terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Improviso #4

não sou bom
nem sou mau

sou razoável

se me derem um tiro
e eu puder matar
quem atirou
eu mato

os que se julgam bons
são idiotas

e a idiotice é perigosa

os que são maus
são singularmente maus

eu procuro ser razoável

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O topo

Como se envolver com a política, se ela é perversa? Se seus mecanismos aniquilam qualquer resquício de sobriedade, de honra, de empatia? Como buscar no meio do lodo uma moeda de honestidade? É difícil responder positivamente, objetivamente, a essas perguntas...

Enquanto os maiores roubam, ouço amigos atacarem mecanismos que, em sua origem, deveriam ajudar a formar um país mais igualitário. Atacam-se as cotas, os movimentos sindicais, o movimento LGBT, o feminismo, etc. Reclama-se da ainda tosca tentativa que nosso país fez de distribuir melhor a sua renda.

Exalta-se a meritocracia, em todos os momentos, como se fossemos super-homens, seres incríveis, independentes de toda e qualquer condição. Nascemos prontos e, quem nasce pronto, se faz sozinho. E viva o ideal de liberdade em uma sociedade cada vez mais prisioneira de si mesma!

A sociedade é mesmo uma pirâmide. Nunca saímos dos tempos dos faraós. Não foram, com certeza, os líderes do antigo povo egípcio que construíram as pirâmides. Mas alguém construiu: o povo, os pobres, os escravos. Na verdade, nunca saímos de Roma. O Egito e o Império Romano nos definem.

Ainda somos tão cruéis quanto nos tempos antigos. Ainda prosperamos esmagando a cabeça de outrem. Ainda negamos oportunidades à maioria. Escondemos nosso ressentimento atrás das boas intenções, de um ideal de igualdade às avessas. Vivemos sempre em desigualdade e, quando alguém tenta criar uma igualdade mínima em meio a essa desigualdade, invertemos os valores; afirmamos que é desigual criar a igualdade (?).

Igualdade é, na medida do possível, tratar os desiguais como desiguais, minando, aos poucos essa desigualdade. Mas isso dá trabalho. É preciso mexer em praticamente todas as estruturas do Brasil (do Egito? de Roma?) — escola, polícia, Judiciário, poder político.

A pirâmide está suja. As ruas de Roma estão confusas. Os faraós, os imperadores, ainda mandam. Apesar de Sócrates, Aristóteles e Platão; apesar de Kant e Hegel, de Schopenhauer e de Nietzsche, de Adorno e de Foucault. Apesar de tantos outros, que abalaram as estruturas, que se puseram a limpar a pirâmide, o sarcófago, as ruas de Roma e suas casas de banho.

Mas admitamos: o topo da pirâmide, na verdade, nunca foi limpo. Apenas sua base, de quando em quando, se agita em congestões, em protestos e prisões, em denúncias e assassinatos, em guerras...

Enquanto isso, o topo da pirâmide permanece tranquilo. Sem problemas. Sereno em sua vigilância, sobre todo o resto, sobre nós. Cotas, escolas, universidades, partidos, tudo isso é apenas a base.

Nunca chegamos nem sequer até a metade do poder plenamente estabelecido. Nunca deixamos de lutar somente contra nós próprios. Nunca investimos, verdadeiramente, contra os faraós.

Os imperadores, com suas fortunas bem guardadas, no topo, dormem em paz. Suas almas podem até estar sujas, mas não creio que haja qualquer peso em suas consciências...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Do lado de fora

Se você tem mais de dois neurônios já sentiu, pelo menos uma vez, náusea, ao ler a timeline de seu Facebook. Além de aguentar comentários imbecis, você tem que se sentir feliz quando não se depara com exemplos de fanatismo e postagens preconceituosas, dignas de alguém vivendo na Idade Média.

Ver uma discussão interessante, com bons argumentos, é raro.

Difícil acreditar que, depois de todo o progresso científico do século XX, ainda continuemos tão estúpidos em termos racionais. Se for difícil de acreditar, porém, não é tão difícil de entender. Acontece que o progresso se deu do lado de fora, objetivamente.

Em longo prazo, parece que pouco importa se temos acesso a tantas informações. Isso não significa estarmos prontos para lidarmos com elas. Há um abismo enorme entre informação e conhecimento.

Entre a informação e o ideal de sabedoria, então, nem se fala.

