sexta-feira, 15 de julho de 2016

Molares

Eu fora um dos ganhadores de um concurso de poemas, em Passo Fundo. Na época, morava em Getúlio Vargas. Ao entardecer de uma sexta-feira, parti para a Capital Nacional da Literatura, na companhia de minha mãe e de alguns amigos.

Sentia um pouco de orgulho, misturado com um nítido sentimento de mediocridade. Tratava-se de um concurso qualquer. Quanto a mim, tinha certeza de ser apenas um adolescente com aspirações infantis. Pouco importava se a vida, naquele momento, sorria. Aquela boca era repleta de molares, prontos para triturar jovens como eu.

“Sorte de principiante”, pensei, observando o trânsito, enquanto o carro seguia pela interestadual. Ao volante, meu amigo contava uma anedota sobre Pablo Neruda. O famoso poeta teria mandado imprimir um de seus escritos e, ao buscar a encomenda, teria dito algo como “saio com os sapatos rotos, mas com a sacola cheia de livros”.

Eu apenas ouvia, sorrindo, singelo como só os muito novos ou os tímidos conseguem ser. Nunca me interessei em conferir se aquela história era verdadeira...

A festa, com o lançamento de um livro, contendo os poemas dos ganhadores, foi no salão do Clube Comercial. O ambiente, luxuoso, ostentava dezenas de pinturas. Tapeçarias vermelhas. Mesas com toalhas brancas e mimos. Garçons com salgadinhos e espumante. Música ao vivo. Mais espumante. Risadas. Alguns discursos, aos quais não prestei atenção. Conversas esparsas com colegas da universidade que, coincidentemente, também estavam ali.

Mais espumante.

Retornamos ao carro próximo à meia-noite. Já não havia muito tráfego na Avenida Brasil. Sob o efeito do álcool, as luzes dos semáforos e dos prédios adquiriam contornos estranhos. Na alma e no olhar, a tristeza de quem se satisfez em excesso.

Na sinaleira próxima a rua que dá para a rodoviária, vários garotos se espalharam por entre os veículos. Bateram nos vidros, estenderam as mãos, chamaram. Maltrapilhos, cabelos e rostinhos sujos. Olhos feridos pela indiferença alheia.

Levei um golpe no estômago. Minha leve tristeza transformara-se em intensa agonia. Vergonha? Sentimento de impotência? “Parabéns, poeta, filósofo!”, pensei. “Você está fazendo muito, com seus escritos idiotas.” Virei o rosto na direção contrária a dos meninos. Indaguei, então, ao meu amigo: “não há como mudar isso?”.

“Redistribuição de renda”, ele respondeu, “mas sempre que se fala nisso, as pessoas viram a cara”. Foi uma resposta clichê de um participante de movimentos sociais, vereador por um partido autointitulado de esquerda.

Mas confesso não tê-la esquecido...

Passou-se mais de uma década. Ainda estou tentando descobrir como levar os meus dias sem virar a cara. Quanto à vida, eu estava certo: ela sabe mastigar!

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