segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Em todos os lugares

— Coisa de preto! — Disse um senhor, sentado à mesa ao lado. Estava em uma formatura de pedagogia. Não esperava ouvir, pelo menos não naquele ambiente, um comentário racista. Quanta ingenuidade! Neste país, onde a maioria da população é negra ou mestiça, há, ironicamente, racismo em todos os lugares.

Os exemplos mais marcantes de discriminação eu os presenciei na escola, no início e em meados dos anos noventa. Ainda na primeira série, quando mal havia aprendido a ler e escrever, a sociedade fez questão de ensinar-me a classificar os outros por sua cor ou poder aquisitivo.

Eu tinha dois amigos: um era branco, o outro, negro. Criáramos, no recreio, uma brincadeira chamada “espiões”. Ficávamos perto do portão de entrada dos alunos e, quando alguém passava na rua, corríamos nos esconder atrás do muro da escada.

O jogo era praticado apenas por nós três. Aos outros, era vedada a participação. Afinal, aquela brincadeira era “nossa”, orgulhávamo-nos de tê-la inventado, quase sem querer.

Fomos felizes, por alguns meses.

Certo dia, meu amigo branco disse-me para não brincarmos mais com o outro garoto. Fiquei pasmo. Indaguei o motivo. A resposta foi direta: por que ele era negro.

Vi-me, assim, exortado a escolher entre duas amizades igualmente aprazíveis. Apesar de ser uma criança, eu sentia o quanto aquilo era fútil.

Minha escolha, infelizmente, foi previsível: mantive a amizade com o garoto branco.

Aos poucos, fomos afastando nosso colega negro, deixando-o de lado. Ele notou nossa crescente indiferença e, com certeza, deve ter sofrido.

Percebo, hoje, ter pesado também o fato de ele ser o mais pobre de nós. Filho de diarista e de pai alcóolatra, seguidamente aparecia na aula com hematomas no rosto ou nos braços.

Outro caso marcante de racismo, vivido por mim, na escola, ocorreu com uma menina. Quarta série. A humilhação sofrida por ela, porém, vinha de anos anteriores, e continuou nos seguintes.

Era uma menininha tímida, da qual todos zombavam, por ser negra, por ser pobre.

Não que os demais alunos fossem ricos. Pelo contrário, eram todos filhos de operários. Mas neste mundo quem tem um pouco mais se acha no direito de zombar de quem tem um pouco menos.

É assim que aprendemos, não é?

Ela usava, muitas vezes, um vestidinho branco e uma fitinha nos cabelos. As roupas eram simples. Seu jeito de falar, humilde, olhando para o chão.

A turma tinha um apelido para ela, um dos mais cruéis já ouvidos e repetidos por mim: TIÇÃO DO INFERNO!

Como cresce uma criança quando é chamada de “tição do inferno”, dia após dia, ano após ano? E quando isso ocorre na escola, que deveria, supostamente, protegê-la? Como ela se sente ao perceber a indiferença dos adultos ao seu redor?

Crianças são espontaneamente cruéis. Têm, no entanto, a desculpa de serem crianças. Adultos não têm desculpa, têm culpa. Os professores consentiam com o racismo. Nunca tiveram sequer uma conversa focada sobre o problema, na tentativa de amenizar a vida daquela garotinha.

Certa manhã, alguém derrubou o estojo dela no chão. Lápis, canetas e borrachas espalharam-se pela sala. Abaixei-me, dizendo algo como “deixa que eu pego pra você”. Minha intenção, na verdade, era jogar alguns materiais para mais longe, apenas para zoar, em uma típica atitude idiota de quem “segue a multidão”.

Ouvi, então, a voz da professora, a elogiar-me. Ela estava na sala! Eu não sabia. Ela tinha saído e eu não notara o seu retorno. Não tive outra opção, assim, a não ser ajuntar os materiais para minha colega.

A menina não percebeu minha intenção inicial, ficou profundamente tocada e disse-me obrigado, muitas vezes. Seus olhos encheram-se de lágrimas por causa daquele meu gesto, tão simples.

Senti-me a pior pessoa do mundo...

O remorso que senti por ela ter acreditado em mim, quando não havia intenção nenhuma de minha parte em fazer o bem, deu-me uma lição para a vida toda.

Não há mérito para a consciência quando se faz o bem se desejando fazer o mal.

Naquele dia, sem querer, eu comecei a aprender o que é ter ética.

Também aprendi que a multidão, comumente, está errada. É preciso tomar cuidado ao seguir a turba, ao fazer o comum simplesmente por que é comum.

E sim, racismo existe.

E muitas outras coisas, ainda piores.

Em todos os lugares. 

2 comentários:

  1. Excelente! É um relato pungente de uma realidade que dói. Obrigada por colocares em palavras as experiências que machucam, mas podem servir de crescimento, desde que refletidas e metabolizadas na alma. Parabéns!

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    1. Pois é... Temos ainda muito que evoluir. Obrigado pelo comentário!

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