Costumo imaginar como um iluminista, feito Kant, por exemplo, ou Voltaire, veriam nosso mundo. Eles, como outros em sua época, professaram a importância de que o conhecimento fosse dividido, de que todos tivessem acesso à educação. Eles acreditavam ser o estudo uma forma de levar às pessoas a emancipação, a adquirirem uma nova percepção a respeito de si e do mundo.

Como os iluministas veriam nossa época, dominada pelo capital, por uma imprensa fajuta, por uma política quase sempre corrupta? Como conseguiriam digerir o enorme progresso material feito pela humanidade, em contraste com a falta de desenvolvimento cognitivo e empático?

Imagine uma história na qual Kant fosse trazido até os nossos dias. Poderíamos trazer também Descartes, o já citado Voltaire — como eles aguentariam todas as contradições surgidas a partir do final do século XIX?

E se pudéssemos ressuscitar Comte? E o levássemos as milhares de denominações religiosas surgidas após meados do século XX? 

Quem não ficaria impressionado, provavelmente, seria Nietzsche. Ele era um pensador “pessimista”. Se fosse trazido aos nossos dias, talvez ele dissesse: eu avisei!

sábado, 26 de novembro de 2016

Improviso #3

vi uma mendiga
e lhe dei alguns trocados

ela agradeceu pela esmola
e me desejou um bom trabalho

meu ego ficou feliz

a mendiga continuou na mesma

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Improviso #2


lanço os princípios
de uma nova religião

princípio um

Satanás fez os homens
depois fez Deus
para que os homens pensassem
que foi Deus quem os fez

princípio dois

todos somos culpados
até mesmo os inocentes

princípio três

todos somos maus
todos somos insanos

frutos
impróprios para passarinhos

princípio quatro

a humanidade é o sonho
que Satã plantou em nossa mente
para nos torturar

princípio cinco

uma pomba devora
nosso fígado

seu nome é Sofia

princípio seis

pessoas vieram com lanternas

enfeitiçadas por suas próprias luzes
espalharam fagulhas

artificiais

princípio sete

uma nova definição
de humano:

quem confunde
vaga-lume com estrela

princípio oito

uma mariposa
vale mais que um avião

uma formiga
vale mais que uma bomba de hidrogênio

uma cigarra
embala a primavera no seu canto

um ornitorrinco
é mais gracioso que o melhor poema de                                                                                 [Baudelaire

mas ninguém liga

princípio nove

todo humano é um imbecil
em potencial

quase sempre em ato

princípio dez

a humildade deve ser carregada em uma                                                                                     [padiola

domingo, 13 de novembro de 2016

Improviso #1

começa o domingo

potenciais assassinos
às seis da manhã

trabalhadores escravos
que se sabem escravos
ou não

circulam os primeiros ônibus

olhos cansados
observam

           a vitrine

miram a mercadoria
para além da alma

          perdida
em algum fenômeno metafísico

um tempo em que ainda não havia máquinas

apenas humanos
e animais

ou seja
somente animais

na penumbra
a consciência se confunde

a alma
tenta escapar

da escuridão

útero primevo
útero de todos

amaldiçoado é o dia
que renega as trevas

mas qual luz
não despreza

a escuridão?

a cisão da alma
a cisão da carne

o espírito desejando ser absoluto

uma gargalhada em frente à loja

e o dia

insidiosa
            utopia

prossegue

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Aparição

a sigla

do corpo

cortada

pelo mistério


um sussurro

que atravessa

distâncias


teu rosto

em uma casa

que tomba


mesmo

que as estrelas

fossem

mármore


a realidade

éter

messiânico


tua presença

seria

supernova


com que dentes

de serra

serei

dilacerado?


com que vontade

correrei

até o Olimpo?


tua

aparição

fundamenta

nova

realidade

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A lembrança

             TOM: C

C G

C      G    C               G
   o azul pesa toneladas

Dm          Em             F                   G
       ouço passos na velha estrada

C                G    C                   G
   não querer ser quem se é

Dm            Em                      F               G       Dm  Em  F  G
       indiferente ao que passou e ao que vier

F           G          Am  G
   estar vivo e só

F           G              Am  G
   estar só e com dor

F      G              Am      G
   o azul pesa toneladas

F           G                        Am           G
   a lembrança do teu corpo nu

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Pensar é para todos

Erich Fromm é um dos meus psicólogos favoritos. Até por que, além de psicólogo, era filósofo e sociólogo. Uma de suas obras mais conhecidas é “A arte de amar”, na qual ele procura conceituar o amor e seus antecedentes históricos para, então, o situar no mundo atual. E não se entenda “amor”, aqui, apenas como atração sexual. Em “A arte de amar”, Fromm trata sobre o amor a partir de vários ângulos, inclusive em seu sentido transcendente.

