quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A grande ilusão

O sucesso é a sereia do mundo moderno. Com seu canto repleto de promessas, nos atrai para as rochas da ansiedade e da depressão, afunda nosso barco de esperanças e observa, de tocaia, enquanto nos afogamos em mágoas. Em seguida, nos devora aos poucos. Engolidos pelo desespero, lamentamos nosso fracasso, o quanto foram em vão nossos esforços.

O sucesso é uma ilusão, um mendigo sonhando ser milionário.

É o pai de família remoendo o fato de não ser rico, ao mesmo tempo em que perde a oportunidade de dar atenção aos filhos. É a dona de casa reclamando por não poder comprar aquele aspirador de pó de última geração, deixando de lado a satisfação por ter uma casa. É o milionário ressentido por perder alguns milhares, como se já não tivesse milhões — afinal, pouco importa o quanto se tenha, é preciso ter sempre mais...

A felicidade é fruto da aceitação, não de exigências. Não existe felicidade futura. Na verdade, tão pouco o futuro existe. Permanecemos imersos na dimensão absoluta do presente.

No entanto, o mundo nos incentiva, todos os dias, a querer mais, sempre mais. Devemos ser bons em tudo, caso contrário, ninguém nos amará e não seremos felizes.

Para os homens, não basta não ser obeso, é preciso ser musculoso. Ter um emprego do qual se goste é insuficiente e até irrisório, a não ser que o salário seja muito bom.

Já as mulheres devem ser magras, sem estrias, celulite ou rugas.

Para a obesidade, há centenas de dietas, produtos milagrosos e academia. As gordurinhas localizadas podem ser resolvidas com lipoaspiração. Para as estrias, há laser e peeling. A celulite se resolve com cremes e massagens. As rugas, com botox.

Teremos, assim, o ideal “humano” deste tempo: um homem forte e financeiramente bem-sucedido, ao lado de uma mulher atraente. Com um pouco de sorte, eles poderão se casar, ter filhos e formar uma família “tradicional”.

Seria até interessante, se tudo terminasse por aí. Mas, como já foi dito, o processo nunca tem fim. Depois de entrarmos na dança, somos proibidos de parar.

Não basta ter um veículo, é preciso comprar o carro do ano. Uma casa? Melhor uma mansão, de preferência com piscina. Pouco importa se a família quase nunca a usa e o filho, nos fins de semana, cheira cocaína, para fugir do tédio.

Os pobres tão pouco escapam. Como bem enunciou o filósofo Epicuro, para ser feliz não é preciso muito: amigos, liberdade, reflexão, casa, comida e roupas.

Mas em todas as classes sociais somos incitados a lutar para ficarmos ricos, ou mais ricos, com o objetivo de consumir, não importando se, para tanto, percamos amigos, vendamos nossa liberdade ou, até, paremos de pensar.

Quanto mais perseguimos o ideal de riqueza da sociedade, mais ficamos pobres. A aparência talvez até vá bem, com suas lipoaspirações e botox. Os músculos talvez até pareçam fortes, talvez a carteira até esteja cheia.

A alma, porém, muitas vezes agoniza...

Em seus outdoors gigantescos, o mundo não nos diz: cuide de sua alma, seja feliz, estude para a vida, seja criativo, experimente coisas novas, sorva arte, não tenha preconceitos, respeite as diferenças, seja humano.

Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.

2 comentários:

  1. Parabéns seu filósofo. É isso mesmo, eu com meu coturno e a felicidade de ser quem seu. Forte abraço.

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