terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Improviso #4

não sou bom
nem sou mau

sou razoável

se me derem um tiro
e eu puder matar
quem atirou
eu mato

os que se julgam bons
são idiotas

e a idiotice é perigosa

os que são maus
são singularmente maus

eu procuro ser razoável

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O topo

Como se envolver com a política, se ela é perversa? Se seus mecanismos aniquilam qualquer resquício de sobriedade, de honra, de empatia? Como buscar no meio do lodo uma moeda de honestidade? É difícil responder positivamente, objetivamente, a essas perguntas...

Enquanto os maiores roubam, ouço amigos atacarem mecanismos que, em sua origem, deveriam ajudar a formar um país mais igualitário. Atacam-se as cotas, os movimentos sindicais, o movimento LGBT, o feminismo, etc. Reclama-se da ainda tosca tentativa que nosso país fez de distribuir melhor a sua renda.

Exalta-se a meritocracia, em todos os momentos, como se fossemos super-homens, seres incríveis, independentes de toda e qualquer condição. Nascemos prontos e, quem nasce pronto, se faz sozinho. E viva o ideal de liberdade em uma sociedade cada vez mais prisioneira de si mesma!

A sociedade é mesmo uma pirâmide. Nunca saímos dos tempos dos faraós. Não foram, com certeza, os líderes do antigo povo egípcio que construíram as pirâmides. Mas alguém construiu: o povo, os pobres, os escravos. Na verdade, nunca saímos de Roma. O Egito e o Império Romano nos definem.

Ainda somos tão cruéis quanto nos tempos antigos. Ainda prosperamos esmagando a cabeça de outrem. Ainda negamos oportunidades à maioria. Escondemos nosso ressentimento atrás das boas intenções, de um ideal de igualdade às avessas. Vivemos sempre em desigualdade e, quando alguém tenta criar uma igualdade mínima em meio a essa desigualdade, invertemos os valores; afirmamos que é desigual criar a igualdade (?).

Igualdade é, na medida do possível, tratar os desiguais como desiguais, minando, aos poucos essa desigualdade. Mas isso dá trabalho. É preciso mexer em praticamente todas as estruturas do Brasil (do Egito? de Roma?) — escola, polícia, Judiciário, poder político.

A pirâmide está suja. As ruas de Roma estão confusas. Os faraós, os imperadores, ainda mandam. Apesar de Sócrates, Aristóteles e Platão; apesar de Kant e Hegel, de Schopenhauer e de Nietzsche, de Adorno e de Foucault. Apesar de tantos outros, que abalaram as estruturas, que se puseram a limpar a pirâmide, o sarcófago, as ruas de Roma e suas casas de banho.

Mas admitamos: o topo da pirâmide, na verdade, nunca foi limpo. Apenas sua base, de quando em quando, se agita em congestões, em protestos e prisões, em denúncias e assassinatos, em guerras...

Enquanto isso, o topo da pirâmide permanece tranquilo. Sem problemas. Sereno em sua vigilância, sobre todo o resto, sobre nós. Cotas, escolas, universidades, partidos, tudo isso é apenas a base.

Nunca chegamos nem sequer até a metade do poder plenamente estabelecido. Nunca deixamos de lutar somente contra nós próprios. Nunca investimos, verdadeiramente, contra os faraós.

Os imperadores, com suas fortunas bem guardadas, no topo, dormem em paz. Suas almas podem até estar sujas, mas não creio que haja qualquer peso em suas consciências...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Do lado de fora

Se você tem mais de dois neurônios já sentiu, pelo menos uma vez, náusea, ao ler a timeline de seu Facebook. Além de aguentar comentários imbecis, você tem que se sentir feliz quando não se depara com exemplos de fanatismo e postagens preconceituosas, dignas de alguém vivendo na Idade Média.

Ver uma discussão interessante, com bons argumentos, é raro.

Difícil acreditar que, depois de todo o progresso científico do século XX, ainda continuemos tão estúpidos em termos racionais. Se for difícil de acreditar, porém, não é tão difícil de entender. Acontece que o progresso se deu do lado de fora, objetivamente.

Em longo prazo, parece que pouco importa se temos acesso a tantas informações. Isso não significa estarmos prontos para lidarmos com elas. Há um abismo enorme entre informação e conhecimento.

Entre a informação e o ideal de sabedoria, então, nem se fala.

Costumo imaginar como um iluminista, feito Kant, por exemplo, ou Voltaire, veriam nosso mundo. Eles, como outros em sua época, professaram a importância de que o conhecimento fosse dividido, de que todos tivessem acesso à educação. Eles acreditavam ser o estudo uma forma de levar às pessoas a emancipação, a adquirirem uma nova percepção a respeito de si e do mundo.

Como os iluministas veriam nossa época, dominada pelo capital, por uma imprensa fajuta, por uma política quase sempre corrupta? Como conseguiriam digerir o enorme progresso material feito pela humanidade, em contraste com a falta de desenvolvimento cognitivo e empático?

Imagine uma história na qual Kant fosse trazido até os nossos dias. Poderíamos trazer também Descartes, o já citado Voltaire — como eles aguentariam todas as contradições surgidas a partir do final do século XIX?

E se pudéssemos ressuscitar Comte? E o levássemos as milhares de denominações religiosas surgidas após meados do século XX? 

Quem não ficaria impressionado, provavelmente, seria Nietzsche. Ele era um pensador “pessimista”. Se fosse trazido aos nossos dias, talvez ele dissesse: eu avisei!