Uma das características mais admiráveis de Fromm era sua capacidade de escrever de forma simples. Ele tinha a preocupação de se fazer entendido pelo maior número possível de pessoas. Crítico ferrenho do capitalismo e da sociedade de consumo, ele acreditava que sua mensagem só teria valor se pudesse ser compreendida também pelo cidadão não erudito.

Além de “A arte de amar”, os livros “Ter ou ser?” e “O coração do homem”, valem, igualmente, a leitura.

O primeiro é, basicamente, uma crítica ao consumismo e ao valor exacerbado que o mundo ocidental dá a economia, em detrimento de áreas como a ecologia e a qualidade de vida.

No segundo, Fromm distingue dois tipos principais de orientação de caráter: o necrófilo, atraído pela morte e pela destruição, e o biófilo, voltado para a vida e sua preservação.

Se as pessoas desenvolverão um caráter inclinado para uma ou outra orientação, isso dependerá do tipo de sociedade na qual estão inseridas. Creio ser até desnecessário afirmar que Fromm identificou, em nossos dias, estímulos alarmantes para o desenvolvimento de posturas necrófilas...

Não são muitos os pensadores preocupados em transmitir sua mensagem para o grande público. Nas últimas décadas, porém, essa prática parecer estar ganhando mais adeptos. Na filosofia, por exemplo, há vários autores interessados em dividir suas ideias com o povo.

O filósofo francês Luc Ferry, inclusive, chegou a vender milhares de exemplares do seu “Aprender a viver”, um best-seller. Apesar do título, a obra não é de autoajuda, mas sim sobre a história da filosofia. Alain de Botton é outro exemplo, com “As consolações da filosofia”, “Desejo de status”, entre outros.

No Brasil, a internet tem ajudado a divulgar o trabalho de pessoas como Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho.

Que surjam mais adeptos da prática de Fromm! Pensar não pode ser algo restrito a academia.

sábado, 22 de outubro de 2016

Micro-ondas

Paro em frente ao micro-ondas. Receio ligá-lo. Faz uns dois meses que não o uso. Penso: “será que vai explodir?”.

Sorrio.

Coloco o prato com comida no aparelho e o ligo. Enquanto ele cumpre com sua função, divago...

Se me pedissem para definir o mundo atual em uma palavra, eu diria: pressa!

Quase todos nós, hoje, imaginamos ter pressa, quando é a pressa que nos têm.

Ela, geralmente, é um modo de agir atrelado à infelicidade e ao dinheiro. Não é a ação, mas o modo como se age — com ou sem ansiedade.

Quando estamos felizes, não temos pressa. Quando estamos felizes, aliás, é o tempo, e não nós, que parece apressado.

Por que o mundo é tão “rápido”? Por que, de um modo geral, ele é um lugar muito infeliz. É o resultado de infelicidades que se somam.

Na sociedade de consumo, a promessa da felicidade está atrelada a se consumir sempre mais. Ou seja: em longo prazo, tudo redunda em dinheiro. Afinal, quanto mais grana, mais poderemos consumir e, assim, seremos felizes — pelo menos é o que o mercado afirma...

Ganhar mais dinheiro para, talvez, comprar a casa “dos sonhos” e o carro do ano. E depois? Que tal um relógio de ouro? Um anel com diamantes incrustados? Viajar para Dubai? Conhecer Paris? Fazer umas plásticas? E depois? Um... Micro-ondas? Mas daqueles enormes!

Na sociedade de consumo, a felicidade é um demônio encarnado cada dia em uma embalagem diferente. Mal terminamos de abrir um novo produto e a felicidade já se mudou para outro invólucro.

Uma casa simples abriga tanto quanto uma mansão. Um fusca pode nos levar de um lugar para outro (não é essa a principal função de um veículo?) tanto quanto uma Ferrari.

Se eu fosse embora hoje, levaria comigo algumas roupas, o teclado, o notebook e o celular. O resto é peso ou pano de fundo — o resto é resto!

