrário, cai-se vítima de seus próprios demônios. Esses seres poderiam, aliás, ser controlados, ter sua força incorporada a nossa dimensão consciente. Mas não; temos de falar sobre o tempo, se chove ou faz sol.

O furor do mundo contemporâneo pela utilidade é prova de como nosso tempo (talvez sempre tenha sido assim...) é medíocre. O típico cidadão de nossos dias é incapaz de perceber que o cultivo da cultura por si mesma, a princípio sem nenhum outro objetivo, é fonte incrível de novos conhecimentos, origem de descobertas extraordinárias. Trata-se da busca pelo veio aurífero, da procura da fonte, da descoberta da raiz.

A aplicação prática do conhecimento é o final de um processo iniciado muito antes. A utilidade é quando o rio encontra o mar, mas, para haver um rio, é preciso haver uma fonte. Essa fonte existe na atmosfera da inutilidade, onde a água não tem outro objetivo se não o de, simplesmente, jorrar.  

Qual a utilidade da poesia? Nenhuma. Nenhuma arte, em si, é útil. O que é útil é o que se espalha a partir dessa fonte, se expande.

Isso também ocorre, inclusive, com a Ciência. Ao prospectar sobre a natureza da luz, um estudo a primeira vista inútil, Einstein cria todo um novo paradigma científico, com desdobramentos práticos, ajudando a moldar toda a tecnologia do século XX.

Um filósofo, ao ponderar sobre a conceituação da justiça, pode inspirar os juristas a forjarem leis mais adequadas a sua época e sociedade. Essas leis, por sua vez, irão orientar a vida de inúmeras pessoas e também o trabalho de juízes e advogados.

Um artista, ao usar as cores de uma nova forma, ao compor uma música em um estilo diferente, pode influenciar o modo de pensar e de agir de toda uma geração futura.

A vida começa onde ela não é útil, mas prazerosa, encantadora, transcendente. É ali que começa aquilo que chamamos de “humanidade”, na falta de uma palavra melhor.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Nosso tempo

Vivemos em um tempo ruim.
Mas quando houve um tempo bom?

A maioria vive na miséria.
Mas quando houve opulência?

A ignorância é a regra.
            Mas quando ela foi exceção?

Há muitas guerras.
            Mas quando a paz foi soberana?

Os governantes são corruptos.
            Mas quando eles foram virtuosos?

A política é ineficiente.
            Mas quando ela foi eficaz?

O equilíbrio está longe.
            Mas quando ele esteve próximo?

A sabedoria é uma quimera.
            Mas quando ela foi uma realização?

Nosso tempo é o de sempre.

Apenas cada um de nós é único.

Se assim desejar...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Plêiades


porta

outro mundo

filho de Perseu


Plêiades


venho da constelação de Órion


não herdei nada

não quero ser herói

não escondo objetivos por que não os tenho


apenas os meus passos


e as Plêiades

a me perseguir

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A gente não quer só café 2

O ator Rodrigo Vilanova, na peça "O eu que não fui".
Há alguns meses, postei uma crônica sobre a utilização da antiga Estação de Passageiros da Via Férrea, na Gare, para fins culturais. O espaço, assumido pela Confraria das Artes, tem servido para diversas exposições de artes plásticas, apresentações musicais e saraus. No último sábado (4), ele também se mostrou útil para outra atividade, tão importante quanto: a apresentação de uma peça teatral.

O espetáculo “O eu que não fui”, com o ator Rodrigo Vilanova, produzido pelo Timbre de Galo e dirigido por Guedes Betho, é uma adaptação livre da peça “Os males do tabaco”, do escritor russo Anton P. Tchekhov.

O ator encara, solitário, o público, em uma performance repleta de momentos ora dramáticos, ora hilários. Impossível ser indiferente à penúria existencial do personagem Domingos enquanto ele tenta, desesperadamente, cumprindo ordens de sua mulher, levar adiante uma palestra sobre os males do tabagismo. O detalhe é que ele também fuma, além de ser alcóolatra, vícios aos quais recorre para tentar fugir de sua existência medíocre, conduzida em torno de um casamento frustrado.

O interessante (e Tchekhov é quase sempre interessante, incrível ao tratar do trivial) é que a dita esposa, que nunca aparece, é uma presença constante em cena. O público a vê pelos olhos do pobre Domingos, sentindo imensa pena dele e horror daquela mulher. Os personagens, na verdade, são três: Domingos, sua esposa — e o próprio público. Afinal, é para as pessoas que assistem à peça que Domingos tenta dar a palestra. O público, assim, se torna ele próprio, até certo ponto, um personagem.

Precisamos salvaguardar a Estação de Passageiros da Via Férrea, para que ela continue se prestando a esse uso, dando espaço para a arte e para os artistas. O espaço é extremamente democrático e muito bem localizado, praticamente no coração da cidade e junto a um de seus parques mais bonitos. Há um grande potencial para que se continue a realizar ali eventos que tenham em vista não apenas o lucro, mas que contemplem a população como um todo.

Quando o lugar começou a ser utilizado pela Confraria das Artes, houve uma discussão sobre sua manutenção e sobre cedê-lo para a exploração comercial. Um café cultural, bem pensado, até seria bem-vindo. Ajudaria, penso, até mesmo a atrair mais pessoas. Mas SÓ um café, não. Queremos café com cultura, com arte — tem um gosto melhor.

Cabe ao público prestigiar, cada vez mais, o local. Que não se deixe escapar essa oportunidade para, depois, lamentar-se a falta de mais espaços culturais e alternativos em Passo Fundo.

Ao final da apresentação, aliás, Vilanova afirmou ser esta apenas a primeira, de muitas parcerias entre o Timbre de Galo e a Confraria das Artes. Que venham os próximos espetáculos!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Desejos

o tempo devora qualquer voto de castidade

colocamo-nos acima dos deuses

contos de fadas da vida real

baladas obscuras

amores devorando os próprios pés

queria ser um coelho

entrar em todas as casas

roer esperanças

queria ser um demônio

rir de toda utopia