sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Amor com humor


Amor sem humor é tragédia. Somente a alegria é capaz de transformar o que é uma necessidade e uma obrigação em algo agradável. Apenas o riso, seja comedido ou escrachado, facilita a convivência entre mundos tão distantes quanto o são dois seres humanos, fadados, por natureza, à solidão.

O amor já foi representado como anjo e como demônio. Para escapar das expectativas exageradas do primeiro e evitar as armadilhas do segundo, nada como uma postura leve perante a vida, que nos devolva a humanidade, sem nos elevar nem rebaixar demasiadamente. Se for verdade que somos alguma coisa entre deuses e demônios, Aristóteles estava certo e o meio-termo nos cabe bem, e se há alguma justa medida no ato de amar, essa é o humor.

Existir é estar só. Esta limitação só é contornada através do amor. É difícil suportar a vida, os perigos, dar sentido a coisas desconexas, tentar a todo o momento amarrar as pontar soltas de sua própria história. É como se tudo transcorresse sempre em preto e branco, como em um antigo filme expressionista alemão. Para dar um pouco de cor a este horizonte carregado e sinistro, temos o amor e o riso.

Há os que preferem o romantismo exagerado de Romeu e Julieta. A história é bela, mas trágica. Mostra bem o resultado de quando o espaço do amor não é ocupado pelo riso. Em seu lugar entram a melancolia, o dilaceramento e a morte. A tragédia é ótima como ensinamento, advertência aos perigos. Mas, sejamos sinceros, ninguém deseja viver de modo tão amargo, ser aniquilado pelo destino.

A figura do sábio comumente aparece como a de um velho sentado em pose contemplativa, séria. Prefiro as imagens daquele Buda gordinho e sorridente. Uma deidade feliz, inspirando felicidade. Não à toa, essa estatueta é conhecida como “Buda da boa fortuna”. Segundo a crença, serviria para atrair riquezas. A maior riqueza dessa imagem, no entanto, está em seu semblante, tão feliz. Para se alcançar isso, talvez, não seja preciso tanto dinheiro e afins...

As histórias de amor estão repletas de sofrimentos e mortes desnecessárias. Expressam o amor em sua forma mais demoníaca. É preciso repensar o sentimento, fazê-lo mais alegre. Deixar a tragédia para o teatro, a literatura e o cinema. Fiquemos, no cotidiano, com uma abordagem mais humana e sábia: deixemos o amor cumprir com sua missão de nos fazer felizes.

Amor com humor, para afastar a dor, por favor! Ainda que as rimas sejam toscas e o tema, brega.

sábado, 25 de novembro de 2017

Intervalo

Chuva.

Garrafa de cerveja.

Rótulo sorridente.

Poemas espalhados entre os detritos do cotidiano.

A tarde convida para o sono.

Instantes de redenção antes do retorno ao rebuliço.

Solidão.

Palavra que contêm em si todas as outras.

Feminina.

Uterina.

Prenhe de qualquer possibilidade

— e a vida se acomodando
a estes espaços
pré-moldados...

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Atraso

vieram os mocinhos

consertar

a história


deixaram

uma trilha

de incontáveis

cadáveres


a força

a vontade

a razão


o mundo destroçado


não vivemos mais do que antigamente

apenas morremos mais tarde

vegetamos por mais tempo

saímos com atraso

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O entregador de jornais

Ele tem 20 e poucos anos
— parece ter 16 ou 17 —
e entrega jornais,
de madrugada.

A cidade é pequena e todos o acham estranho.

Enquanto,
com sua bicicleta,
desliza entre casas e condomínios

ouvindo

Pink Floyd ou Beethoven
em um aparelho de mp3,

a noite é uma pintura de Van Gogh.

Às vezes chove.
Às vezes faz frio.

Às vezes é tão quente
que a tinta dos jornais
mancha seus braços,

forma contornos pretos
em suas veias.

Chega ao lar às 4 da matina.

Olhos vermelhos,
corpo despedaçado,
pulmões chicoteados pelos pingos de chuva
ou por gotas de sal
ou pelo estranho ar da noite sempre muito densa e quieta,

quieta demais.

(Apenas os cães entendem a noite,
os cães e as crianças.)

A certeza de ter que acordar às 8 e meia e entregar mais uma centena de jornais, despachar a correspondência na única agência dos Correios da cidade e atender a telefonemas de assinantes insatisfeitos e arrogantes — meu Deus! Eles acham que podem humilhar alguém porque pagam uma assinatura!

Passar a tarde aguentando a espera.

À noite juntar os pedaços.

Recompor a caótica imagem do sangue transmutado em suor,
da escultura de si mesmo, apenas esboçada,
e fingir, com esforço, dormir em paz.