O micro-ondas apitou. Ainda bem que não explodiu! Chega de divagar, hora de comer...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Resistência


Flores amarelas crescem em meio ao lixo, em uma parada de ônibus próxima a minha casa.

Acho que são margaridas. Não tenho certeza. Acadêmico de filosofia, sei sobre os pré-socráticos e Aristóteles, Nietzsche e Adorno.

Se me pedirem sobre a arché ou sobre a teoria crítica, poderei argumentar.

Mas quase nada sei sobre plantas...

Ainda mais sobre estas, que insistem em crescer em uma terra dura e vermelha, em meio ao lixo, enfeitando minha manhã de domingo.

Tiro uma foto. Envio para um grupo de amigos, no Whats. Eles também não sabem muito sobre flores...

Um amigo me envia o link de um aplicativo usado para identificar plantas. Criado por um botânico, se chama Plantnapp. A ideia é boa, mas a internet do meu celular está ruim e não tenho como baixar o aplicativo...

Uma amiga, no entanto, me adverte: “não são margaridas”.

E se forem ervas daninhas? Pouco importa! Talvez erva daninha seja apenas uma classificação preconceituosa aplicada a plantas que se adaptam a qualquer terreno.

Estas flores, de tão amarelas, me lembraram girassóis. Pelo visto, eles são mais “aristocráticos”, crescendo apenas em terrenos propícios, em terra boa, humosa.

Há tempos tento enxergar girassóis em algum jardim, enquanto percorro, de ônibus, a cidade, sem sucesso.

De qualquer forma, estas pequenas flores amarelas, em sua singeleza e bravura, enfeitaram minha manhã, tanto quanto um girassol teria feito.

Impossível, olhando as florezinhas, não pensar no povo...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A grande ilusão

O sucesso é a sereia do mundo moderno. Com seu canto repleto de promessas, nos atrai para as rochas da ansiedade e da depressão, afunda nosso barco de esperanças e observa, de tocaia, enquanto nos afogamos em mágoas. Em seguida, nos devora aos poucos. Engolidos pelo desespero, lamentamos nosso fracasso, o quanto foram em vão nossos esforços.

O sucesso é uma ilusão, um mendigo sonhando ser milionário.

É o pai de família remoendo o fato de não ser rico, ao mesmo tempo em que perde a oportunidade de dar atenção aos filhos. É a dona de casa reclamando por não poder comprar aquele aspirador de pó de última geração, deixando de lado a satisfação por ter uma casa. É o milionário ressentido por perder alguns milhares, como se já não tivesse milhões — afinal, pouco importa o quanto se tenha, é preciso ter sempre mais...

A felicidade é fruto da aceitação, não de exigências. Não existe felicidade futura. Na verdade, tão pouco o futuro existe. Permanecemos imersos na dimensão absoluta do presente.

No entanto, o mundo nos incentiva, todos os dias, a querer mais, sempre mais. Devemos ser bons em tudo, caso contrário, ninguém nos amará e não seremos felizes.

Para os homens, não basta não ser obeso, é preciso ser musculoso. Ter um emprego do qual se goste é insuficiente e até irrisório, a não ser que o salário seja muito bom.

Já as mulheres devem ser magras, sem estrias, celulite ou rugas.

Para a obesidade, há centenas de dietas, produtos milagrosos e academia. As gordurinhas localizadas podem ser resolvidas com lipoaspiração. Para as estrias, há laser e peeling. A celulite se resolve com cremes e massagens. As rugas, com botox.

Teremos, assim, o ideal “humano” deste tempo: um homem forte e financeiramente bem-sucedido, ao lado de uma mulher atraente. Com um pouco de sorte, eles poderão se casar, ter filhos e formar uma família “tradicional”.

Seria até interessante, se tudo terminasse por aí. Mas, como já foi dito, o processo nunca tem fim. Depois de entrarmos na dança, somos proibidos de parar.

Não basta ter um veículo, é preciso comprar o carro do ano. Uma casa? Melhor uma mansão, de preferência com piscina. Pouco importa se a família quase nunca a usa e o filho, nos fins de semana, cheira cocaína, para fugir do tédio.

Os pobres tão pouco escapam. Como bem enunciou o filósofo Epicuro, para ser feliz não é preciso muito: amigos, liberdade, reflexão, casa, comida e roupas.

Mas em todas as classes sociais somos incitados a lutar para ficarmos ricos, ou mais ricos, com o objetivo de consumir, não importando se, para tanto, percamos amigos, vendamos nossa liberdade ou, até, paremos de pensar.

