segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A lembrança

             TOM: C

C G

C      G    C               G
   o azul pesa toneladas

Dm          Em             F                   G
       ouço passos na velha estrada

C                G    C                   G
   não querer ser quem se é

Dm            Em                      F               G       Dm  Em  F  G
       indiferente ao que passou e ao que vier

F           G          Am  G
   estar vivo e só

F           G              Am  G
   estar só e com dor

F      G              Am      G
   o azul pesa toneladas

F           G                        Am           G
   a lembrança do teu corpo nu

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pensar é para todos

Erich Fromm é um dos meus psicólogos favoritos. Até por que, além de psicólogo, era filósofo e sociólogo. Uma de suas obras mais conhecidas é “A arte de amar”, na qual ele procura conceituar o amor e seus antecedentes históricos para, então, o situar no mundo atual. E não se entenda “amor”, aqui, apenas como atração sexual. Em “A arte de amar”, Fromm trata sobre o amor a partir de vários ângulos, inclusive em seu sentido transcendente.

Uma das características mais admiráveis de Fromm era sua capacidade de escrever de forma simples. Ele tinha a preocupação de se fazer entendido pelo maior número possível de pessoas. Crítico ferrenho do capitalismo e da sociedade de consumo, ele acreditava que sua mensagem só teria valor se pudesse ser compreendida também pelo cidadão não erudito.

Além de “A arte de amar”, os livros “Ter ou ser?” e “O coração do homem”, valem, igualmente, a leitura.

O primeiro é, basicamente, uma crítica ao consumismo e ao valor exacerbado que o mundo ocidental dá a economia, em detrimento de áreas como a ecologia e a qualidade de vida.

No segundo, Fromm distingue dois tipos principais de orientação de caráter: o necrófilo, atraído pela morte e pela destruição, e o biófilo, voltado para a vida e sua preservação.

Se as pessoas desenvolverão um caráter inclinado para uma ou outra orientação, isso dependerá do tipo de sociedade na qual estão inseridas. Creio ser até desnecessário afirmar que Fromm identificou, em nossos dias, estímulos alarmantes para o desenvolvimento de posturas necrófilas...

Não são muitos os pensadores preocupados em transmitir sua mensagem para o grande público. Nas últimas décadas, porém, essa prática parecer estar ganhando mais adeptos. Na filosofia, por exemplo, há vários autores interessados em dividir suas ideias com o povo.

O filósofo francês Luc Ferry, inclusive, chegou a vender milhares de exemplares do seu “Aprender a viver”, um best-seller. Apesar do título, a obra não é de autoajuda, mas sim sobre a história da filosofia. Alain de Botton é outro exemplo, com “As consolações da filosofia”, “Desejo de status”, entre outros.

No Brasil, a internet tem ajudado a divulgar o trabalho de pessoas como Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho.

Que surjam mais adeptos da prática de Fromm! Pensar não pode ser algo restrito a academia.

sábado, 22 de outubro de 2016

Micro-ondas

Paro em frente ao micro-ondas. Receio ligá-lo. Faz uns dois meses que não o uso. Penso: “será que vai explodir?”.

Sorrio.

Coloco o prato com comida no aparelho e o ligo. Enquanto ele cumpre com sua função, divago...

Se me pedissem para definir o mundo atual em uma palavra, eu diria: pressa!

Quase todos nós, hoje, imaginamos ter pressa, quando é a pressa que nos têm.

Ela, geralmente, é um modo de agir atrelado à infelicidade e ao dinheiro. Não é a ação, mas o modo como se age — com ou sem ansiedade.

Quando estamos felizes, não temos pressa. Quando estamos felizes, aliás, é o tempo, e não nós, que parece apressado.

Por que o mundo é tão “rápido”? Por que, de um modo geral, ele é um lugar muito infeliz. É o resultado de infelicidades que se somam.

Na sociedade de consumo, a promessa da felicidade está atrelada a se consumir sempre mais. Ou seja: em longo prazo, tudo redunda em dinheiro. Afinal, quanto mais grana, mais poderemos consumir e, assim, seremos felizes — pelo menos é o que o mercado afirma...

Ganhar mais dinheiro para, talvez, comprar a casa “dos sonhos” e o carro do ano. E depois? Que tal um relógio de ouro? Um anel com diamantes incrustados? Viajar para Dubai? Conhecer Paris? Fazer umas plásticas? E depois? Um... Micro-ondas? Mas daqueles enormes!

Na sociedade de consumo, a felicidade é um demônio encarnado cada dia em uma embalagem diferente. Mal terminamos de abrir um novo produto e a felicidade já se mudou para outro invólucro.

Uma casa simples abriga tanto quanto uma mansão. Um fusca pode nos levar de um lugar para outro (não é essa a principal função de um veículo?) tanto quanto uma Ferrari.

Se eu fosse embora hoje, levaria comigo algumas roupas, o teclado, o notebook e o celular. O resto é peso ou pano de fundo — o resto é resto!

