quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ascensão

aceita da solidão o engano

o gelo
acumulando-se

nos beirais

       
ronronar

de gato preto

preso

a sombra


irradia
o sol

a sua chama

do prazer
eleva

a pira


o corpo
cada vez mais lasso

o passo
cada vez mais coxo

o olhar
cada vez mais baço


ascende
o espírito

cresce
o martírio


rês
iluminada

rês
desgarrada


escuridão

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Alavanca

Uma pergunta bem feita é uma catapulta: lança-nos para longe. Se a intenção era dar um passo, o questionamento nos fará dar dez. É uma expansão da consciência, forçada por uma alavanca mental. Um desejo por auroras, tendo sua apoteose no encontro com o horizonte.

Infantes, conhecemos bem o mecanismo poderoso da dúvida. Com o passar dos anos, vamos sendo desestimulados de pedir, de conhecer. A curiosidade, inicialmente um incêndio, vai apagando-se. Torna-se, aos poucos, mera chama. Em muitos casos, vira apenas um fósforo, sempre a ponto de extinguir-se, de consumir-se em sua fragilidade.

Deixamos, então, de usar aquela alavanca. Tornamo-nos escravos das frases prontas, das respostas, dos pensamentos alheios, do saber emprestado.

O conhecimento é uma construção. A inteligência é aquilo, em nós, que possibilita construir. Para juntar as peças, é preciso mover-se. Mas o quebra-cabeça da vida não tem fim e a montagem acontece em meio ao vazio, repleto de possibilidades. Cada peça é uma surpresa e a maioria não se encaixa.

Quando, porém, construímos um bom significado, quanto júbilo! A vida é vivida também interiormente e de nada adiantam adulações quando não se está em paz consigo. A felicidade viceja de dentro para fora e, conforme disseram vários sábios, tanto ocidentais quanto orientais, ela vem da simplicidade.

Ativar a alavanca do questionamento, quando se é criança, é simples, e causa alegria. Adultos, no entanto, devido a todas as respostas às quais fomos submetidos, já não sentimos prazer com tal ação.

A alavanca enferrujou. O incêndio apagou-se. O horizonte é esquecido e caminha-se olhando para o chão.

Perder a conexão com o todo é sucumbir à ignorância. O eu que não conhece o outro é incapaz de ver a si mesmo. É impossível perceber o todo quando se caminha olhando para baixo. Difícil compreender o próximo sem questionar quem ele é.

Tateando em nossa escuridão interior, talvez possamos achar aquela alavanca. Com um pouco de esforço, poderemos movê-la. 

Catapultar-nos-emos, assim, para além de nós mesmos. Para o outro, o mundo e a vida.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O retorno dos jingles malditos

Ouvi, pela primeira vez, no centro, em plena Avenida Brasil. Pareceu-me um deboche. Senti-me idiotizado, um estúpido, por ter nascido neste país, continente, planeta, universo.

Quando escutei aquele jingle político, eu soube: estava aberta a temporada de caça aos eleitores...

Aquilo, porém, não foi tudo. Nos dias seguintes, perdi a conta das vezes em que meu cérebro foi bombardeado por letras imbecis, acopladas a melodias grudentas, difíceis de esquecer.

Somem-se a isso os santinhos, enfiados quase goela abaixo, sorrateiramente, nas esquinas, como se de tocaia, enquanto você deseja, simplesmente, ir ao trabalho, fazer compras, cuidar, enfim, da sua vida.

Mas o pior veio sábado.

Caminhava em direção a Praça Flores da Cunha, quando fui surpreendido por uma melodia que eu conhecia bem. A letra do jingle falava sobre respeito, afirmava como era correto votar em tal candidato, apregoava sua boa intenção com relação aos animais, em uma típica propaganda de autoglorificação.

Não é incrível como todos os políticos, em suas propagandas, parecem não pessoas comuns, mas santos?

Tive asco: era uma paródia da música “Eu não largo o osso”, do extinto programa infantil “TV Colosso”, exibido pela Globo de 1993 a 1997. Quem tem mais de vinte anos deve conhecer. O programa era feito com bonecos em forma de cães e parodiava o dia a dia de uma emissora de televisão. Era, na verdade, uma sátira acerca das relações de poder no ambiente de trabalho e na sociedade brasileira.

Alguns dos seus personagens foram marcantes, como o faz tudo Gilmar, representando a classe operária, o chefão JF, um cachorrão autoritário, o puxa saco Capachão, a patricinha Priscila, o astrólogo Malabi, entre vários outros. Dos programas da TV aberta feitos para crianças e adolescentes, esse sempre foi um dos quais tive orgulho de ter assistido, devido ao seu conteúdo satírico e bem humorado.

Mas, além dos personagens e do humor e, claro, dos cãezinhos fofos transformados em bonecos, a TV Colosso emplacou dois discos. Fiz meus pais comprarem o segundo. Adorava ouvir e, ouvindo hoje, posso dizer que a qualidade de algumas músicas era muito boa. A composição mais famosa do programa, no entanto, foi mesmo a citada “Eu não largo o osso”, que tocava na abertura, cantada pelas Paquitas, da Xuxa.

Justamente essa foi abduzida pela política e transformada em um horrível jingle eleitoral. Um pedaço da minha infância foi ferido. Precisamos mesmo de coisas assim?

Que política é esta, que candidatos são estes, que usam melodias infantis para atrair eleitores? Política não é algo sério? Esta é nossa maturidade? Aceitamos isto?

A largada para as eleições foi dada. Fujam para as montanhas, é o retorno dos jingles malditos. Agoniza a democracia, chora a razão. Nós pagamos o pato, como de praxe.