terça-feira, 26 de julho de 2016

Ter ou ser?

A antiga Estação de Passageiros da Via Férrea, na Gare, foi sede para a reunião quinzenal da Sociedade dos Poetas Vivos (SPV), no último sábado (23). O evento, organizado pela Confraria das Artes, de Passo Fundo, foi uma, das inúmeras ações culturais que vem sendo realizadas no local. Exposições de artes plásticas e apresentações musicais, entre outros eventos, fazem parte da programação.

Participei do encontro da SPV. Enquanto tomávamos chá, servido pela Confraria, conversamos sobre a possível realização de um concurso literário municipal, voltado, principalmente, para a apreciação de escritos de artistas regionais. Analisamos os textos de um jovem escritor, que nos fez uma visita. Lemos e discutimos alguns trechos de um livro sobre criação literária. Pelo pavilhão, o público circulava, prestigiando obras de vários artistas plásticos, ali expostas.

Após a reunião, dei uma volta pela Gare, ao entardecer. Desnecessário falar como o parque ficou bonito, após as reformas. Estando bem cuidado, as pessoas voltaram a ocupá-lo. Casais de namorados. Pais. Mães. Filhos. Avós. Trabalhadores. Estudantes. Tendo o poder público cumprido com sua função, o povo, solícito, agora colore o local com todas as suas cores e matizes.

Também os artistas, igualmente povo, desejam ajudar a colorir a Gare. Esse é, pelo visto, o objetivo da Confraria das Artes. A interação entre artistas e visitantes é benéfica, para ambos. Daí a importância de não privatizar, pelo menos não totalmente, a antiga Estação de Passageiros da Via Férrea. Ali, conforme a Confraria tem demonstrado, é um ótimo ponto para essa interação.

Privatizar, aliás, segundo Erich Fromm, em sua obra “Ter ou ser?”, vem do latim “privare”, e significa “destituir de”. Nesse livro, o renomado psicólogo critica o consumismo desenfreado do mundo contemporâneo, bem como o caráter cada vez mais mercantil de nossas relações sociais. Ele distingue dois modos de existência: o ter e o ser. A inclinação exacerbada para o modo ter, afirma Fromm, tem nos deixados doentes, insanos.

A arte, como o próprio Fromm menciona, não é ter. É ser. A Gare, inclusive, também é ser. Quem vai a ela não deseja lucro, nem novas aquisições. Um ambiente assim é importante por que convida as pessoas a serem, simplesmente, o que são, ou seja: humanas.

Torço para que o povo não seja destituído do seu direito de sorver arte na antiga Estação, um ambiente já muito bonito e cuidado por várias mãos.

Espero que o ser se sobreponha ao ter.

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