Os jornais foram entregues.
As pessoas leram as notícias da vida atualizada.
A banalidade está garantida.
A féria também.

Em algum lugar distante,
ouvindo Pink Floyd ou Beethoven,
o entregador de jornais

adormece.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Muitas mortes

Morremos diariamente e, em alguns dias, muitas vezes. Morrer faz parte da vida, não apenas em termos físicos. Em sentido metafórico, morremos todas as noites, ao dormirmos, esperando renascer no dia seguinte. A morte física é apenas a morte final. Até chegarmos a ela, se tivermos a sorte de vivermos o suficiente, passamos por vários “treinamentos”, preparações para a morte derradeira.

Além da morte do corpo, há as mortes relacionadas ao próprio ciclo da vida, conforme vamo-nos nos transformando, desenvolvendo-nos. A criança precisa morrer para que o adulto surja. O adulto jovem tem que dar lugar ao indivíduo maduro. A pessoa madura deixa a cena e em seu lugar surge o idoso e, se o ciclo se faz pleno, vem, então, a morte final. Ao longo de uma vida longa ocorrem, assim, várias mortes.

Acompanhando essas mortes, definidas pelos ciclos de maturação da própria vida, vêm outras tantas fatalidades, ligadas a desejos abandonados, a ideias que perecem para dar lugar a novas e melhores iniciativas. Paixões e amores também morrem. Nem sempre o amor é eterno. Na verdade, quase nunca é. Podemos gostar muito de alguém e, ao longo dos anos, sentir esse amor ir morrendo. Após cada morte é preciso recomeçar, ajustar-se, lutar por novos nascimentos.

Na maior parte das grandes tradições, sejam tradições religiosas, agnósticas ou ateias, a morte é importante como fator de encerramento de um ciclo e início de outro. É preciso aprender a morrer. Largar o passado e concentrar-se no presente, não temer o futuro. A morte, em sua roupagem mais forte, está sempre mais no passado e no futuro. Afinal, como afirma o estoicismo, se estamos aqui, é porque a morte não está. Se a morte, com toda a sua força, estivesse, nós não estaríamos.

Não saber morrer é perigoso. Por isso surgiram muitas lendas, referentes à infâmia de uma morte “mal morrida”. Um dos melhores exemplos é a do vampirismo, presente em várias culturas. Um vampiro é um ser que, basicamente, insiste em não morrer, pelo menos não completamente, como deveria, quebrando, assim, a ordem da vida. Como todos os seres que não sabem morrer, ele é um amaldiçoado, tentando manter uma falsa vida a qualquer custo, alimentando-se de seus entes queridos, amigos e de qualquer outra pessoa realmente viva. Além do mais, existe sempre a possibilidade de passar a maldição do vampirismo para os outros, através da mordida. A desgraça sempre deseja companhia...

Outro exemplo é o dos zumbis cinematográficos. Por ser, como se diz, um “morto-vivo”, o zumbi não está aqui e nem está “lá”. É algo característico dos seres que, morrendo, insistem em querer ficar ou são impedidos de “partir”: tornam-se desgraçados e desejam contaminar a todos com sua desgraça. Os fantasmas seguem uma lógica parecida, assim como o monstro de Frankenstein.

Saber morrer, enterrando seus mortos, exorcizando seus fantasmas, destruindo seus monstros, tanto de um ponto de vista psicológico quanto físico, é essencial, pois a morte, quer queiramos ou não, faz parte da vida e é inevitável.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Janela

jogou-se

do décimo

segundo

andar

o que ela pensou?

quanta coragem!

ou desespero?

certa noite

olhamos
para baixo

a mesma vontade
de dizer não

à vida

entregar-se
ao desconhecido

a preguiça me “salvou”

tempos

depois

ela fez

invejo sua coragem

sangrou
feito um porco?

vomitou
toda excrescência?

tiraram
fotos

eu não vi

estaria
mais bela?

a morte
tem uma precisão
que a vida
jamais
terá

eu não disse adeus

não fui ao seu enterro

não tenho fotos

devíamos ter pulado juntos 

eu sou um péssimo amigo

domingo, 1 de outubro de 2017

A sabedoria e o silêncio

A sabedoria e o amor fazem seu ninho no silêncio. Quando encontramos o sentido, podemos dispensar a linguagem. A palavra é o veículo do pensamento; o saber, seu fim. A bem-aventurança dispensa o pensar e o dizer como um rei, depois de servido, dá folga aos criados. Quem chega aonde precisa é sábio, podendo descansar a fronte no ombro da quietude. Assim, com a passagem do tempo, caso evoluamos, tornamo-nos cada vez mais silenciosos.

