segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Do lado de fora

Se você tem mais de dois neurônios já sentiu, pelo menos uma vez, náusea, ao ler a timeline de seu Facebook. Além de aguentar comentários imbecis, você tem que se sentir feliz quando não se depara com exemplos de fanatismo e postagens preconceituosas, dignas de alguém vivendo na Idade Média.

Ver uma discussão interessante, com bons argumentos, é raro.

Difícil acreditar que, depois de todo o progresso científico do século XX, ainda continuemos tão estúpidos em termos racionais. Se for difícil de acreditar, porém, não é tão difícil de entender. Acontece que o progresso se deu do lado de fora, objetivamente.

Em longo prazo, parece que pouco importa se temos acesso a tantas informações. Isso não significa estarmos prontos para lidarmos com elas. Há um abismo enorme entre informação e conhecimento.

Entre a informação e o ideal de sabedoria, então, nem se fala.

Costumo imaginar como um iluminista, feito Kant, por exemplo, ou Voltaire, veriam nosso mundo. Eles, como outros em sua época, professaram a importância de que o conhecimento fosse dividido, de que todos tivessem acesso à educação. Eles acreditavam ser o estudo uma forma de levar às pessoas a emancipação, a adquirirem uma nova percepção a respeito de si e do mundo.

Como os iluministas veriam nossa época, dominada pelo capital, por uma imprensa fajuta, por uma política quase sempre corrupta? Como conseguiriam digerir o enorme progresso material feito pela humanidade, em contraste com a falta de desenvolvimento cognitivo e empático?

Imagine uma história na qual Kant fosse trazido até os nossos dias. Poderíamos trazer também Descartes, o já citado Voltaire — como eles aguentariam todas as contradições surgidas a partir do final do século XIX?

E se pudéssemos ressuscitar Comte? E o levássemos as milhares de denominações religiosas surgidas após meados do século XX? 

Quem não ficaria impressionado, provavelmente, seria Nietzsche. Ele era um pensador “pessimista”. Se fosse trazido aos nossos dias, talvez ele dissesse: eu avisei!

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