segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O retorno dos jingles malditos

Ouvi, pela primeira vez, no centro, em plena Avenida Brasil. Pareceu-me um deboche. Senti-me idiotizado, um estúpido, por ter nascido neste país, continente, planeta, universo.

Quando escutei aquele jingle político, eu soube: estava aberta a temporada de caça aos eleitores...

Aquilo, porém, não foi tudo. Nos dias seguintes, perdi a conta das vezes em que meu cérebro foi bombardeado por letras imbecis, acopladas a melodias grudentas, difíceis de esquecer.

Somem-se a isso os santinhos, enfiados quase goela abaixo, sorrateiramente, nas esquinas, como se de tocaia, enquanto você deseja, simplesmente, ir ao trabalho, fazer compras, cuidar, enfim, da sua vida.

Mas o pior veio sábado.

Caminhava em direção a Praça Flores da Cunha, quando fui surpreendido por uma melodia que eu conhecia bem. A letra do jingle falava sobre respeito, afirmava como era correto votar em tal candidato, apregoava sua boa intenção com relação aos animais, em uma típica propaganda de autoglorificação.

Não é incrível como todos os políticos, em suas propagandas, parecem não pessoas comuns, mas santos?

Tive asco: era uma paródia da música “Eu não largo o osso”, do extinto programa infantil “TV Colosso”, exibido pela Globo de 1993 a 1997. Quem tem mais de vinte anos deve conhecer. O programa era feito com bonecos em forma de cães e parodiava o dia a dia de uma emissora de televisão. Era, na verdade, uma sátira acerca das relações de poder no ambiente de trabalho e na sociedade brasileira.

Alguns dos seus personagens foram marcantes, como o faz tudo Gilmar, representando a classe operária, o chefão JF, um cachorrão autoritário, o puxa saco Capachão, a patricinha Priscila, o astrólogo Malabi, entre vários outros. Dos programas da TV aberta feitos para crianças e adolescentes, esse sempre foi um dos quais tive orgulho de ter assistido, devido ao seu conteúdo satírico e bem humorado.

Mas, além dos personagens e do humor e, claro, dos cãezinhos fofos transformados em bonecos, a TV Colosso emplacou dois discos. Fiz meus pais comprarem o segundo. Adorava ouvir e, ouvindo hoje, posso dizer que a qualidade de algumas músicas era muito boa. A composição mais famosa do programa, no entanto, foi mesmo a citada “Eu não largo o osso”, que tocava na abertura, cantada pelas Paquitas, da Xuxa.

Justamente essa foi abduzida pela política e transformada em um horrível jingle eleitoral. Um pedaço da minha infância foi ferido. Precisamos mesmo de coisas assim?

Que política é esta, que candidatos são estes, que usam melodias infantis para atrair eleitores? Política não é algo sério? Esta é nossa maturidade? Aceitamos isto?

A largada para as eleições foi dada. Fujam para as montanhas, é o retorno dos jingles malditos. Agoniza a democracia, chora a razão. Nós pagamos o pato, como de praxe.

2 comentários:

  1. É vero, essa gritaria deve parar. Afugenta qualquer eleitor.

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    1. Pois é... Sem contar que é algo totalmente irracional. São tantas bizarrices nas campanhas eleitorais... :/

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