Mexemos menos os lábios, destilando o aprendizado mais pelo olhar. Mostramos nossa verdade pelas rugas acumuladas e pelo cansaço encravado nas linhas de expressão, tudo contribuindo para a serenidade de um ser oriundo da guerra contra muitos monstros, já tendo visto tanta gente sucumbir a eles. Em certa tristeza etérea, envolvendo-nos feito nuvem, bênção de um tranquilo céu de outono, prêmio para uma face fustigada por tantos sóis e desertos. Na altivez das costas encurvadas. Na maciez a transpirar da pele ressecada, pela carne enxuta devido à voracidade insaciável do tempo.

A superfície calma de um lago refletida na íris: a sabedoria talvez seja contemplação, discorrendo tranquila, enquanto comunga com os sonhos da humanidade. Há ações silenciosas que atravessam séculos. Há luzes cujas fontes se apagam, mas o brilho permanece.

Estes homens e mulheres que, para serem ouvidos, gritam. Criminosos travestidos de santos. Aspirantes a salvadores da humanidade. Belos ternos. Poses ridicularmente forçadas. Vozes estridentes. Ameaças saltando-lhes pelas pontas dos dedos. Discursos moralistas inflamados, decididos a incendiar, aprisionar os corações, transformá-los em escravos. São ídolos ocos, feitos de madeira não envelhecida, mas podre. Se forem jovens, são verdes como lenhas verdes que, ao serem queimadas, exalam uma fumaça insuportável, tóxica, trancando os pulmões, anestesiando a razão.

É preciso desconfiar dos gritos, dos risos demasiados, dos que procuram sempre agradar. São como pássaros de sons estridentes; não sabem a arte do canto. Hienas, armando emboscadas. Bajuladores, falando apenas o que todos desejam ouvir, para chegar ao poder.

A sabedoria não berra, não pode ser cobrada, tão pouco vendida. Não habita templos suntuosos feitos em honra a egos gigantescos. Está mais para um rei como Sidarta Gautama, abdicando de seu palácio para viver entre os comuns. Prefere andar de ônibus e a pé, ao invés de com uma Ferrari. Observa mais do que comanda.

Quem tem a oportunidade e o poder para pregar pela paz e usa do microfone para louvar a guerra, é mais cruel que o soldado empunhando um fuzil. É pérfido todo aquele que, tendo poder para disseminar o amor, o usa para incitar ao ódio.

A sabedoria não é poder. É amor.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ser de trevas

meus olhos tristes e cansados

carregam

a mais
humana

de todas as dores

transbordante
solidão

cálice
sem fundo

pudesse

falar
do amor

à noite

sonhos
atrelados

a todas as casas

mas...

experiências
várias
tive

grotescas
coisas
vi

o brilho
d’alma
perde
o viço

— no alto
de um morro

à espera
da luz

sol
que nunca nasce

ausência
já tão certa

oh!
ser de trevas!

se olhares para o céu
queimar-te-ás!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

De olhos fechados para o outro

Hoje à tarde, intrometendo-se em uma conversa ocorrida entre um amigo e eu, uma senhora falou sobre Deus. Apelou à divindade para justificar a obrigação da continuidade do casamento. Usou frases clichês como “o que Deus uniu o homem não deve separar”. Sem o mínimo desejo de prosseguir seriamente, fiz uma brincadeira, dizendo que era espírita e, portanto, não levava em consideração as interpretações católicas ou evangélicas da Bíblia. Ao ouvir-me dizer ser um adepto do espiritismo, a mulher ficou visivelmente alterada. Seguiu-se uma enxurrada de frases, destinadas a convencer-me do quanto à religião dela era correta e, a minha, errada.

Continuei sorrindo e levando na esportiva. Mencionei ser do Candomblé, do Islamismo, do Budismo. A cada menção de uma religião diferente, a mulher se esforçava para mostrar-me o quão errado eu estava. Citações bíblicas, menções ao céu e ao inferno, messianismo; valia tudo, apenas no esforço de desqualificar minhas supostas crenças e afirmar a validade das crenças dela.

Cansado daquela pregação, mencionei que cada um tinha o direito de acreditar no que quisesse, e que todos deveriam ser respeitados.

Primeiramente, ela concordou. Em seguida, voltou a afirmar que, no entanto, “apenas Jesus havia dado sua vida para nos salvar e certamente ele voltaria”. Para completar, uma ameaça: “pior para quem não acreditar”. Sem arrefecer, retorqui: “isso é o que a senhora acredita”.

