sexta-feira, 15 de março de 2019

Ofício



a poesia é um bicho

selvagem
arisco

entocado nos limites da linguagem

o poeta coloca pratos de arroz

feijão
e carne

frutas
e doces

            à entrada da toca

não tendo mais nada a oferecer
o poeta abre suas veias

— o sangue escorre...

a poesia
tocada

bota uma pata para fora

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O novo credo



Estamos infectados pelo vírus da imbecilidade. Nunca antes, na história deste país, ser imbecil foi tão “cool”. Na religião, arte, filosofia, ciência e política: quanto mais idiota, melhor, está ok?

Poucos se arriscam a fazer uma ligação entre o péssimo momento da cultura em geral e o recrudescimento de posturas políticas extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Existe o medo de represálias, incentivadas pela onda do politicamente correto, ameaçando afogar qualquer um que ouse discordar do “mainstream” pós-moderno.

No entanto, é muito claro que, assim como na arte, filosofia e afins, na política quem comanda o baile é o discurso monossilábico, retrógrado, digno de um pré-adolescente com déficit de aprendizagem.

Vivemos em uma sociedade imbecilizada, voltada para o extremo do consumo e sem qualquer valor posto acima disso e do bem-estar imediato.

É ensinamento epicurista que, mesmo quando se busca o prazer, é preciso ter cuidado, pois a procura irrestrita pela satisfação de todos os desejos leva, mais cedo ou mais tarde, a dor extrema e, não raro, a autodestruição.

Porém, em uma sociedade imbecil, carente de introspecção, incapaz de tecer pensamentos mais complexos, de ver e representar distintos pontos de vista, de lidar com a extrema e caduca trama da realidade, viver o presente atentando para o futuro responsável é praticamente uma utopia, daquelas mais loucas e inatingíveis.

Tato faz se o amanhã trará, em função de nossas ações presentes, desconforto, guerra e ruína. O importante é seguirmos o “mito” do momento, o imbecil capaz de canalizar toda nossa estupidez, livrando a todos do fardo de ter que pensar.

A vida de um papagaio deve ser mais “fácil” do que a de um gênio, não é?

Viver na complexidade cansa. Viver com gente complexa cansa. Gênios sempre tiveram fama de chatos, atrapalhados e excêntricos. Imbecis são mais dóceis, em todas as áreas, para todas as tarefas.

Imbecilidade na religião, gerando extremismo; na arte, por meio de um minimalismo tosco e nada original; na filosofia, na forma de jargões vazios de autoajuda; na ciência, na formação de um pensamento acrítico e no corte de investimentos; e, por fim e não menos importante, imbecilidade, é claro, na política, esgoto no qual toda essa lama fétida deságua, grande bueiro de nossa terrível incompetência, de nossa demoníaca indigência intelectual.

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cópia


Seja uma pessoa normal. Obedeça a seus pais. Vá à escola. Procure ser um bom aluno. Arranje um emprego e uma namorada. Nada de sexo casual, desregrado. Case logo e tenha filhos.

Não beba. Não fume. Fique longe das drogas. Exceto das religiosas e das psiquiátricas. Dessas, pode abusar. Frequente um culto. Cristão, é claro. Pague o dízimo. Consulte, periodicamente, o psiquiatra. Tome os remédios receitados todos os dias e ganhe um sono forçado, sem pesadelos nem sonhos, repleto de vazios.

Faça um curso superior. Depois um mestrado. Doutorado. Pós-doutorado. Para poder ostentar algum tipo de autoridade. Nem que seja sobre a “rebimboca da parafuseta” kantiana. Se puder, porém, ignore a Filosofia, a Sociologia e a História. São para adolescentes. Arte? É coisa de vagabundos!

Trabalhe oito horas por dia. Faça hora extra. Não reclame. Agradeça a Deus por ter um emprego. Compre casa. Carro. Moto. Pague IPTU. IPVA. ICMS. Água. Luz. Gás. Bata no peito e diga: “estou ajudando a construir uma nação”. Sorria. Finja estar feliz.

Abra mão de seus sonhos. Em prol da pessoa amada. Dos filhos. Do emprego. Da preguiça. Da covardia. Viva de adiamento em adiamento, ansiando pelo instante de se aposentar.

Louve a meritocracia e, ao mesmo tempo, reclame da falta de oportunidades. Afinal, a meritocracia é ótima — para os outros. Aprenda a culpar a tudo e a todos, por aqueles fracassos que só a você pertencem. Culpe seus pais. Os políticos. O país. A “conjuntura econômica”. 

Seja normal. Seja não apenas doente, mas comum. Cópia. Hipócrita. Gente de bem.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quem é escritor?

            
            Escritor é quem escreve visando o aprimoramento estético de sua escrita, por certo período contínuo de tempo e dando importância a esse ato. Como qualquer ideia, essa também é incapaz de abarcar todo o fenômeno. Podemos, no entanto, supor algumas coisas.

           Em primeiro lugar, é preciso definir o que se entende por "aprimoramento". Não significa, aqui, algo "ex nihilo" ou um "Deus ex machina". Não é "ex nihilo" por que depende da bagagem cultural do indivíduo. Não é "ex machina" por que não tem origem metafísica. É algo que parte do sujeito e toma o próprio sujeito como uma unidade de medida. É algo interno, encerrado em si.

           Seria a prosa de Conrad mais "aprimorada" que a de Hemingway? A poesia de Dante "melhor" que a de Rimbaud? Nada disso. O aprimoramento, aqui, diz respeito ao ponto de partida do sujeito em relação a si mesmo. Se hoje, a partir de determinados critérios, escrevo melhor que ontem, então estou me aprimorando. Se reescrevo inúmeras vezes uma frase, é por que busco um aprimoramento estético. Isso basta.

            Em segundo lugar, é preciso buscar esse aprimoramento por certo período contínuo de tempo. A continuidade é imprescindível. Se por apenas um dia procuro escrever melhor, isso não me faz um escritor. Agora, se passo um, cinco ou dez anos, de um modo mais ou menos contínuo, tentando aprimorar minha escrita, aí sim, temos alguma coisa. Quem é escritor, portanto, possui um desejo quase permanente de escrever mais e melhor.

           Por fim, o ato de buscar um aprimoramento estético permanente em sua escrita precisa ser algo importante para o sujeito. Esse ato terá um forte apelo psicológico, existencial.

           Portanto, se escrevo visando o aprimoramento estético de minha escrita e o faço por certo período mais ou menos contínuo de tempo, tendo esse ato importância em minha vida, sou escritor.

           É possível, agora, definir o que um escritor NÃO é, pelo menos NÃO NECESSARIAMENTE: não é quem tem livro publicado; não é quem é famoso; não é um ser inspirado, genial.