segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Procura-se um comunista humilde

Procura-se um comunista humilde, capaz de admitir que ideias comunistas foram, sim, implantadas por vários governos, como URSS, Cuba e China, entre outros — muitas vezes com efeitos catastróficos.

Procura-se um comunista que não seja um ser divino, um profeta, um Hércules político com poderes além de nossa experiência e compreensão.

Procura-se um comunista com o qual se possa conversar sem que se tenha lido Marx, Engels e afins.

Procura-se um comunista com o qual se possa dialogar sem que seja necessário se ter uma enciclopédia na cabeça sobre os acontecimentos políticos dos últimos mil anos ou mais.

Procura-se um comunista que lute pelo povo ao lado do povo e como povo.

Procura-se um comunista que não traga em si, em seu partido e em seus ideais políticos, a solução para todos os problemas da humanidade.

Procura-se um comunista que não viva de esperanças, de utopias, de sonhos, de magias, um ser real, de carne, osso e entranhas.

Procura-se um comunista que não “tire o corpo fora”, quando o comunismo for criticado, fazendo uma distinção banal entre “o comunismo em si” e “o comunismo real”.

Procura-se uma esquerda que não seja perfeita, mas admita pelo menos alguns de seus erros.

A direita é, comumente, arrogante. A esquerda sofre de uma crônica falta de humildade.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sobre escritores

Há três tipos de escritores: os que escrevem para si, os que escrevem para os outros e os que escrevem para a História.

Os que escrevem para si desejam, primordialmente, se expressar. Sua escrita está associada ao prazer de escrever. Não costumam atentar para a técnica, praticando uma escrita automática, espontânea. Como seu principal objetivo é se auto expressar, não têm o hábito de estudar crítica literária e, consequentemente, de criticar seus próprios escritos ou os escritos dos outros.

Os que escrevem para os outros desejam ser lidos pelo maior número possível de pessoas. Sua escrita está associada ao aspecto “artesanal” da linguagem, seja esse trabalho prazeroso ou não. Estudam a técnica, como forma de fazer um melhor uso da escrita para cativar o leitor. Sua escrita não é espontânea, mas estudada, pendendo para um fim específico, ou seja, a comercialização do livro, visto como produto, entretenimento. A autoexpressão, aqui, fica em segundo plano. O importante é escrever para ser lido por alguém e, de preferência, por muitos.

Os que escrevem para a História desejam realizar uma obra que fique para a posteridade, entre para o cânone literário. O objetivo, não raro, é “se perpetuar através dos tempos por meio da escrita”. O corpo morre, mas a letra permanece. Nem é preciso dizer que, dos três tipos de escritores mencionados aqui, esse é o mais ambicioso, se não obsessivo. Tanto o prazer quanto o sofrimento estão submetidos a um objetivo transcendente. A técnica é permanentemente desenvolvida, servindo como meio para a criação de formas originais de escrita.

O que difere um tipo de escritor do outro é a sua “linha de horizonte”, seu objetivo, sua prioridade. Nenhum tipo, porém, é puro: mesmo naquele que deseja escrever somente para se auto expressar, há uma centelha, um mínimo desejo de pelo menos uma vez escrever algo tão bom que mereça permanecer na História. Por outro lado, quem escreve buscando a perfeição nem que seja por alguns instantes se deixa levar pelo prazer de simplesmente escrever por escrever.

O primeiro tipo traz consigo um pouco da aspiração do terceiro, sem estar apto a realizá-la. O segundo, embora domine a técnica, não aspira fazer voos tão altos a ponto de escrever um clássico. Já o terceiro não pode se contentar em simplesmente escrever por escrever, nem pode se dar por satisfeito com o domínio da técnica: é preciso ir mais longe!

É possível conciliar, em um nicho literário, esses três tipos? Um é prejudicial ao outro? Ou benéfico? Um é melhor que o outro? Em relação ao quê? São independentes ou interdependentes?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Improviso #5

não creio na razão universal
nem em outras utopias

analisa a História:

utopias
são pasto para antas

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Clássica vingança

Tenho uma obsessão: comprar um carro, turbinar com um som potente e sair pelas ruas ouvindo ópera.

Estava pensando, inicialmente, em pegar leve. Ao invés de uma ópera clássica, colocar algo mais pop, como “How can i go on”, na interpretação de Freddie Mercury e Montserrat Caballé.

Mas não. Seria pouco. Preciso realmente me vingar de todas as vezes que fui obrigado a ouvir músicas que, absolutamente, não fazem parte do meu gosto musical.

Sertanejo universitário. Funk. Axé. Refrãos com “tchus”, “tchas” e “tchans”. Lavadas na rachada. Papas americanos. Metralhadoras. Madeiradas.

Você está andando pela rua e, de repente, passa um carro, com o som no último volume, e você é obrigado a ouvir o que não deseja. Quem nunca? Verdadeiros estupros auditivos!