É impressionante a falta da capacidade de se colocar no lugar do outro, de sair de seu próprio umbigo. A maioria de nós não vive suas crenças, mas se esconde atrás delas. Usa-as para fechar os olhos. Já pensou se todos os cristãos vivessem, de fato, como Cristo? Se realmente se importassem com o próximo mais do que consigo mesmos? Se ao invés de pagar o dízimo estivessem mais preocupados em fazer caridade? Se ao invés de cuidarem da vida alheia se concentrassem mais em minimizar seus próprios defeitos?

Não creio em uma vida igual à de Cristo, pois a acho ilusória, utópica. Ao contrário de Rousseau, não creio no “mito do bom selvagem”. Penso que o ser humano, entregue a si mesmo, é tudo, menos “bom”. Se não formos bem educados, se não tivermos uma boa natureza, se não formos muitas vezes conduzidos pelo próprio “destino”, seremos maus.    

O ideal cristão, porém, não deixa de ser uma utopia interessante, “bonitinha”, embora impossível de ser posta em prática (se fosse possível, aliás, não seria uma utopia), conforme nos têm mostrado mais de dois mil anos de cristianismo. Talvez Nietzsche tivesse razão: o primeiro e único cristão morreu na cruz.

sábado, 16 de setembro de 2017

A modernidade cancelada

Com o cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, é um pouco da modernidade que é cancelada, pelo menos no Brasil. É cancelada principalmente no tocante a um caro ideal herdado da Revolução Francesa: liberdade. Não foram os artistas os mais atingidos. Mais uma vez, como vem acontecendo continuamente em nosso país, o alvo, no fundo, foi à democracia, impossível de ser alcançada sem um ideal de liberdade. Para mostrar isso, vou me ater a apenas um ponto, uma opinião apresentada por vários apoiadores do cancelamento da exposição.

Muitos afirmam, acerca de um quadro com uma cena zoófila, ser isso um incentivo a zoofilia. Vou apresentar dois argumentos, mostrando o quanto é absurda essa opinião.

A arte não é o mundo, mas uma representação dele. Os inúmeros crimes descritos nas histórias de Agatha Christie seriam um incentivo a criminalidade? Na obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, o protagonista se suicida. Deveríamos proibi-la por supostamente influenciar os jovens ao suicídio? Em “Moby Dick”, de Hermann Melville, há caça as baleias. Cachalotes são mortos impiedosamente e seu óleo é extraído para ser comercializado. Seria um incentivo a destruição da vida marinha? E no cinema? Psicopatas como Jason Voorhees, Michael Myers e Hannibal Lecter, levariam a comportamentos psicóticos?

Embora existam assassinatos no mundo real, em um livro, quando um personagem morre, ninguém morre “realmente”. É vergonhoso precisar dizer isso, devido a sua obviedade. É justamente esse ponto, no entanto, que foi esquecido pelos críticos da exposição. Eles viram uma cena de zoofilia, e se portaram como se a cena fosse “real”. Mais: acreditaram que quem visse aquilo, agiria daquele modo também. A zoofilia foi retratada em um quadro, junto a outras práticas sexuais, simplesmente por que existe, faz parte do mundo. Por isso ela foi descrita também em um trecho de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. Assim como existiu e existem crimes, suicídios, caça as baleias e psicopatas. É muita ignorância crer que alguém irá virar um canibal por assistir ao personagem Hannibal, que devorava suas vítimas.

O segundo argumento diz respeito ao espaço, um museu. É tão óbvio quanto o primeiro. Entra em um museu, quem quer. Se não concordo com determinada temática, deveria ir vê-la? Se não gosto de filmes de terror, não vou ao cinema para assistir criações desse gênero. Se não curto funk, não o ouço, simplesmente. Posso criticar o cinema de horror? O funk? Claro! A crítica é livre, é o resultado de um ideal de liberdade conquistado ao longo de milênios, com muito sangue derramado. Tenho o direito de proibir os outros de apreciarem o que apreciam? Se o que eles fazem não causa mal nenhum a minha integridade, não ameaça minha vida, é claro que não! Assim, se não gosto de determinada exposição, não compareço a ela. Não levo meus filhos. Quem quiser ir, que vá! Que mal que os quadros causavam a quem não comparecia a exposição? Nenhum! Bastava não ir ao lugar, não olhar as obras. Olhou e não gostou? Critique! Mas não proíba...

Essa proibição, baseada em opiniões insossas como a da zoofilia, é que constitui um ataque à liberdade e, no fundo, como dito, a democracia. Ao invés de se criticar, debater, se proibiu. Censura. Sem liberdade, não há democracia. 

E olha que os quadros não comeram, não fizeram mal a ninguém. Nós é que estamos maus, com o cancelamento da modernidade.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Entre o desencanto e o fanatismo

Um rio de desânimo escorre por nossos olhos. Vem das profundezas de bilhões de almas perdidas, órfãs de sonhos mortos, herdeiros das utopias de quatro ou cinco gerações passadas. Acreditou-se em tanta coisa... No domínio da natureza, no fim das guerras, das doenças, da fome.

