sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Caminhar

Nem todos os caminhos levam a Roma. Alguns não têm saída. Outros terminam em um precipício. Há os que nunca chegam. O pior, talvez, seja o caminho do retorno.

Seguindo adiante, há esperança. Retrocedendo, só velhas feridas. O pó dos livros antigos. Os gibis da infância. Os discos de vinil. Aquela réstia de sol, a entrar no quarto pela janela. Tudo medo do próximo passo, travestido de saudades.  

É loucura rastrear, em demasia, as próprias pegadas. As intempéries as apagam ou, pior, as confundem. O caminho está sempre se modificando, sendo revolvido pelo tempo. Chega o momento em que não sabemos se aqueles passos foram realmente nossos. Na verdade, também nos modificamos, continuamente.

Resgatar um fato na memória é recriá-lo.

O aprendizado não é algo do passado, mas do presente. Carrega-se consigo. Não há por que retroceder. As lições mal aprendidas serão revisitadas na próxima esquina, em outro tropeço.

Ser solícito a renovação do mistério faz parte da caminhada.

Tão pouco adianta, porém, cultivar expectativas. Elas formam um jardim ilusório, uma miragem no deserto. Enfeitiçados pelo oásis, perdemos as oportunidades do mundo real, feito de gozos simplórios, mas sinceros. Água que não jorra em meio a palmeiras magníficas, mas serve, igualmente, para acalmar a sede.

Entre as pegadas na areia e as miragens no horizonte, está o presente. É este passo que damos e aquele outro. Um de cada vez. Perdidos em nosso deserto interior, como naqueles antigos filmes hollywoodianos, em meio a terríveis tempestades de areia.

Nem todos os caminhos levam a Roma. Se não tivéssemos caminhado, no entanto, nunca saberíamos. Talvez um precipício nos espere, logo à frente. Mas é melhor cair, do que nunca ter caminhado. 

O essencial, mesmo, é caminhar.

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