Decidi que vou pegar aquelas óperas pesadas, mesmo, na interpretação de cantores como Pavarotti, Maria Callas, José Carreras, Beniamino Gigli, Philipe Jaroussky e Cecelia Bartoli. Quero fazer a cidade se sobressaltar ao altíssimo som de árias de “Carmen”, “Rinaldo”, “Don Giovanni”, “O guarani”, “O barbeiro de Sevilha”, “Norma”, entre outras.

Imagino-me percorrendo, devagar, as ruas, igual àqueles caminhões vendendo frutas e verduras, os alto-falantes estourando, tranquilo, me deliciando ao som de “Casta diva”, “Habanera” ou “Fígaro”.

Vou estourar vidraças na Avenida Brasil, com a interpretação de “Ghe gelida manina”, na potente e inesquecível voz de Pavarotti. Cães de rua vão uivar, enquanto o contratenor Philipe Jaroussky estiver cantando “Lascia ch’io pianga”, em sua interpretação estridente e, ao mesmo tempo, delicada.

Será uma doce vingança. Uma clássica vingança.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A verdade, somente a verdade

Paulo Coelho foi eleito, pela Fundação Albert Einstein, um dos cem maiores pensadores do nosso tempo.

Sou fã de Einstein. Não lembro quando foi meu primeiro contato com o mito do grande cientista, mas, creio, aconteceu ainda antes de eu aprender a ler e a escrever.

Meu pai era apaixonado por ficção científica. Comprava-me brinquedos com temas espaciais, como bonequinhos de astronautas. Deve ter sido assim, brincando e assistindo a filmes, documentários e séries, que vi, pela primeira vez, a clássica imagem do velhinho com a língua de fora.  

Na adolescência, aumentou meu interesse pelas descobertas daquele cientista. Nessa época, tive também meu primeiro contato com as obras de Stephen Hawking, Galileu Galilei e Isaac Newton.

Nas aulas de física, no Ensino Médio, eu fazia rapidamente os exercícios e ia para a biblioteca da escola. Lá, eu me perdia entre obras de filosofia, poesia e, claro, sobre a vida de grandes cientistas, compositores, pintores, filósofos e afins. Muitas delas, inclusive, eram bem antigas, das décadas de sessenta e setenta.

Apesar de, hoje reconheço, serem demasiado “romanceadas”, aquelas biografias serviram para me apresentar a um ideal de ser humano, pois me mostraram exemplos inesquecíveis de esforço e de superação.

Com a obra de Paulo Coelho, entrei em contato ali pelos meus doze anos. Já conhecia, obviamente, suas composições ao lado de Raul Seixas, um dos meus ídolos de sempre. Naquela época, meados dos anos 90, Paulo estava no auge de sua popularidade.

Meu irmão mais velho e seus amigos frequentemente apareciam com alguma obra dele. “Brida”, “O monte cinco”, “O manual do guerreiro da luz”, “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”, etc. Li quase todas. Não gostei... Achei chato. Previsível. Raso.

— Mas Aleixo, se milhares de pessoas gostam dos escritos do Paulo Coelho, por que você não gosta?

Há uma exceção. De um modo geral, simpatizo com “O alquimista”. Apesar de simpatizar com essa obra e ter até uma edição dela com capa dura e ilustrações do Moebius, não a vejo como um “grande escrito”. A história até é boa. A narrativa, em tom de fábula, mais ou menos bem amarrada. Mas os pensamentos são rasos. Mais do que um clássico, parece um livro de autoajuda...

E aí está o problema: não gosto dos livros do Paulo principalmente por que eles dizem às pessoas o que elas desejam ouvir. Ele mente, portanto. Passa uma visão otimista sobre a vida que está muito distante da realidade.

É uma visão falsa.

Uma das “funções” da arte, muito bem expressa pela tragédia, é nos servir de preparação para os males da existência. Todos nós sofremos. Todos nós, em algum momento, nos sentimos sós. Não ganhamos sempre. Não somos deuses.

Ter uma visão falseada da vida, puramente otimista, não irá mudar a realidade. Negar um problema não o resolve...

Ao invés de Paulo Coelho, prefiro Schopenhauer, Nietzsche e Séneca. Ninguém mais sóbrio do que esses dois grandes “pessimistas” e o velho filósofo romano. Eles não passam a mão na cabeça de ninguém. Não dão tapinhas nas costas. Não elogiam falsamente, apenas para agradar.

Eles falam sobre a vida como ela é, com todas as suas dificuldades, suas perdas e derrotas, mas também com seus desafios e aventuras. Algumas vitórias. Nunca, porém, eles deixam de nos advertir de que tudo, absolutamente tudo, tem um preço, geralmente alto.

Não gosto de ser tratado como uma criança. Sou um adulto. Desejo a verdade, somente a verdade.

Por isso, em suma, não gosto das obras do Paulo, mas gosto de Séneca, Schopenhauer, Nietzsche e Einstein: grandes buscadores da verdade. Fosse ela qual fosse, agradável ou não.