segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O topo

Como se envolver com a política, se ela é perversa? Se seus mecanismos aniquilam qualquer resquício de sobriedade, de honra, de empatia? Como buscar no meio do lodo uma moeda de honestidade? É difícil responder positivamente, objetivamente, a essas perguntas...

Enquanto os maiores roubam, ouço amigos atacarem mecanismos que, em sua origem, deveriam ajudar a formar um país mais igualitário. Atacam-se as cotas, os movimentos sindicais, o movimento LGBT, o feminismo, etc. Reclama-se da ainda tosca tentativa que nosso país fez de distribuir melhor a sua renda.

Exalta-se a meritocracia, em todos os momentos, como se fossemos super-homens, seres incríveis, independentes de toda e qualquer condição. Nascemos prontos e, quem nasce pronto, se faz sozinho. E viva o ideal de liberdade em uma sociedade cada vez mais prisioneira de si mesma!

A sociedade é mesmo uma pirâmide. Nunca saímos dos tempos dos faraós. Não foram, com certeza, os líderes do antigo povo egípcio que construíram as pirâmides. Mas alguém construiu: o povo, os pobres, os escravos. Na verdade, nunca saímos de Roma. O Egito e o Império Romano nos definem.

Ainda somos tão cruéis quanto nos tempos antigos. Ainda prosperamos esmagando a cabeça de outrem. Ainda negamos oportunidades à maioria. Escondemos nosso ressentimento atrás das boas intenções, de um ideal de igualdade às avessas. Vivemos sempre em desigualdade e, quando alguém tenta criar uma igualdade mínima em meio a essa desigualdade, invertemos os valores; afirmamos que é desigual criar a igualdade (?).

Igualdade é, na medida do possível, tratar os desiguais como desiguais, minando, aos poucos essa desigualdade. Mas isso dá trabalho. É preciso mexer em praticamente todas as estruturas do Brasil (do Egito? de Roma?) — escola, polícia, Judiciário, poder político.

A pirâmide está suja. As ruas de Roma estão confusas. Os faraós, os imperadores, ainda mandam. Apesar de Sócrates, Aristóteles e Platão; apesar de Kant e Hegel, de Schopenhauer e de Nietzsche, de Adorno e de Foucault. Apesar de tantos outros, que abalaram as estruturas, que se puseram a limpar a pirâmide, o sarcófago, as ruas de Roma e suas casas de banho.

Mas admitamos: o topo da pirâmide, na verdade, nunca foi limpo. Apenas sua base, de quando em quando, se agita em congestões, em protestos e prisões, em denúncias e assassinatos, em guerras...

Enquanto isso, o topo da pirâmide permanece tranquilo. Sem problemas. Sereno em sua vigilância, sobre todo o resto, sobre nós. Cotas, escolas, universidades, partidos, tudo isso é apenas a base.

Nunca chegamos nem sequer até a metade do poder plenamente estabelecido. Nunca deixamos de lutar somente contra nós próprios. Nunca investimos, verdadeiramente, contra os faraós.

Os imperadores, com suas fortunas bem guardadas, no topo, dormem em paz. Suas almas podem até estar sujas, mas não creio que haja qualquer peso em suas consciências...

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