A natureza, ao invés de dominada, foi violada, massacrada, vendida. As guerras nunca foram tão perigosas. Graças às bombas atômicas, agora podemos destruiu toda a vida na Terra, apenas com o apertar de alguns botões. E um dia o mundo todo será Hiroshima e Nagasaki... Apesar dos avanços da medicina, a indústria farmacêutica é que detêm a cura, e uma grande parcela da humanidade ainda não tem acesso a medicamentos. A fome, vergonhosamente, ainda estende seu manto por sobre mais de um bilhão de pessoas...

Assim como, muitas vezes, a vida imaginada de cada um não se realiza, também os sonhos coletivos quase nunca acontecem. Algo, em algum momento, se perde. Os olhares se turvam, os passos falham, as mãos se soltam e a frágil malha da ordem social se rompe. Não demora muito para cada um ir para um lado, sem que ninguém saia do lugar.

Enquanto havia utopias, tínhamos, pelo menos, um fino verniz de ilusão. Todas acabaram. Muitas foram, antes de acabar, usadas para justificar genocídios e afins. Chegamos ao século XXI mais lúcidos, aparentemente. Mas só aparentemente, já que as utopias foram substituídas pelo fanatismo.

O fanatismo é a cria maldita das utopias dos séculos passados. É um resíduo, uma má-formação.

Precisamos nos situar entre estes dois extremos: de um lado, uma vida sem utopias, sem sonhos; do outro, o fanatismo. Entre o mundo desencantado e o fanatismo, está a realidade. Mapear essa realidade, agora, é tarefa urgente.

Se me rendo ao mundo tal como ele está, sem utopias, torno-me prisioneiro do mercado, e minha felicidade passa a ser o consumo. O prazer, aspecto mais concreto (mas não o mais importante) da felicidade, passa a dominar. Se me rendo ao fanatismo, torno-me destrutivo, afinal, vou precisar dominar a todos.

A realidade é o ponto entre o desencantamento total do mundo e o fanatismo. Se não há mais utopias, também não podemos simplesmente aceitar as coisas. A vida exige um mínimo de luta.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Freddie Mercury: o filme sobre o homossexual que virou heterossexual que virou homossexual de novo que continuou sendo heterrossexual?!

Em recente comentário, o guitarrista Brian May, do Queen, afirmou a finalização do roteiro para um filme sobre Freddie Mercury. Parece-me, porém, não haver motivos para comemorar. Brian disse que a história será focada no romance entre Mercury e Mary Austin, com quem o cantor teve um caso por alguns anos e manteve amizade pelo resto da vida. Qual o problema? Simples. Ao invés de contar toda a história da vida de Mercury, um ícone gay, vão focar em uma pequena parcela de sua existência heterossexual. May ainda cita que a história tratará sobre a transição dele, após o romance com Austin, para a homossexualidade.

Segundo o biógrafo Selim Rauer, Freddie era gay desde a adolescência. Ele NÃO VIROU gay, ele já era gay desde o início. O mesmo biógrafo cita que, ainda na escola, aos 15 anos, ele foi duramente reprimido por todos, inclusive pela família, por apresentar comportamentos homossexuais, sendo até tirado do internato no qual estudava, após descobrirem que ele era gay e passarem a persegui-lo:

“Por ora, Freddie parecia não estar em sintonia com o mundo, nem talvez com ele mesmo, ou com a família. Foi mandado por algum tempo a Bombaim, para a casa da tia e da avó materna, e depois para milhares de quilômetros dali, à casa dos pais, e isso praticamente de um dia para o outro. O fracasso nos estudos poderia ser a explicação para essa súbita volta ao seio da família. Mas não justificava tudo. Teria havido uma outra razão, e bem simples: Farrokh [esse é o nome de cartório de Freddie] estaria apaixonado por outro garoto da mesma idade, chamado Sanjay, filho de um dos jardineiros do colégio interno. Os encontros tinham sido descobertos após denúncia feita por um aluno de St. Peter. A notícia começou a se espalhar, e o jovem Bulsara [é o sobrenome de cartório de Freddie] teria sido molestado, insultado, e mesmo linchado no dormitório, quando as luzes se apagavam. O diretor da escola, pouco à vontade e chocado, informou imediatamente os pais do garoto.” Freddie Mercury / Selim Rauer

Linchado! Ele foi linchado aos 15 anos por ser gay! Não admira que, ao longo de toda sua carreira, ele evitasse falar sobre sua sexualidade, não é? Voltando a fala de Brian May, ele deixa entender que Freddie será apresentado como se tivesse “virado” homossexual depois de certa idade, não como se sempre tivesse sido. É a história do cara que “virou” gay, mas que continua focada na figura da mulher, de Mary.

