terça-feira, 30 de agosto de 2016

Aceitar

A asma aperta-me os pulmões, com suas mãos invisíveis. O peito torna-se pesado, a respiração, ofegante. É como se estivesse presa, em minha caixa torácica, uma sinistra gata, ronronando, ou ali houvesse um buraco negro, sugando-me o ânimo.

Não causa apenas dor, mas também ansiedade.

Ouvindo a chuva, de madrugada, a mente foge para o futuro, daqui a uns quatro ou cinco dias, quando a crise, talvez, tiver findado.

Não por outro motivo, se não por causa da dor, imaginamos o céu. Pela mesma razão, o budismo almeja o fim do desejo e o Nirvana.

Desejamos muito algo, comumente, quando já não o temos. Conquistado o objetivo, o gosto pelo fruto de nossos esforços diminui.

Assim, desejo respirar normalmente por que já não posso fazê-lo. Notamos a importância das coisas triviais quando elas não estão mais ao nosso alcance. Quando a cabeça dói, os olhos ardem e a respiração falha, percebemos a grandiosidade de sermos um corpo saudável.

Não à toa, Schopenhauer escreveu, em seu Aforismos para a sabedoria de vida, que cerca de noventa por cento de nossa felicidade depende de nossa saúde e, sim, é horrível saber que nossa saúde, em grande parte, não depende de nós.

É claro, podemos fazer o melhor em termos de autocuidado, para não ficarmos doentes, mas ninguém está livre de, a qualquer momento, ser vítima de algum mal, como câncer, diabetes, problemas de pressão ou, até mesmo, de uma gripe idiota...

Não gosto da primavera do Rio Grande do Sul. Não é culpa dela, nem do Estado. Nem minha, na verdade. Acontece que o pólen, tão agradável para muitos, causa-me ardência nos olhos, nariz e garganta.

É triste ter esse problema com uma das mais belas e apaixonantes estações do ano.

Alergia, madrugadas e manhãs frias, tardes quentes, asma: tudo isto me causa uma “pane” nos pulmões. Pneumonia, nesta época, para mim, é algo corriqueiro.

Os estoicos afirmavam ser preciso aceitar o destino para, então, transcendê-lo. Não podemos mudar, pelo menos não totalmente, o ciclo da natureza. Resta, muitas vezes, apenas aceitá-lo.

Aceitar também é um ato de amor. É a autoafirmação de uma vontade que, se não pode afirmar-se de todo e do modo mais desejável, pelo menos ainda possui alguma parcela de poder.

Venha o pólen, então. E as madrugadas e as manhãs frias e as tardes quentes.

2 comentários:

  1. Temos a cidade tomada de árvores exóticas, como é o caso dos ligustros, causa comprovada de alergias. Há cidades que já as eliminaram substituindo-as por outras. Mas conheço muito bem a asma, que maltrata quem a sofre e quem a assiste. Coragem e vá ao médico. Beijos!

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    1. De fato, ver alguém sofrendo de asma também não é legal. Quanto a ir ao médico, até vou, mas os remédios, no caso da asma, são, infelizmente, um tanto paliativos. E ainda bem que existem, como a bombinha, por exemplo, que alivia a falta de ar, por que antigamente a situação era ainda mais complicada. Não sabia sobre a questão dos ligustros, até fui pesquisar. Obrigado pelo comentário! :)

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