sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Clássica vingança

Tenho uma obsessão: comprar um carro, turbinar com um som potente e sair pelas ruas ouvindo ópera.

Estava pensando, inicialmente, em pegar leve. Ao invés de uma ópera clássica, colocar algo mais pop, como “How can i go on”, na interpretação de Freddie Mercury e Montserrat Caballé.

Mas não. Seria pouco. Preciso realmente me vingar de todas as vezes que fui obrigado a ouvir músicas que, absolutamente, não fazem parte do meu gosto musical.

Sertanejo universitário. Funk. Axé. Refrãos com “tchus”, “tchas” e “tchans”. Lavadas na rachada. Papas americanos. Metralhadoras. Madeiradas.

Você está andando pela rua e, de repente, passa um carro, com o som no último volume, e você é obrigado a ouvir o que não deseja. Quem nunca? Verdadeiros estupros auditivos!

Decidi que vou pegar aquelas óperas pesadas, mesmo, na interpretação de cantores como Pavarotti, Maria Callas, José Carreras, Beniamino Gigli, Philipe Jaroussky e Cecelia Bartoli. Quero fazer a cidade se sobressaltar ao altíssimo som de árias de “Carmen”, “Rinaldo”, “Don Giovanni”, “O guarani”, “O barbeiro de Sevilha”, “Norma”, entre outras.

Imagino-me percorrendo, devagar, as ruas, igual àqueles caminhões vendendo frutas e verduras, os alto-falantes estourando, tranquilo, me deliciando ao som de “Casta diva”, “Habanera” ou “Fígaro”.

Vou estourar vidraças na Avenida Brasil, com a interpretação de “Ghe gelida manina”, na potente e inesquecível voz de Pavarotti. Cães de rua vão uivar, enquanto o contratenor Philipe Jaroussky estiver cantando “Lascia ch’io pianga”, em sua interpretação estridente e, ao mesmo tempo, delicada.

Será uma doce vingança. Uma clássica vingança.

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