Está explicado o título deste escrito: é a história de um homossexual (como aponta sua biografia, ele sempre foi gay), que virou heterossexual (teve um caso longo com Mary Austin), que virou homossexual de novo (“trocou” Mary, digamos assim, por homens), mas que continuou sendo heterossexual (já que no filme o foco parece que será, realmente, na relação com Mary). Maluquice, não?

Na melhor das hipóteses, podemos dizer que Mercury era bissexual. Se é para colocar rótulos, provavelmente esse é o mais correto. Segundo o já citado biógrafo, ele teve, inclusive, envolvimento com outras mulheres. Mas é inegável a sua imagem ter sido sempre associada à homossexualidade. Quando eu era adolescente, lembro-me de todos meus amigos afirmarem que o Queen era uma banda gay com músicas gays, por causa do Freddie. Até meu irmão mais novo, com uns 8 anos, na época, ao assistir uma apresentação do Queen em DVD, me perguntou:

— Ele é gay? — Ao que, obviamente, eu respondi com naturalidade: — Sim.

Desse modo, por que escrever um roteiro baseado na vida de um dos maiores ícones gays da cultura pop (mesmo que ele fosse bissexual, é a imagem de sua homossexualidade que se sobrepõe), focando na relação dele com uma mulher? Ele gostava de machões com bigodes, como o dele. Vai aparecer isso? E as orgias do Queen? Com direito a prostitutas e prostitutos? E a cocaína e outras drogas rolando soltas? Aquela parte em que ele dava de presente, para homens que transavam com ele, relógios de ouro? “Ah, Aleixo. Mas mostrar essas coisas, por quê?” Por que é a VERDADE! Como fã do artista, eu tenho direito a verdade. No entanto, é preciso concordar: o Mercury heterossexual e branco é mais fácil de “engolir”, não é? Só falta fazerem um filme “família”, quando o filme deveria ser para fãs e adultos.

Há, ainda, outro problema que, em minha opinião, destrói qualquer possibilidade de levar a sério um filme sobre o Mercury com a ideia apresentada. Ele morreu de AIDS, em 1991. Sua morte causou um enorme abalo no mundo e serviu de alerta para milhares, talvez milhões de pessoas, sobre o perigo da epidemia. Isso é importante. A morte de Mercury, no auge da carreira, foi, provavelmente, a morte mais famosa em decorrência da AIDS. Falar sobre ele é também falar sobre o seu triste fim, sobre o preconceito contra os LGBTTs e contra os soropositivos. Se a filmografia de Mercury vai deixar de lado essas questões, para focar no romance heterossexual de um homem branco, então esse filme NÃO SERÁ sobre ele.

Mas convenhamos: em tempos sombrios como o nosso, a história do romance de um homem branco e heterossexual é mais cativante, menos incômoda do que a verdadeira história, não é? Troquemos a realidade pela mentira, em nome dos “bons costumes”!

domingo, 20 de agosto de 2017

A gente não quer só café, mas vai ter que tomar...

Escrevi, por duas vezes, sobre o uso da antiga Estação de Passageiros da Via Férrea para fins culturais. O histórico pavilhão fica no Parque da Gare, em Passo Fundo. Desde sua reforma, surgiu a discussão sobre qual seria a melhor maneira de aproveitar o local. A Confraria das Artes, junto com a municipalidade, se instalou por lá e realizou vários eventos culturais.

Como mero operário e escriba amador, acompanhei as discussões, comovido pelo posicionamento de algumas pessoas. Às vezes é bom fingir que se acredita na humanidade. Ainda muito jovem tornei-me um pessimista. Mesmo assim, de quando em quando, tenho alguma recaída...

Várias ideias pulularam entre entidades culturais do munícipio. As sugestões foram, até certo ponto, debatidas. A municipalidade, porém, decidiu, apesar dos pedidos e sugestões, publicar um edital oferecendo o espaço, com mais de 600 metros quadrados, para a iniciativa privada. Para a cultura, ficam apenas 70 metros quadrados. O edital, entre outras coisas, prevê a continuidade da reforma do lugar e a construção de um ambiente gastronômico. O aluguel será de R$ 4.500,00, começando a ser pago daqui a 5 anos. O município, assim, se “livra” do encargo de reformar e zelar diretamente pela manutenção do histórico pavilhão.

