segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Alavanca

Uma pergunta bem feita é uma catapulta: lança-nos para longe. Se a intenção era dar um passo, o questionamento nos fará dar dez. É uma expansão da consciência, forçada por uma alavanca mental. Um desejo por auroras, tendo sua apoteose no encontro com o horizonte.

Infantes, conhecemos bem o mecanismo poderoso da dúvida. Com o passar dos anos, vamos sendo desestimulados de pedir, de conhecer. A curiosidade, inicialmente um incêndio, vai apagando-se. Torna-se, aos poucos, mera chama. Em muitos casos, vira apenas um fósforo, sempre a ponto de extinguir-se, de consumir-se em sua fragilidade.

Deixamos, então, de usar aquela alavanca. Tornamo-nos escravos das frases prontas, das respostas, dos pensamentos alheios, do saber emprestado.

O conhecimento é uma construção. A inteligência é aquilo, em nós, que possibilita construir. Para juntar as peças, é preciso mover-se. Mas o quebra-cabeça da vida não tem fim e a montagem acontece em meio ao vazio, repleto de possibilidades. Cada peça é uma surpresa e a maioria não se encaixa.

Quando, porém, construímos um bom significado, quanto júbilo! A vida é vivida também interiormente e de nada adiantam adulações quando não se está em paz consigo. A felicidade viceja de dentro para fora e, conforme disseram vários sábios, tanto ocidentais quanto orientais, ela vem da simplicidade.

Ativar a alavanca do questionamento, quando se é criança, é simples, e causa alegria. Adultos, no entanto, devido a todas as respostas às quais fomos submetidos, já não sentimos prazer com tal ação.

A alavanca enferrujou. O incêndio apagou-se. O horizonte é esquecido e caminha-se olhando para o chão.

Perder a conexão com o todo é sucumbir à ignorância. O eu que não conhece o outro é incapaz de ver a si mesmo. É impossível perceber o todo quando se caminha olhando para baixo. Difícil compreender o próximo sem questionar quem ele é.

Tateando em nossa escuridão interior, talvez possamos achar aquela alavanca. Com um pouco de esforço, poderemos movê-la. 

Catapultar-nos-emos, assim, para além de nós mesmos. Para o outro, o mundo e a vida.

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