O micro-ondas apitou. Ainda bem que não explodiu! Chega de divagar, hora de comer...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Resistência


Flores amarelas crescem em meio ao lixo, em uma parada de ônibus próxima a minha casa.

Acho que são margaridas. Não tenho certeza. Acadêmico de filosofia, sei sobre os pré-socráticos e Aristóteles, Nietzsche e Adorno.

Se me pedirem sobre a arché ou sobre a teoria crítica, poderei argumentar.

Mas quase nada sei sobre plantas...

Ainda mais sobre estas, que insistem em crescer em uma terra dura e vermelha, em meio ao lixo, enfeitando minha manhã de domingo.

Tiro uma foto. Envio para um grupo de amigos, no Whats. Eles também não sabem muito sobre flores...

Um amigo me envia o link de um aplicativo usado para identificar plantas. Criado por um botânico, se chama Plantnapp. A ideia é boa, mas a internet do meu celular está ruim e não tenho como baixar o aplicativo...

Uma amiga, no entanto, me adverte: “não são margaridas”.

E se forem ervas daninhas? Pouco importa! Talvez erva daninha seja apenas uma classificação preconceituosa aplicada a plantas que se adaptam a qualquer terreno.

Estas flores, de tão amarelas, me lembraram girassóis. Pelo visto, eles são mais “aristocráticos”, crescendo apenas em terrenos propícios, em terra boa, humosa.

Há tempos tento enxergar girassóis em algum jardim, enquanto percorro, de ônibus, a cidade, sem sucesso.

De qualquer forma, estas pequenas flores amarelas, em sua singeleza e bravura, enfeitaram minha manhã, tanto quanto um girassol teria feito.

Impossível, olhando as florezinhas, não pensar no povo...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A grande ilusão

O sucesso é a sereia do mundo moderno. Com seu canto repleto de promessas, nos atrai para as rochas da ansiedade e da depressão, afunda nosso barco de esperanças e observa, de tocaia, enquanto nos afogamos em mágoas. Em seguida, nos devora aos poucos. Engolidos pelo desespero, lamentamos nosso fracasso, o quanto foram em vão nossos esforços.

O sucesso é uma ilusão, um mendigo sonhando ser milionário.

É o pai de família remoendo o fato de não ser rico, ao mesmo tempo em que perde a oportunidade de dar atenção aos filhos. É a dona de casa reclamando por não poder comprar aquele aspirador de pó de última geração, deixando de lado a satisfação por ter uma casa. É o milionário ressentido por perder alguns milhares, como se já não tivesse milhões — afinal, pouco importa o quanto se tenha, é preciso ter sempre mais...

A felicidade é fruto da aceitação, não de exigências. Não existe felicidade futura. Na verdade, tão pouco o futuro existe. Permanecemos imersos na dimensão absoluta do presente.

No entanto, o mundo nos incentiva, todos os dias, a querer mais, sempre mais. Devemos ser bons em tudo, caso contrário, ninguém nos amará e não seremos felizes.

Para os homens, não basta não ser obeso, é preciso ser musculoso. Ter um emprego do qual se goste é insuficiente e até irrisório, a não ser que o salário seja muito bom.

Já as mulheres devem ser magras, sem estrias, celulite ou rugas.

Para a obesidade, há centenas de dietas, produtos milagrosos e academia. As gordurinhas localizadas podem ser resolvidas com lipoaspiração. Para as estrias, há laser e peeling. A celulite se resolve com cremes e massagens. As rugas, com botox.

Teremos, assim, o ideal “humano” deste tempo: um homem forte e financeiramente bem-sucedido, ao lado de uma mulher atraente. Com um pouco de sorte, eles poderão se casar, ter filhos e formar uma família “tradicional”.

Seria até interessante, se tudo terminasse por aí. Mas, como já foi dito, o processo nunca tem fim. Depois de entrarmos na dança, somos proibidos de parar.

Não basta ter um veículo, é preciso comprar o carro do ano. Uma casa? Melhor uma mansão, de preferência com piscina. Pouco importa se a família quase nunca a usa e o filho, nos fins de semana, cheira cocaína, para fugir do tédio.

Os pobres tão pouco escapam. Como bem enunciou o filósofo Epicuro, para ser feliz não é preciso muito: amigos, liberdade, reflexão, casa, comida e roupas.

Mas em todas as classes sociais somos incitados a lutar para ficarmos ricos, ou mais ricos, com o objetivo de consumir, não importando se, para tanto, percamos amigos, vendamos nossa liberdade ou, até, paremos de pensar.

Quanto mais perseguimos o ideal de riqueza da sociedade, mais ficamos pobres. A aparência talvez até vá bem, com suas lipoaspirações e botox. Os músculos talvez até pareçam fortes, talvez a carteira até esteja cheia.

A alma, porém, muitas vezes agoniza...

Em seus outdoors gigantescos, o mundo não nos diz: cuide de sua alma, seja feliz, estude para a vida, seja criativo, experimente coisas novas, sorva arte, não tenha preconceitos, respeite as diferenças, seja humano.

Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.