O lugar poderia continuar abrigando exposições de artes plásticas abertas ao público e receber visitas de escolas como, aliás, já vinha fazendo. Poderia servir para apresentações teatrais, saraus literários e musicais, como já serviu. Poderia abrigar um museu ferroviário, destacando a importância da via férrea para a colonização e desenvolvimento do Rio Grande do Sul e de Passo Fundo. Via férrea, aliás, que já não nos pertence mais, por também ter sido privatizada.

Poderia ter apenas uma parte ou a metade de sua imensa área dedicada à gastronomia. O restante ficaria para a cultura.

Poderia, mas não vai.

Poderíamos ser um povo melhor, um povo leitor, culto e bem educado, de pessoas crentes no ensino. Poderíamos morar em uma nação mais honesta, sem tanta corrupção.

Tudo bem. Um dia chegaremos lá. Por hora, continuamos sendo o país do futuro. O Estado do futuro. A cidade do futuro. Sempre fomos.

Fiquemos com os 70 metros quadrados de 600, dedicados à cultura. Não esqueçamos, também, de agradecer, preferencialmente, de joelhos. Afinal, sendo tão mal renumerados, é um milagre que os políticos ainda façam algo por nós, não é? Os melhores salários do Brasil são os dos professores, dos policiais e afins. Políticos ganham mal. Quando fazem algo, devemos agradecer-lhes, beijar-lhes as mãos.

A gente não quer só café, mas vamos ter que tomar. Continuar tomando. — Açúcar ou adoçante?

sábado, 12 de agosto de 2017

Improviso #7

elegem como símbolo da Filosofia
a Coruja de Minerva

quanta tolice!

o símbolo mais apropriado para a filosofia
é o fogo

para o filósofo
o capeta

para o filosofar
o tridente

terça-feira, 11 de julho de 2017

A sobrevivência do "mais forte"

O rock não morreu. Mudou, apenas. Há muitas bandas boas por aí, como a excelente “Apanhador só”, de Porto Alegre. Tudo muda e isso é bom. É absurdo esperar que a música de hoje seja igual à de 30, 40 anos atrás.

Ouço, frequentemente, amigos lamentarem a música contemporânea e deitarem louros aos medalhões do passado. É como se o presente fosse sempre ruim e o passado, melhor. Não se engane. Essa postura de desprezo em relação à atualidade em função de um antes supostamente soberbo, mágico, é uma praga a infestar todos os âmbitos da cultura. Nietzsche, na metade do século XIX, já escrevia sobre isso, tendo como foco o ambiente acadêmico. Na música, na literatura, no cinema, também há sempre uma “queda” para se valorizar o passado, desprezar o presente e condenar o futuro.

Assim, desse ponto de vista, a poesia de um Luiz de Miranda, autor ainda vivo, não é tão boa quanto à de um Mario Quintana. A arte de um Daniel Galera talvez não seja tão boa quanto à de um Érico Verissimo. Certamente, dirão os entendidos, Érico era muito melhor. Do mesmo modo, um compositor erudito contemporâneo, como Phillip Glass, não chega nem perto de um Beethoven. No cinema, um filme de David Lynch provavelmente é inferior ao de um Alfred Hitchcock. E segue o baile, sempre desprezando o presente, fazendo pouco caso do agora.

Apenas para lembrar, citando um exemplo, se ouvimos, hoje, com tranquilidade, os Beatles, não devemos esquecer todas as críticas feitas ao “fab four” quando eles estavam no auge. A história segue, o tempo firma os melhores e suas obras permanecem. Parece, depois de um tempo, que o que hoje é bom SEMPRE foi bom. Mas não é bem assim. É preciso romper as barreiras entre duas ou três gerações, para conseguir se consagrar no terreno da cultura. Essa travessia é, geralmente, cheia de críticas e animosidades.

Apesar de todos os percalços, a cultura prossegue, a maioria das obras é esquecida e algumas permanecem, formando o cânone. Fica a pergunta se esse desprezo a tudo que é contemporâneo faz parte dessa seleção. Será benéfico? É mesmo uma luta, uma guerra? Somente os mais fortes sobrevivem? Se assim for, talvez não seja tão ruim esse desprezo da maioria pela criação das vanguardas. Talvez as críticas feitas à vanguarda sirvam para fortalecer o que ali já é forte, o que foi criado, concebido para prosperar e tem condições de se firmar perante a passagem do tempo, atravessando gerações. 

