segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sombras

Cada um de nós é uma fonte de luz potente, porém difusa. Amadurecer é concentrar os raios luminosos, para iluminar melhor.

“Talvez o universo seja infinito” — diz. “Qual o sentido de emitir apenas uma centelha, em meio à treva tão densa?”

Pouco importa quão longe chegará à luz. O essencial é o esforço em iluminar.

Acender uma lâmpada para o mundo é o melhor modo de iluminar a si mesmo. Ainda que ela brilhe por pouco tempo.

Não se preocupe com o incomensurável, mas com a pequenez cotidiana. No palco do ínfimo, tendo a banalidade por plateia, faça um big bang. Crie estrelas. Ordene constelações. Origine mundos. Extraia, do vazio, a energia para um novo impulso.

Tenha cuidado com as sombras. Apesar de não serem a própria escuridão, elas são perigosas e sorrateiras. Rastejam até os corações desavisados, fazem de um ninho uma toca, de uma casa um porão.

O tédio, por exemplo, solapa a luz interior. Penetra pelo olhar, já cego para a beleza, fixa-se no peito e monta ali o seu covil. Suga a força vital de seu hospedeiro. Quem é acometido desse mal, não parte de súbito. Mingua. Quando morre, há muito já havia partido.

Atacar Troia, empreender uma odisseia, enfrentar Golias: tudo isso é emocionante. Pode-se sucumbir, mas até a morte, nessas circunstâncias, cativa. Arrastar-se, porém, entre as correntes do cotidiano, extraindo do banal o sumo da aventura, é, pelo menos a princípio, tarefa ingrata, aparentemente irrealizável.

Faz-se necessário uma lâmpada forte, ao peito, para afastar essas sombras. Acenda-a! Melhor: não deixe que ela se apague...

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