Quanto mais perseguimos o ideal de riqueza da sociedade, mais ficamos pobres. A aparência talvez até vá bem, com suas lipoaspirações e botox. Os músculos talvez até pareçam fortes, talvez a carteira até esteja cheia.

A alma, porém, muitas vezes agoniza...

Em seus outdoors gigantescos, o mundo não nos diz: cuide de sua alma, seja feliz, estude para a vida, seja criativo, experimente coisas novas, sorva arte, não tenha preconceitos, respeite as diferenças, seja humano.

Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ascensão

aceita da solidão o engano

o gelo
acumulando-se

nos beirais

       
ronronar

de gato preto

preso

a sombra


irradia
o sol

a sua chama

do prazer
eleva

a pira


o corpo
cada vez mais lasso

o passo
cada vez mais coxo

o olhar
cada vez mais baço


ascende
o espírito

cresce
o martírio


rês
iluminada

rês
desgarrada


escuridão

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Alavanca

Uma pergunta bem feita é uma catapulta: lança-nos para longe. Se a intenção era dar um passo, o questionamento nos fará dar dez. É uma expansão da consciência, forçada por uma alavanca mental. Um desejo por auroras, tendo sua apoteose no encontro com o horizonte.

Infantes, conhecemos bem o mecanismo poderoso da dúvida. Com o passar dos anos, vamos sendo desestimulados de pedir, de conhecer. A curiosidade, inicialmente um incêndio, vai apagando-se. Torna-se, aos poucos, mera chama. Em muitos casos, vira apenas um fósforo, sempre a ponto de extinguir-se, de consumir-se em sua fragilidade.

Deixamos, então, de usar aquela alavanca. Tornamo-nos escravos das frases prontas, das respostas, dos pensamentos alheios, do saber emprestado.

O conhecimento é uma construção. A inteligência é aquilo, em nós, que possibilita construir. Para juntar as peças, é preciso mover-se. Mas o quebra-cabeça da vida não tem fim e a montagem acontece em meio ao vazio, repleto de possibilidades. Cada peça é uma surpresa e a maioria não se encaixa.

Quando, porém, construímos um bom significado, quanto júbilo! A vida é vivida também interiormente e de nada adiantam adulações quando não se está em paz consigo. A felicidade viceja de dentro para fora e, conforme disseram vários sábios, tanto ocidentais quanto orientais, ela vem da simplicidade.

Ativar a alavanca do questionamento, quando se é criança, é simples, e causa alegria. Adultos, no entanto, devido a todas as respostas às quais fomos submetidos, já não sentimos prazer com tal ação.

A alavanca enferrujou. O incêndio apagou-se. O horizonte é esquecido e caminha-se olhando para o chão.

Perder a conexão com o todo é sucumbir à ignorância. O eu que não conhece o outro é incapaz de ver a si mesmo. É impossível perceber o todo quando se caminha olhando para baixo. Difícil compreender o próximo sem questionar quem ele é.

Tateando em nossa escuridão interior, talvez possamos achar aquela alavanca. Com um pouco de esforço, poderemos movê-la. 

Catapultar-nos-emos, assim, para além de nós mesmos. Para o outro, o mundo e a vida.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O retorno dos jingles malditos

Ouvi, pela primeira vez, no centro, em plena Avenida Brasil. Pareceu-me um deboche. Senti-me idiotizado, um estúpido, por ter nascido neste país, continente, planeta, universo.

Quando escutei aquele jingle político, eu soube: estava aberta a temporada de caça aos eleitores...

Aquilo, porém, não foi tudo. Nos dias seguintes, perdi a conta das vezes em que meu cérebro foi bombardeado por letras imbecis, acopladas a melodias grudentas, difíceis de esquecer.

Somem-se a isso os santinhos, enfiados quase goela abaixo, sorrateiramente, nas esquinas, como se de tocaia, enquanto você deseja, simplesmente, ir ao trabalho, fazer compras, cuidar, enfim, da sua vida.

Mas o pior veio sábado.

Caminhava em direção a Praça Flores da Cunha, quando fui surpreendido por uma melodia que eu conhecia bem. A letra do jingle falava sobre respeito, afirmava como era correto votar em tal candidato, apregoava sua boa intenção com relação aos animais, em uma típica propaganda de autoglorificação.

Não é incrível como todos os políticos, em suas propagandas, parecem não pessoas comuns, mas santos?