Gostamos de estender nossos ideais democráticos e humanitários para todas as áreas, mas, quem sabe, em alguns momentos isso não é prejudicial? Não é o desprezo parte do alimento daquele que cria em profundidade? Nem sempre a bondade é bem-vinda. Há certas coisas que apenas o fogo pode moldar. Seja no rock ou em qualquer outra área...

terça-feira, 4 de julho de 2017

O mito da unicidade

O pensamento ocidental inclina-se para a unicidade, para a busca de um princípio único, origem de todas as coisas. Do um surgiria a diversidade. Tal princípio já era buscado pelos filósofos pré-socráticos. Parmênides, por exemplo, afirmava ser a realidade una e que, por conta disso, o movimento era uma ilusão. Dele até hoje, mais de dois milênios se passaram, mas a procura pela unidade permanece. Na física moderna, inclusive, ela está presente na busca pela teoria do campo unificado, que seria supostamente capaz de unificar a teoria da relatividade geral e a física quântica, explicando todas as interações fundamentais da natureza. Além da natureza, esse anseio pelo uno se expressou também em concepções religiosas. O deus metafísico dos filósofos, representante da ordem cosmológica, parece ter feito carreira no cristianismo, e também os deuses, do politeísmo de povos como os da Grécia, convergiram para a concepção de uma deidade única, soberana. Esse deus único era análogo a uma verdade única, com seus mandamentos únicos, suas formas de adoração específica, contrárias às demais deidades. Os deuses, assim, foram reduzidos à unidade.

Essa visão de unicidade, hoje, pode ser contestada. A natureza, para citar apenas um exemplo, já não pode ser vista como “ordeira”, “perfeita”, ou mesmo “virtuosa”, como o queriam os gregos. Ela nos parece, no momento, muito mais com um caos, uma agitação de forças contrárias umas as outras. Com a aproximação dos povos e cada vez mais pessoas tendo acesso à informação e ao conhecimento, a incrível diversidade da Terra nos tem sido jogada na cara, atentando contra nossas convenções, fazendo tudo girar mais rápido, de modo que é no mínimo difícil pensarmos em um modo único de vida. A humanidade agora é uma imensa colcha de retalhos, cujas pontas são difíceis de serem encontradas. Juntá-las, então, parece-nos cada vez mais impossível. Mesmo em nossa própria “casa”, o mito de que somos senhores de si foi derrubado, devido às descobertas da Psicanálise e da Psicologia. Não somos, absolutamente, um. Somos vários. De várias formas diferentes, talvez incontáveis, mesmo inclassificáveis.

Insistimos, porém, em nos medir, fazer comparações, em busca de uma base comum. Teimamos, ao invés de aceitar o caos proveniente da pluralidade, em reduzir tudo a um. Apenas UM deus, apenas UMA verdade, apenas UM modo de vida, apenas UM amor, apenas UMA forma correta de amar. Na ótica de quem fecha os olhos para não ver, os números não são infinitos; há somente o UM. Para esses olhos, a vida termina na esquina. Tudo que se precisa saber já foi dito. A existência é simples, fácil de ser avaliada. Geralmente, quem assim age traz a verdade em si, a sua verdade, preferencialmente imposta aos demais.

Por que essa inclinação do pensamento ao um? Por que esse “mito da unicidade”? Necessidade de estrutura? Medo da complexidade? Se há algo que a história tem nos mostrado é que esse mito da unicidade, esse fio de Ariadne, não nos leva, necessariamente, para fora do labirinto. No entanto, deveríamos mesmo sair do labirinto? Não seria a morte a única saída? Perder-se nesses corredores misteriosos, avaliar suas mensagens obscuras, andar, andar, sem, necessariamente, nenhuma direção (que lugar há para se ir?) — uma esquina, depois outra esquina e mais outra, e assim sucessivamente, até cair sob o golpe do machado do Minotauro.

Não há deus se não o deus UNO, a UNICIDADE, a inclinação do pensamento ocidental para a UNIDADE, a tentativa desesperada de sufocar a vida, de reduzi-la, minimizá-la. O deus dos filósofos, o deus da ciência, o deus dos judeus, o deus dos cristãos, o deus dos muçulmanos — no fundo, é sempre o mesmo deus, o deus UNO. Na verdade, o mito da unicidade é que tem sido nosso deus...

domingo, 18 de junho de 2017

Ao lado do fogo



a brasa
do charuto

olhos
castanhos

no peito
goles

de conhaque

a procura
de uma chance

álibi

destino
que se cumpra

a vida
após

testar
seus limites

se acomoda

mais um gole
de conhaque

para ajudar
na degustação

da fumaça
doce

de chocolate

a lembrança de um poema verde

(por que verde?)

de Lorca

lá fora
há demônios

em algum lugar
crianças

berram
de fome

uma máquina devora
o braço

de um homem

mulheres que sangram

mulheres que não sagram
mais

mulheres que parem

o laço da vida
se renova

e enforca

um carro bate
em um cinamomo

crânios
se esfacelam

pneus
voando

na Rússia
alguém

aperta
o botão

da bomba
H

ao lado
do fogo

tudo
existe

mas nada

aflige