sábado, 28 de março de 2020

A maldição dos mortos-vivos



Em 1968, o diretor George Romero nos brindou com o clássico “A noite dos mortos-vivos”. Muitos filmes com essas horrendas criaturas continuaram sendo feitos, mas nenhum teve o mesmo impacto que a obra-prima de Romero. Apesar de muitos torcerem o nariz para o referido filme, o diretor sempre afirmou que a história era uma crítica política: os mortos-vivos representariam seres alienados, acéfalos.

Meio século depois e vivemos a profecia de Romero. É fácil, hoje, cruzar com seres abjetos, seja nas ruas ou, principalmente, na internet, em redes sociais e afins. Há, inclusive, os que são, no dia a dia, perfeitamente normais e, ao digitarem algo em um computador ou smartphone, transformam-se. Sem que ninguém possa pará-los, começam a entoar seu mantra macabro, despejando as maiores asneiras e ofensas mundo virtual afora.

Os mortos-vivos de Romero são excelentes metáforas para todos que, abdicando de sua razão, de seu bom senso, passam a seguir cegamente algum líder político, ostentando um comportamento de manada, como autênticos bois. Em suas bocas, a baba escorrendo, os olhos nervosos, os dedos coçando, sempre prontos a exaltarem, a defenderem seu líder supremo.

Embora o fenômeno possa acometer tanto a esquerda quanto a direita, é preciso admitir que, nos últimos anos, tem sido uma maldição característica da direita. Esses mortos-vivos, conhecidos como “bolsominions”, podem ser encontrados em todos os lugares, nos mais variados extratos sociais. Nem mesmo o professorado e as instituições acadêmicas estão livres de alguns deles...

Como nos filmes de Romero, essas versões modernas de zumbis repetem sempre a mesma coisa: obediência cega ao seu amado líder. Em alguns filmes, esses mortos repetiam, sem parar: “cérebro, cérebro” – afoitos por devorarem os miolos dos vivos.

Não critico o posicionamento político, mas sim o ENDEUSAMENTO de um líder, qualquer que seja. Ser de manada, apenas seguir o rebanho, professar cega obediência a quem quer que seja, é, por definição, a própria negação da política.

Quem diria que um filme de terror dos anos 60 se tornaria “realidade”, não é mesmo?

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Alma penada

ImagemFree-Photos CC0 / imagem alterada

Uma das imagens mais populares da danação eterna é a de um fantasma arrastando correntes. Ao pensar nisso, me vem à cabeça a figura do espírito de Jacob Marley, personagem do conto “Um cântico de Natal”, de Charles Dickens. Esse espírito, condenado, arrastava enormes blocos de pedra, presos as suas correntes.

Mas não é preciso estar morto e condenado para sentir-se preso a correntes. Vivemos sempre atrelados ao passado, em um círculo de repetições de comportamentos. Se o passado nos dá identidade, também nos ata fortemente ao que já deveríamos ter olvidado.

Todos, olhando bem para si, com um mínimo de sinceridade, hão de perceber pelo menos algumas amarras, vícios de comportamento, adquiridos muito cedo, talvez ainda na infância. Se esse olhar for aguçado, provavelmente encontrará centenas de nós, correntes e pedras.

É difícil caminhar com todo esse peso. Também não é fácil desatar os nós, destruir os elos, quebrar as pedras. Creio, inclusive, que muito de tudo isso está tão entranhado em nosso ser que se torna quase impossível ter mais liberdade. Depois, talvez todo esse “sistema” sirva para esconder algo ainda pior.

De quantos desejos desistimos, devido ao enorme peso do passado? Quantas vezes arrastamos o passo, sem ver o que nos prende? Quantos sonhos ruem antes mesmo de começarem, devido a essa grotesca massa de cordas, correntes e pedras?

A liberdade é uma utopia porque já é difícil de obtê-la dentro de nós mesmos. Se a liberdade interna é penosa, imaginemos o quão difícil é a objetiva, buscada no cotidiano. Antes de sermos presos pelo mundo, estamos condenados por dentro. Algo em nós nos prende.

Não é preciso morrer para ser um fantasma e sair por aí arrastando correntes. Fazemos isso todos os dias. A imagem do pobre espírito a vagar por toda a eternidade é apenas uma projeção de nossa própria condição. O único consolo que nos resta é o de que, esta vida, pelo menos, não é eterna.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Oração

ImagemFree-Photos CC0 / imagem alterada


brota lentamente a tristeza
em meu peito torturado

brota sentido e beleza
em meu espírito cansado

a dor é meu humo
a angústia, meu arado

a criação é meu rumo
a solidão, meu fardo

desço ao inferno
mas dos mortos retorno

revigorado

das trevas extraio pureza
amor e fortaleza

obstinado

raiz e pomo
melancólico sumo

adocicado

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Ornitorrinco

Imagem: Dr. Philip Bethge / CC4.0 / imagem alterada


sou um ornitorrinco

nunca conheci
de perto

um ornitorrinco

mas sei que sou um ornitorrinco

esse jeito desajeitado
de caminhar

essa corcunda
ganha

a troco de fincar

o nariz
nos livros

cantarolar
inutilmente

por horas
e horas

ao piano

essa confusão
ao estar

na presença
dos outros

essa boca de pato
a resmungar

coisas
que os outros

não entendem

esse veneno
destilado

em forma
de palavras

injetado
na cabeça

de quem me desafia

sim, sou um ornitorrinco

vim de profundidades
alongadas

cavalgando
pelas sombras

sou um deseducador

trago festim
e escárnio

em minhas mãos

tenho a liberdade da loucura

doce puta
de Roterdã

que deita com todos
em cima da mesa

à hora do jantar

não cumpro regras

e se quebro feitiços
é apenas para lançar outros

— celebrando poesia
nos consumiremos

a todos

e por inteiro

em dias
de eterno crepúsculo

todos ornitorrincos

pés de pato
bicos de pato

veneno de arraia

bailarinas
do Bolshoi

desnaturado canto
de Bob Dylan

mergulharemos nos abismos
de todas as almas

ornitorrincas