Tive asco: era uma paródia da música “Eu não largo o osso”, do extinto programa infantil “TV Colosso”, exibido pela Globo de 1993 a 1997. Quem tem mais de vinte anos deve conhecer. O programa era feito com bonecos em forma de cães e parodiava o dia a dia de uma emissora de televisão. Era, na verdade, uma sátira acerca das relações de poder no ambiente de trabalho e na sociedade brasileira.

Alguns dos seus personagens foram marcantes, como o faz tudo Gilmar, representando a classe operária, o chefão JF, um cachorrão autoritário, o puxa saco Capachão, a patricinha Priscila, o astrólogo Malabi, entre vários outros. Dos programas da TV aberta feitos para crianças e adolescentes, esse sempre foi um dos quais tive orgulho de ter assistido, devido ao seu conteúdo satírico e bem humorado.

Mas, além dos personagens e do humor e, claro, dos cãezinhos fofos transformados em bonecos, a TV Colosso emplacou dois discos. Fiz meus pais comprarem o segundo. Adorava ouvir e, ouvindo hoje, posso dizer que a qualidade de algumas músicas era muito boa. A composição mais famosa do programa, no entanto, foi mesmo a citada “Eu não largo o osso”, que tocava na abertura, cantada pelas Paquitas, da Xuxa.

Justamente essa foi abduzida pela política e transformada em um horrível jingle eleitoral. Um pedaço da minha infância foi ferido. Precisamos mesmo de coisas assim?

Que política é esta, que candidatos são estes, que usam melodias infantis para atrair eleitores? Política não é algo sério? Esta é nossa maturidade? Aceitamos isto?

A largada para as eleições foi dada. Fujam para as montanhas, é o retorno dos jingles malditos. Agoniza a democracia, chora a razão. Nós pagamos o pato, como de praxe.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Aceitar

A asma aperta-me os pulmões, com suas mãos invisíveis. O peito torna-se pesado, a respiração, ofegante. É como se estivesse presa, em minha caixa torácica, uma sinistra gata, ronronando, ou ali houvesse um buraco negro, sugando-me o ânimo.

Não causa apenas dor, mas também ansiedade.

Ouvindo a chuva, de madrugada, a mente foge para o futuro, daqui a uns quatro ou cinco dias, quando a crise, talvez, tiver findado.

Não por outro motivo, se não por causa da dor, imaginamos o céu. Pela mesma razão, o budismo almeja o fim do desejo e o Nirvana.

Desejamos muito algo, comumente, quando já não o temos. Conquistado o objetivo, o gosto pelo fruto de nossos esforços diminui.

Assim, desejo respirar normalmente por que já não posso fazê-lo. Notamos a importância das coisas triviais quando elas não estão mais ao nosso alcance. Quando a cabeça dói, os olhos ardem e a respiração falha, percebemos a grandiosidade de sermos um corpo saudável.

Não à toa, Schopenhauer escreveu, em seu Aforismos para a sabedoria de vida, que cerca de noventa por cento de nossa felicidade depende de nossa saúde e, sim, é horrível saber que nossa saúde, em grande parte, não depende de nós.

É claro, podemos fazer o melhor em termos de autocuidado, para não ficarmos doentes, mas ninguém está livre de, a qualquer momento, ser vítima de algum mal, como câncer, diabetes, problemas de pressão ou, até mesmo, de uma gripe idiota...

Não gosto da primavera do Rio Grande do Sul. Não é culpa dela, nem do Estado. Nem minha, na verdade. Acontece que o pólen, tão agradável para muitos, causa-me ardência nos olhos, nariz e garganta.

É triste ter esse problema com uma das mais belas e apaixonantes estações do ano.

Alergia, madrugadas e manhãs frias, tardes quentes, asma: tudo isto me causa uma “pane” nos pulmões. Pneumonia, nesta época, para mim, é algo corriqueiro.

Os estoicos afirmavam ser preciso aceitar o destino para, então, transcendê-lo. Não podemos mudar, pelo menos não totalmente, o ciclo da natureza. Resta, muitas vezes, apenas aceitá-lo.

Aceitar também é um ato de amor. É a autoafirmação de uma vontade que, se não pode afirmar-se de todo e do modo mais desejável, pelo menos ainda possui alguma parcela de poder.

Venha o pólen, então. E as madrugadas e as manhãs frias e as tardes quentes.